A Filosofia Central do Altruísmo Eficaz

Por Brian Berkey (Univ. do Minho)

Filosofia do AE

Qual é a Filosofia central do Altruísmo Eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografia: Pixabay)

 

A definição de AE de Peter Singer: “uma filosofia e um movimento social que aplica evidências e a razão para descobrir as formas mais eficazes de melhorar o mundo”.

O meu objectivo: desenvolver uma visão sobre como devemos entender os compromissos centrais do AE, à luz dos desafios apresentados pelo objectivo de construir um movimento social.

A minha visão: O AE pode ser bastante ecuménico face a uma série de questões na teoria moral e política sobre as quais existe discordância filosófica substancial, mas deve adoptar posições controversas sobre algumas questões-chave.

 

I. Preocupações Morais Centrais do AE

 

Os AEs tendem a:

  • Doar dinheiro a instituições de caridade consideradas altamente eficazes (p.ex. recomendadas pela GiveWell).
  • Levar estilos de vida modestos, de modo a limitar os impactos negativos e a poder doar mais.
  • Escolher uma carreira baseada na forma mais adequada de poder contribuir para melhorar o mundo.
  • Contribuir para os esforços que determinem quais são as melhores maneiras de melhorar o mundo.
  • Tomar decisões relativamente à alocação de recursos com base em evidências sobre as melhores formas de melhorar o mundo.

 

Os AEs tendem a criticar:

  • Gastos com bens de luxo.
  • Doações a, p. ex., universidades ricas ou ao teatro de ópera local.
  • Doações a causas que nos preocupam muito, em vez de se doar para onde os recursos farão um bem maior.
  • Doações sem analisar as evidências sobre a eficácia de diferentes organizações.

 

Alguns Compromissos Centrais do AE:

  1. Razões Fortes e Baseadas em Interesses: as necessidades e interesses dos indivíduos dão-nos razões fortes para agirmos.
  2. Imparcialidade Cosmopolita: as necessidades e os interesses de todas as pessoas são, e devem ser, tratados como sendo igualmente importantes em termos morais, pelo menos nas decisões de doação.
  3. Tomada de Decisões Baseada em Evidências: devemos reunir tantas evidências quanto pudermos (de modo custo-eficaz) sobre o que é alcançado por meio de diferentes esforços para melhorar o mundo e decidir o que fazer com base nessas evidências.

 

II. Em que medida pode o AE ser ecuménico?

 

II.1: Direitos e Restrições Deontológicos

  • Não há nada nos compromissos centrais que eu tenha identificado, nem nas recomendações das avaliadoras de instituições de caridade do AE, ou nos tipos de coisas que os AEs, enquanto AEs, tendem a fazer ou a dizer, que sejam inconsistentes com direitos ou restrições deontológicos.
  • Isso não deveria surpreender, já que o AE é sobre beneficência, e embora os consequencialistas tendam a aceitar obrigações de beneficência mais rigorosas do que outros, não há nada de inconsistente em aceitar que existem fortes razões morais para ajudar os necessitados e também que existem direitos ou restrições deontológicos que devam ser respeitados.

 

II.2: Princípios Distributivos e de Justiça

  • Também não há nada nos compromissos centrais que seja inconsistente com a aceitação de princípios distributivos não utilitaristas (p. ex. princípios igualitários ou prioritaristas).

 

II.3: Acção Política e Mudança Institucional

  • Os compromissos do AE com as Razões Fortes e Baseadas em Interesses e a Tomada de Decisões Baseada em Evidências parecem excluir o tipo de compromisso não contingente de promover as mudanças institucionais em vez da ajuda directa que alguns críticos do AE apoiam.
  • Mas repare-se que, nesta questão, os críticos afirmam que o AE é demasiado ecuménico, na medida em que falta esse compromisso não contingente. Isso permite que o movimento inclua pessoas que discordam substancialmente em questões de política governamental apropriada (p.ex. libertários e socialistas).

 

II.4: Obrigações e Grau de Exigência

  • Os argumentos apresentados por alguns (p.ex. Bowen e Pummer) para a visão de que o AE não precisa incluir um compromisso central com obrigações incondicionais de beneficência, fracassam porque minam a base de muitas das críticas morais que os AEs tendem a fazer às escolhas individuais.
  • Por exemplo, essas duas visões deixariam os AEs sem nenhuma base para criticar aqueles que genuinamente se importam muito mais em beneficiar as universidades ricas do que se importam em beneficiar os pobres do mundo, e fazem doações de acordo com isso, ou aqueles que gastam todo o seu rendimento disponível em si mesmos. Mais importante, essas duas visões são incompatíveis com a aceitação da imparcialidade cosmopolita como um compromisso central do AE.
  • O AE pode, no entanto, ser razoavelmente ecuménico sobre a exigência das nossas obrigações incondicionais de beneficência, uma vez que as Razões Fortes Baseadas em Interesses e a Imparcialidade Cosmopolita não comprometem os AEs a qualquer visão particular sobre como o nosso compromisso com a igual importância moral das necessidades e interesses de todos possa ou não ser contrabalançado com considerações potencialmente antagónicas, tais como projectos pessoais.

 

II.5: Parcialidade Permissível e Obrigações Especiais

  • O AE pode ser bastante ecuménico acerca do grau de parcialidade permissível face aos entes queridos e amigos e sobre a existência e extensão das obrigações especiais para tais pessoas. Os compromissos centrais (incluindo o compromisso com as obrigações incondicionais de beneficência) implicam apenas que há uma parte dos recursos de uma pessoa favorecida que esta é obrigada a dedicar a melhorar eficazmente o mundo. É coerente com esse ponto de vista afirmar que, com os seus recursos restantes, essa pessoa pode ser parcial face aos seus entes queridos e/ou que tenha obrigações de dedicar alguns desses recursos a pessoas específicas.

 

III. Um Consenso Sobreposto do AE

 

Os três compromissos centrais identificados na secção I, juntamente com as obrigações incondicionais de beneficência, podem ser considerados como a filosofia central do AE. Podem ser pensados ​​para desempenhar o mesmo papel dentro do movimento AE que o compromisso com os princípios centrais de justiça desempenham dentro do liberalismo político de Rawls. Sob esse ponto de vista, assim como o compromisso com um “consenso sobreposto” dos valores liberais centrais permite que a justa cooperação social seja mantida, apesar das divergências profundas sobre uma série de outras questões morais, o compromisso com a filosofia central do AE pode permitir a promoção cooperativa dos objectivos morais centrais do AE, apesar de divergências profundas sobre outras questões morais.

 


Resumo de uma palestra apresentada por Brian Berkey na Universidade do Minho, 12 de Junho de 2018 (traduzido com a autorização do autor).

Tradução José Oliveira.

 

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