Os Efeitos da Mudança de Perspectiva no nosso Comportamento Altruísta: Uma primeira análise em filosofia experimental.

Por Celso Vieira

Doar, pela emoção ou pela razão? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Em uma postagem anterior, eu compartilhei os primeiros resultados de um estudo de filosofia experimental que tenta mapear a eficácia de diferentes estímulos para convencer as pessoas a fazer doações. Trata-se de um trabalho em progresso. As seguintes condições serão testadas para perceber como motivam a doação à GiveDirectly (uma organização que faz transferências de dinheiro para os mais pobres):

Controle: um texto descritivo sobre o que a GiveDirectly faz.

Apenas Fatos: Uma lista dos resultados de investigações empíricas sobre a atuação da GiveDirectly.

Narrativa: Um testemunho em primeira pessoa de uma beneficiária da GiveDirectlty.

Argumento à la Singer: A adaptação de um argumento do mesmo tipo usado por Peter Singer, mas usando transferência de dinheiro e sem uma descrição tão emotiva.

Raciocínio virtuoso: Nessa condição o participante deve assumir a perspectiva de uma pessoa sensata que faz transferência de dinheiro aos mais pobres e dar três razões para isso.

Depois de ler um dos cenários, o participante é informado que 5% dos participantes serão escolhidos aleatoriamente para receber 5$ além da quantia que eles recebem por participar de um experimento. Em seguida, eles são perguntados se gostariam de doar alguma parcela desse dinheiro.

O embasamento e os primeiros resultados podem ser conferidos na postagem anterior. Uma segunda fase exploratória consiste em examinar as razões oferecidas pelos participantes da condição relativa ao raciocínio virtuoso. Este ensaio apresenta as primeiras reflexões sobre essa exploração.

O grupo Raciocínio Virtuoso contou com 175 participantes recrutados pela plataforma Prolific. Desses, 109 declaram ser mulheres, 62 homens, 3 não-binários e 1 preferiu não declarar.

Um participante foi excluído porque ao assumir a perspectiva de uma pessoa razoável que faz doações ele respondeu: “eu nunca vou ser essa pessoa” e, de modo incoerente, doou 5$.

Qualitativo

Uma breve análise mais qualitativa revela casos individuais interessantes. É preciso ter em mente que os participantes deveriam assumir a perspectiva de um agente razoável que faz transferências diretas de dinheiro para pessoas que estão entre os mais pobres do planeta. Para estudos que comprovam que assumir a perspectiva de outros melhora a nossa relação com crenças e opiniões que não são as nossas, ver a primeira postagem.

O participante que mais assumiu a perspectiva do outro descreveu a sua situação passada como um motivo: ‘Eu nem sempre tive muito dinheiro para moradia ou comida…’ O comprometimento parece ter funcionado pois esse participante doou 5$.

Vários participantes deram razões baseadas no interesse próprio para fazer a doação. Desde vantagens religiosas como benção e melhor destino após a morte, passando por reduzir a violência e, no extremo, ‘parecer uma boa pessoa’. Nesse último caso a doação foi 0$. Porém, o caso mais comum de autointeresse tem a ver também com tomar uma perspectiva diferente, a saber, eles dizem que podemos ou podíamos estar nessa situação e, se fosse o caso, seria bom que alguém nos ajudasse. As doações nesse caso são mais altas.

Vários estudos comprovam que o fato de se colocar na perspectiva da vítima aumenta a nossa empatia que, é claro, se converte em ações mais altruístas. No entanto, o nosso objetivo com esse experimento foi outro. Ao propormos que eles assumissem a perspectiva de uma pessoa razoável, tentamos explorar a mudança de perspectiva em vista da identificação com um agente que toma decisões altruístas e não com os beneficiários. Assim, tentamos explorar mais o lado da razão do que o da emoção. Esses casos mostram que, para muitos, alguém razoável deve tomar a perspectiva dos beneficiários. Isso condiz com o estudo citado na postagem anterior, segundo o qual o uso do termo “razoável” leva a ações mais cooperativas, ao passo que o uso de “racional” tende a levar a ações mais egoístas. Que a realidade é complexa fica claro nos vários tipos de razões baseados em autointeresse supracitados.

É muito comum as pessoas atribuírem algum tipo de comportamento vicioso aos mais pobres para justificarem porque não dão dinheiro a eles. Exemplos comuns são que eles vão gastar com álcool e drogas, ou que não sabem lidar com dinheiro. Em vista disso, outro traço notável da mudança de perspectiva, é que os participantes, ao darem razões para as suas doações, atribuem algum tipo de vício a si mesmos e não aos beneficiários. Por exemplo, muitos dizem que se não doassem gastariam o dinheiro com coisas que não precisam, ou iriam guardar e acumular para além da conta.

Um caso interessante é o de um participante que usou, conscientemente ou não, as três razões de um modo que elas formaram quase um argumento em círculo:

Eu, como agente razoável, doo porque:

1) Eles precisam.

2) Precisar é uma questão de infortúnio.

3) Nós podemos vir a precisar.

Donde, temos o seguinte, é preciso ajudar quem quer que precise. Isso porque quem precisa é por causa de algum infortúnio. Se é uma questão de infortúnio, todos podemos, algum dia, vir a precisar. Logo, devemos ajudar, pois basta precisar para merecer ajuda. O ciclo se fecha, mas não é um ciclo falacioso em que se assume a conclusão de antemão.

Entre as assunções de o que os beneficiários fariam com o dinheiro, a maior ocorrência é de palavras relacionadas à alimentação. No entanto, habitação e educação dos filhos também recorrem com certa frequência. Alguns também mencionam que eles podem guardar para o futuro ou, ainda, usar a doação para um impulso necessário para escapar da armadilha da pobreza.

O vocabulário moral mais técnico não apareceu muito. As exceções, mostram dois extremos. Por exemplo, um deu como razão ser ‘eticamente correto’ e doou 0$, ao passo que outro justificou como um ‘dever moral’ e doou 5$.

Esse tipo de variação mostra que, ainda que os casos individuais sejam interessantes para extrair hipóteses que devem ser testadas, não é seguro extrair conclusões deles. Em vista disso, parece melhor usar algumas técnicas de mineração textual. Mais uma vez, trata-se de apenas uma exploração e os resultados devem ser vistos com um certo ceticismo.

Quantitativo

Essa tabela mostra as 50 palavras mais usadas (excluindo artigos, preposições e similares)

Palavra / Número de ocorrências Palavra / Número de ocorrências
1 help 120
2 poor 81
3 can 74
4 people 73
5 money 59
6 need 58
7 less 39
8 good 39
9 better 39
10 make 36
11 fortunate 33
12 others 33
13 food 30
14 life 30
15 feel 29
16 give 29
17 someone 27
18 us 27
19 helping 24
20 person 22
21 society 22
22 makes 20
23 thing 19
24 get 18
25 income 18
26 everyone 17
27 might 16
28 world 16
29 giving 15
30 live 15
31 helps 15
32 like 14
33 poverty 14
34 donations 14
35 improve 13
36 lives 13
37 right 13
38 wealth 13
39 much 13
40 cash 13
41 enough 12
42 community 12
43 basic 12
44 small 12
45 pay 11
46 one 11
47 difference 11
48 want 11
49 needs 10
50 may 10

Ainda que ocorrências como “money”, “help” e “poor” sejam esperadas e, portanto, pouco informativas, elas confirmam que a maioria dos participantes se engajou de maneira esperada no exercício. Abaixo, temos uma nuvem de palavras que exclui essas ocorrências:

A recorrência de palavras como “Can” reflete o maior apelo das transferências diretas de dinheiro que é a independência de decisão. Por outro lado, ocorrências como “Need”, e valores específicos como “Food” mostram que há uma assunção de que esse dinheiro seja usado para suprir necessidades básicas. Ainda que em menor grau, os direitos a moradia e educação ocorreram com certa frequência, o que prova o reconhecimento desses como direitos universais. Palavras como “Less” e “Wealth” mostram uma preocupação com a igualdade. “Society” e “Community” apresentam um nível mais político e outro mais social de uma moralidade coletiva. “Feel” está geralmente aplicada ao doador que, supostamente, se sente bem ao doar. O aspecto da sorte, no qual fica claro um pensamento de que os mais pobres não são responsáveis pelo seu estado aparece em “Fortunate” e similares. Palavras como “Right” e “Better” desvelam o contexto das virtudes morais.

Agrupamentos

Baseado nessas tendências, eu separei sete grupos de palavras que revelam os pontos centrais usados como razões para se fazer transferências diretas de dinheiro. Os grupos e alguns exemplos aparecem a seguir. Entre parêntesis temos o número de participantes e o valor médio de doação de cada grupo.

Autointeresse (40-2,98$): sentir bem, segurança, estabilidade, podemos precisar, interesse, proteger.

Comunidade (54-3,46$): irmãos, comunidade, vizinhança, local, todos.

Desigualdade (76-2,99$): desequilíbrio, acúmulo, riqueza, grande, desigualdade, primeiro mundo, redistribuição.

Dinheiro (57-2,63$): direto, dinheiro, intermediário, investir, recurso.

Necessidade (61-3,09$): pobreza, comida, escola, educação, teto, estresse, oportunidade.

Sorte (32-3,38$): fortuna, infortúnio, sem culpa, sem controle, não pediram.

Virtude (59-2,96$): Bondade, correto, generosidade, responsabilidade, compaixão, obrigação.

Vemos que não há uma variação tão grande no número de participantes em cada grupo. A maior parte fica entre 40 a 61 participantes. O menor grupo é o dos termos relacionados à Sorte com 32 participantes. O maior grupo menciona a Desigualdade, com 76. O que é um pouco surpreendente. Eu esperava que o grupo da Necessidade fosse mais numeroso. Este, com certeza, é o que tem maior variação de termos. É preciso lembrar que o agrupamento é por uso de palavras e cada participante tinha que dar três razões. Logo, um participante pode figurar em vários grupos.

Em relação à doação média, a maioria dos grupos fica entre 3$, ou seja, um pouco acima da metade. Os participantes tinham 5$ para doar. A maior variação fica com a condição Dinheiro, em que a média é consideravelmente mais baixa. Já Sorte e Comunidade ficam consideravelmente mais acima. Comunidade, com 3,46$, teve o maior valor.

Essa breve análise revela que a desigualdade é o que mais aparece na mente das pessoas como uma razão para doar. Parece, então, que uma noção global de justiça já faz parte do senso comum (pelo menos da população representada pelos participantes da pesquisa (a saber, falantes de inglês, majoritariamente habitantes do Reino Unido e Estados Unidos). No entanto, essa noção de justiça não é o que gera mais doações. A eficácia da Comunidade parece indicar ainda um certo localismo ou empatia grupal-tribalista como motivadora de doações. Em uma reflexão futura, será interessante analisar como essa divisão pode ser entendida em vista da divisão entre emoção (empatia, comunidade) e razão (justiça, mais impessoal).

Gráficos

O mais informativo, para uma primeira análise, é comparar os histogramas que comparam a densidade de participantes por cada quantidade doada.

Antes de mais nada, é preciso notar que as densidades (eixo y) não têm sempre o mesmo valor. Vou corrigir isso no futuro, mas por enquanto, fica o alerta (ainda que a variação não seja assim tão grande).

Uma primeira análise mostra que, como mencionado na postagem anterior, o maior número de doações tende ao máximo (5$). Provavelmente isso está relacionado ao fato de a quantidade de dinheiro não ser muito grande.1 De qualquer forma, 5$ é muito mais do que os participantes recebem como pagamento pela participação. Serve como anedota, mas um dos participantes reclamou da ironia de estarmos falando de ajudar os outros e pagarmos tão pouco para os participantes.

Algumas observações interessantes. As condições Dinheiro e Virtude apresentam uma distribuição muito parecida com a do total dos participantes (incluindo aqueles da condição Narrativa, que não tinham que dar razões). Como o exercício era cada um se colocar na perspectiva de um agente virtuoso que faz transferência direta de dinheiro, a ocorrência desses grupos de palavras mostra que os participantes prestaram atenção no exercício. No entanto, por essas serem as escolhas mais óbvias, é possível que isso também possa refletir no fato de serem as condições em que a média doada foi menor. Visualmente, podemos verificar que isso se dá pelo número maior de participantes que não doou nada, em comparação com os outros agrupamentos.

O mais notável, para mim, é o grande número de doações 2,5$ no grupo da Desigualdade. A primeira hipótese que me vem em mente, é que pensar em desigualdade leva a pensar sobre a justiça como igualdade, que leva à ação de doar exatamente a metade. Mas é preciso ter cuidado aqui. Durante muito tempo pulularam estudos sobre primar (priming) na psicologia experimental. Eles ficaram célebres, como o caso de ler palavras relacionadas à velhice levarem os participantes a andar mais devagar após o experimento. Como a crise da replicação nas ciências sociais mostrou, não foi possível replicar grande parte desses estudos. No entanto, é curioso que em nenhuma das outras condições há uma prevalência extrema e isolada da divisão exatamente no meio.

Reforça a hipótese acima uma comparação com o grupo do Autointeresse. Aqui, o pico fica em 2$, ou seja, um pouco abaixo da metade. Essa tendência é o que se verifica em outros estudos em que os participantes jogam um jogo do ultimato. Nesse jogo, temos dois participantes e uma quantia de dinheiro, digamos, 5$. O participante 1 escolhe como repartir o dinheiro. E assim ele e o participante 2 ganharão essa quantia escolhida. O detalhe é que o participante 2 pode não aceitar a divisão. Se isso acontecer, os dois perdem a possibilidade de ganhar o que quer que seja. Em geral, o participante 1 escolhe algo um pouco abaixo da metade (40% a 42%). A estratégia tende a funcionar, pois os participantes 2 aceitam essa distribuição. No grupo do Autointeresse algo próximo disso pode estar acontecendo. Não se trata de uma divisão 50% por 50%, mas antes, eles parecem achar que é do interesse deles doar uma porção menor do que a metade. Faz sentido, se o estado mental deles é o de maximizar o seu valor, ainda que isso implique em ajudar os outros.

O grupo da Necessidade apresenta a distribuição mais variada entre valores, com exceção do 0$, que praticamente não acontece. Talvez isso reflita o fato de que as necessidades são necessidades básicas, e, portanto, cada participante tem uma estimativa diferente de quanto seria o necessário para suprir o básico.

Por fim, temos Comunidade e Sorte, como vimos, os dois grupos em que a média de doação foi mais alta. Os gráficos mostram que isso se dá por uma prevalência desproporcional das doações de 5$. O caso da Sorte parece refletir o senso comum em que o sofrimento, para ser injusto, não pode advir da responsabilidade de quem sofre. Outros estudos atestam que quem atribui responsabilidade aos mais pobres por sua condição adotam uma posição menos altruísta. Já no caso da Comunidade, o fato interessante é que aqui, diferente do caso da Desigualdade, não se trata de uma noção impessoal de justiça levando a uma redistribuição exata, meio a meio. Nesse caso, talvez guiado pela empatia, a tendência é doar a totalidade do ganho extra gerada pelo experimento. Seria interessante comparar essas atitudes nas seguintes situações:

a) Casos em que os ajudados são claramente identificados como alguém que não pertence ao grupo do participante. Se formos seguir os resultados de Paul Bloom, que aponta o lado negativo da empatia, nesse caso não haveriam muitas doações. Por outro lado, para aqueles que pensam a desigualdade em termos impessoais, essa diferença não alteraria o comportamento.

b) Casos com múltiplas interações. Por exemplo, em um experimento em que os participantes receberiam 5$ por mês durante 24 meses. Nesse caso, eu suspeito que talvez a opção de doar a quantia total deixe de ser tão popular. Se for assim, mais uma vez, uma posição mais calculada e impessoal passa a gerar um melhor resultado.

No entanto, essas são especulações. O que os resultados mostram condiz, grosso modo, com as outras pesquisas nas quais condições ligadas a emoções e empatia acabam gerando mais ações altruístas do que aquelas ligadas à razão. Isso ressalta a esquisitice do Altruísmo Eficaz em que, pelo menos a princípio, se dispõe a usar a razão para maximizar a ajuda. Por outro lado, levanta também uma fonte de risco. Afinal de contas, se a empatia e a comunidade são fortes assim, seria de se esperar que ao longo do tempo as doações passem a privilegiar aqueles que participam do próprio grupo. É só uma especulação, mas a convergência de dedicação de ideias e fundos a organizações que são parte do AE e problemas como Inteligência Artificial pode ser um traço dessa tendência.2

1 Para verificar isso, eu analisei os dados excluindo quem doou 5$. A variação, no entanto, não foi grande. As tendências que observamos nesse caso se repetem nos dados sem os doadores totais, apenas de maneira mais evidente.

2 A questão é difícil de resolver e não tenho a pretensão de, aqui, sequer começar uma investigação do nível que a sua complexidade demanda. Afinal de contas, faz sentido que quem se ocupa com um problema ache que esse problema é o mais importante e que a sua maneira de lidar com ele seja a mais promissora. No entanto, também faz sentido que essas posições sejam vítimas de viés da confirmação e de o que podemos chamar de empatia intelectual.


Por Celso Vieira.

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