Razões para agir

Por Celso Vieira

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Que tipo de razões para ações altruístas? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

A maneira mais satisfatória de explicar a alguém o porquê de nossas ações é explicitar as razões que nos levaram a realizar a ação. No entanto, normalmente, não pensamos muito sobre quais são as características e propriedades dessas razões. Esse tipo de negligência pode prejudicar o modo como usamos as razões para nos levar a agir. Na sequência apresento uma introdução sobre os tipos de razões com o intuito de adquirirmos algumas ferramentas para um uso mais consciente das ações que, assim se espera, culminará em melhores ações. O que é especialmente importante no caso das nossas ações altruístas.

Atualmente, a posição mais consensual é dividir essa questão em três tipos de razões: as normativas, as motivadoras e as explicativas.

(i) Uma razão é normativa quando justifica uma ação caso fosse julgada por um observador imparcial bem informado. Trata-se de uma razão fatual na medida em que usa um fato no mundo para justificar uma ação.

(ii) Uma razão é motivadora quando um agente a utiliza psicologicamente para motivar a sua ação. Trata-se de um fato (putativo) na mente do agente que o move.

(iii) Uma ação é explicativa quando explica a ação do agente sem, necessariamente, ser a que justifica ou motiva o agente. Trata-se de um fato na mente que não precisa ser consciente.

A diferença entre a razão normativa e a motivadora é a diferença entre um fato no mundo e a crença nesse fato no mundo. Por exemplo, se perguntada porque doa para a Hellen Keller International (HKI), Luísa responde: porque falta de vitamina A é uma causa de mortalidade infantil.

Para ser uma razão normativa é necessário que seja um FATO no mundo que a falta de vitamina A leva crianças à morte. Como tal, isso não depende da opinião ou crença de Luísa. Assim, todo observador racional que verificar que a falta de vitamina A leva crianças à morte deveria ser compelido a doar para a HKI.

Assim, no quadro mais simples, fatos justificam ações, ou seja, há um fato no mundo (a falta de vitamina A) que dá uma razão para qualquer agente racional agir de certo modo (suprir a falta). No entanto, isso pode não ser tudo o que acontece. Enquanto seres humanos nós não somos muito bons a conhecer o que realmente acontece no mundo. A razão normativa, por ser baseada em fatos, não acomoda bem os casos em que estamos errados. Isso porque no caso de um erro do agente a sua ação seria causada por um não-fato no mundo.[1] Não faz muito sentido que algo que não exista seja uma causa. Vamos pensar em outra situação.

Laís acredita que a HKI precisa de mais recursos para expandir sua área de atuação. Por essa razão, ela decide doar para essa ONG. No entanto, suponhamos que não é o caso que a atuação em essas outras áreas seja recomendável. Se for assim, ela agiu seguindo uma crença falsa em um fato aparente mas não real. Para dar conta de casos como esses é que precisamos das razões motivadoras. Essas razões se referem a estados mentais como ACREDITAR que a expansão para outras áreas será tão eficaz quanto a atuação atual. Esse fato mental (acreditar) explica a ação de quem age em vista de um fato aparente (algo que não é o caso).

Em suma, o que nos motiva a agir são as nossas crenças (e outros estados mentais), o que justifica as nossas crenças são os fatos no mundo. Desses dois tipos de razão – e sua possível relação – surgiu a tese da identidade como ideal de razão para ação. Essa tese defende que a condição que devemos buscar é aquela em que nossas razões motivadoras são as razões normativas. Precisamos ir além das nossas crenças para verificar se os fatos no mundo corroboram nossas motivações.

Fatos no mundo, principalmente no caso da ajuda humanitária, são muito complexos para que tenhamos um estado de conhecimento pleno acerca de seus efeitos. É por isso que não podemos adotar a verdade (em sentido estrito) como requisito para aceitar uma ação como justificativa. A alternativa mais plausível parece ser o que se chama de confiabilidade. Segundo essa posição, devemos seguir as crenças que foram adquiridas segundo um método confiável. Por exemplo, a análise da GiveWell sobre a HKI que confirma a posição de Luísa e acha evidências, porém mais fracas, sobre a posição de Laís.

Muitos acham que a razão motivadora é também a razão explicativa, ou seja, para entender porque Laís agiu de tal modo basta entendermos as suas crenças, e, como vimos, um erro nas crenças explicaria o erro nas ações sem ter que se postular não-fatos. No entanto, descobertas recentes da psicologia apontam para uma situação mais complexa. Certos experimentos sugerem que nem sempre estamos certos sobre o que nos motiva. Por exemplo, pessoas que são sinceras ao afirmar que não consideram ‘nacionalidade’ como um critério de escolha, ainda assim acabam fazendo escolhas baseadas na nacionalidade. E mais, quando perguntadas pela razão da escolha elas acabam confabulando outras razões mais de acordo com as suas crenças. Esse tipo de viés implícito comprova a necessidade entre a diferenciação de uma razão motivadora e uma razão explicativa, uma vez que aquilo que o agente toma como motivo da sua ação não explica a sua ação.

Imagine que Luísa, quando criança, leu o livro da Helen Keller e ficou bastante comovida. Hoje em dia, mesmo sem ter consciência disso, quando colocada diante de algumas opções de caridade para doar, ela pode seguir esse viés implícito e acabar escolhendo a HKF ainda que declare como razão motivadora a crença no fato de que a vitamina A provoca mortes entre as crianças.

Uma questão que surge é se devemos incorporar as razões explicativas no critério de identidade. À primeira vista, parece que devemos. O cenário ideal seria agir seguindo uma razão cuja crença é justificada por um método de aquisição confiável e que essa crença explicasse a nossa motivação. Ou seja, no domínio do altruísmo eficaz, quando escolhemos uma causa, intervenção ou ONG a apoiar, idealmente deveríamos sentir-nos motivados devido ao fato de sustentarmos essa ação em razões fundamentadas nas melhores evidências disponíveis.

Apesar do caráter introdutório, espero que o leitor tenha adquirido algum conhecimento instrumental dos tipos de razão a fim de colocar suas próprias razões sob escrutínio para verificar se suas ações são justificadas.

 

[1] Pois caso Luísa pensasse que era a carência da vitamina C que provocava cegueira e agisse com base nessa crença estaria a agir com base numa crença errada ou num não-fato (não é um fato que a carência de vitamina C cause cegueira).


Texto de Celso Vieira.

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