Quais são os problemas morais mais importantes do nosso tempo?

Por Will MacAskill (TED)

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Como podemos fazer o maior bem pelo mundo? (Arte digital: José Oliveira | Imagem: TED)

 

Este gráfico representa a história da economia da civilização humana.

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Não está a acontecer muita coisa, pois não? Durante a maior parte da história humana, praticamente todas as pessoas viveram com o equivalente a um dólar por dia, e isso não mudou muito.

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Mas depois, algo de extraordinário aconteceu: as Revoluções Industrial e Científica. E o gráfico basicamente plano que acabamos de ver transforma-se nisto. O que esse gráfico significa é que, em termos de poder para mudar o mundo, vivemos num momento sem precedentes na história humana, e acredito que o nosso entendimento ético ainda não se apercebeu desse facto. As Revoluções Industrial e Científica transformaram a nossa compreensão do mundo e a nossa capacidade de o alterar. O que precisamos é de uma revolução ética para que possamos descobrir como usar essa enorme abundância de recursos para melhorar o mundo.

Nos últimos 10 anos, eu e os meus colegas desenvolvemos um programa de filosofia e pesquisa a que chamamos altruísmo eficaz. Este tenta responder a essas mudanças radicais no nosso mundo, usa as evidências e um raciocínio cuidadoso para tentar responder a esta pergunta: como podemos fazer o maior bem? Ora, há muitas questões que é preciso enfrentar se quisermos resolver esse problema: seja fazer o bem por meio da nossa caridade, ou da nossa carreira, ou do nosso envolvimento político, em que programas nos concentrarmos, com quem trabalhar. Mas queria falar sobre o que me parece ser o problema mais fundamental. De entre os muitos problemas que o mundo enfrenta, em quais nos devemos concentrar para tentar resolver primeiro? Bom, vou apresentar-lhes um enquadramento para pensar sobre essa questão, e é um enquadramento muito simples. Um problema é de maior prioridade, quanto maior for, quanto mais facilmente solucionável e quanto mais negligenciado for. Maior é melhor, porque temos mais a ganhar se resolvermos o problema. Mais fácil de solucionar é melhor porque posso resolver o problema com menos tempo ou dinheiro. E o mais imperceptível, mais negligenciado é melhor, devido à lei dos rendimentos decrescentes. Quanto mais recursos já tiverem sido investidos na solução de um problema, mais difícil será fazer um progresso adicional. Ora, o ponto essencial que vos quero deixar é esse enquadramento, para que possam pensar por vocês mesmos quais são as maiores prioridades globais. Mas eu e outros na comunidade do altruísmo eficaz convergimos em três questões morais que acreditamos serem extraordinariamente importantes, e que obtêm uma pontuação excepcionalmente boa neste enquadramento.

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A primeira é a saúde global. Esta é super-solucionável. Temos um histórico incrível em saúde global. As taxas de mortalidade por sarampo, malária e diarreia desceram mais de 70%. E em 1980, erradicamos a varíola. Calculo que desse modo salvamos mais de 60 milhões de vidas. Isso representa mais vidas salvas do que se tivéssemos alcançado a paz mundial nesse mesmo período de tempo. Com as nossas melhores estimativas actuais, podemos salvar uma vida por apenas alguns milhares de dólares ao distribuir mosquiteiros tratados com insecticida de longa duração. Esta é uma oportunidade incrível.

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A segunda grande prioridade é a pecuária industrial. Esta é super-negligenciada. Há 50 mil milhões de animais terrestres usados ​​todos os anos para a alimentação, e a grande maioria deles é criada na pecuária industrial, vivendo em condições de sofrimento horrível. Provavelmente estão entre as criaturas em pior situação no planeta e, em muitos casos, podemos melhorar significativamente as suas vidas por apenas alguns cêntimos por animal.No entanto, isto é extremamente negligenciado.

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Existem 3 000 vezes mais animais na pecuária industrial do que animais de estimação abandonados, mas no entanto, a pecuária industrial recebe um quinquagésimo do financiamento filantrópico. Isso significa que recursos adicionais nesta área podem ter um impacto verdadeiramente transformador.

Agora, a terceira área é aquela em que pretendo concentrar-me mais, e é a da categoria dos riscos existenciais: eventos como uma guerra nuclear ou uma pandemia global que poderiam fazer descarrilar a civilização permanentemente ou mesmo levar à extinção da espécie humana. Deixem-me explicar por que me parece que essa é uma prioridade tão grande em termos desse enquadramento.

Primeiro a dimensão. Até que ponto seria mau se houvesse uma verdadeira catástrofe existencial? Bom, isso significaria a morte de todos os sete mil milhões de pessoas neste planeta e isso iria inclui-lo a si e a todos que conhece e ama. Isso é precisamente uma tragédia de dimensão inimaginável. Mas então, para além disso, significaria também a redução do potencial futuro da humanidade, e acredito que o potencial da humanidade é vasto. A espécie humana existe há cerca de 200 000 anos e, se viver tanto como uma espécie típica de mamífero, duraria cerca de dois milhões de anos. Se a espécie humana fosse um único indivíduo, hoje teria apenas 10 anos de idade. E para além do mais, a espécie humana não é uma espécie típica de mamíferos. Não há razão para, se tivermos cuidado, morrermos depois de apenas dois milhões de anos. A terra permanecerá habitável por mais 500 milhões de anos. E se algum dia, viajássemos para as estrelas, a civilização poderia continuar por mais uns milhares de milhões [Br. bilhões].

Parece-me que o futuro irá ser muito longo, mas irá ser bom? Será que vale sequer a pena preservar a espécie humana? Bem, ouvimos falar constantemente sobre como as coisas estão a piorar, mas parece-me que, quando pensamos a longo prazo, as coisas estão a ficar radicalmente melhores.

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Aqui está, por exemplo, a esperança de vida ao longo do tempo.

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Aqui está a proporção de pessoas que não vive em pobreza extrema.

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Aqui está o número de países que ao longo do tempo descriminalizou a homossexualidade.

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Aqui está o número de países que ao longo do tempo se tornou democrático.

 

Então, quando olhamos para o futuro, pode haver novamente muito mais para conseguir. Seremos tão ricos que poderemos resolver muitos problemas que ​​hoje são impossíveis de resolver.

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Portanto, se isto é uma espécie de gráfico de como a humanidade tem progredido em termos do florescimento humano total ao longo do tempo, bem, é a isto que esperamos que o progresso futuro se assemelhe. É vasto.

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Aqui, por exemplo, é onde esperamos que ninguém viva em pobreza extrema. Aqui é onde esperamos que todos estejam em melhor situação do que a pessoa mais rica viva hoje. Talvez aqui seja onde descobrimos as leis naturais fundamentais que governam o nosso mundo. Talvez aqui seja onde descobrimos uma forma inteiramente nova de arte, uma forma de música para a qual actualmente não temos ouvido para apreciar. E isto é apenas nos próximos milhares de anos. E assim que pensamos para lá disso, bem, não podemos sequer imaginar as dimensões que a realização humana poderá alcançar.

Então o futuro poderá ser muito longo e poderá ser muito bom, mas haverá maneiras de perdermos esse valor? E, infelizmente, penso que sim. Os dois últimos séculos trouxeram um tremendo progresso tecnológico, mas também trouxeram os riscos globais da guerra nuclear e a possibilidade de mudanças climáticas extremas. Quando olhamos para os próximos séculos, devemos esperar ver o mesmo padrão novamente. E podemos ver algumas tecnologias radicalmente poderosas no horizonte. A biologia sintética pode dar-nos o poder de criar vírus de contágio e letalidade sem precedentes. A geoengenharia pode dar-nos o poder de alterar dramaticamente o clima da Terra. A inteligência artificial pode dar-nos o poder de criar agentes inteligentes com capacidades superiores às nossas. Agora, não estou a afirmar que qualquer um destes riscos seja particularmente provável, mas quando está tanto em causa, até mesmo as pequenas probabilidades são muito importantes. Imagine que estava a entrar num avião e que estava um pouco nervoso, e o piloto para o tranquilizar dizia: “Há apenas uma hipótese em mil de nos despenharmos. Não se preocupe.” Iria sentir-se tranquilo? Por estas razões, penso que preservar o futuro da humanidade está entre os problemas mais importantes que enfrentamos actualmente.

Mas continuemos a usar este enquadramento. Será que este problema é negligenciado? E parece-me que a resposta é sim, e isto porque os problemas que afectam as gerações futuras são muitas vezes negligenciados. Porquê? Porque as pessoas do futuro não participam nos mercados de hoje. Não têm voto. Não é como se houvesse um lobby a representar os interesses de quem irá nascer em 2300 dC. Estes não conseguem influenciar as decisões que tomamos hoje. Não têm voz. E isso significa que ainda gastamos uma quantia insignificante nessas questões: a não-proliferação nuclear, a geoengenharia, os riscos biológicos, a segurança da inteligência artificial.

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Todos estes recebem apenas algumas dezenas de milhões de dólares em financiamento filantrópico por ano. Isso é minúsculo comparado com os 390 mil milhões de dólares que no total são gastos em filantropia nos EUA.

O aspecto final do nosso enquadramento, então: será isso solucionável? Eu acredito que sim. Podemos contribuir com o nosso dinheiro, a nossa carreira ou o nosso envolvimento político. Com o nosso dinheiro, podemos apoiar organizações que se concentram nestes riscos, como a Nuclear Threat Initiative, que faz campanha para retirar as armas nucleares do alerta de activação imediata, ou o Blue Ribbon Panel, que desenvolve políticas para minimizar os danos causados ​​por pandemias naturais e artificiais, ou o Center for Human-Compatible AI, que faz pesquisa técnica para garantir que os sistemas de IA (inteligência artificial) sejam seguros e confiáveis. Com o envolvimento político, podemos votar em candidatos que se preocupam com estes riscos, e podemos apoiar uma maior cooperação internacional. E ainda, com a nossa carreira, há tanta coisa que podemos fazer. É claro que precisamos de cientistas, formuladores de políticas e líderes de organizações e, não menos importante, também precisamos de contabilistas, gerentes e assistentes para trabalhar nessas organizações que estão a enfrentar esses problemas.

Ora, o programa de pesquisa do altruísmo eficaz ainda está na sua fase inicial, e ainda há muita coisa que não sabemos. Mas mesmo com o que aprendemos até agora, podemos ver que, ao pensarmos cuidadosamente e ao centrarmo-nos nos problemas que são importantes, solucionáveis ​​e negligenciados, podemos fazer uma diferença tremenda para o mundo por milhares de anos.

 


Palestra de Will MacAskill na TED 2018, em Abril de 2018.

Tradução José Oliveira. Revisão Lara André.

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