Variante Delta: Tudo o que precisa de saber

Por Tomas Pueyo

Variante Delta, ainda será pior? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Penso que as pessoas não estão a prestar atenção suficiente à Delta, e nenhuma das peças que li resumia tudo o que eu queria saber. Portanto, aqui está. Espero que isto o ajude a ficar mais informado e preparado.


Os casos estão a crescer exponencialmente em todo o mundo. Mais uma vez.

Se não percebe onde isto vai parar, relembrar o passado pode ajudar. A Índia sofreu cerca de dois milhões de mortes por COVID, a maioria das quais durante o seu último surto causado pela Delta.

Vítimas da COVID-19 são cremadas em piras funerárias em Nova Deli.

E se pensa que a Europa ou os EUA serão poupados, este vídeo mostra casos nas regiões europeias em Julho de 2021 vs. Julho a Novembro de 2020.

Tal como no Verão de 2020, algumas zonas da periferia da Europa tornaram-se focos de casos em Julho e, depois disso, os casos espalharam-se por todo o lado para formar uma nova vaga.

Isto, veja bem, está a acontecer enquanto mais de 50% dos britânicos estão vacinados, e mais de 40% noutros países europeus no gráfico.

Algo semelhante está a acontecer nos EUA.

E onde quer que isto esteja a acontecer, tende a ser a Delta. Isto é o que diferentes regiões do Reino Unido estão a assistir (a Delta está a cor-de-rosa).

No Reino Unido, é a culpada de 99% dos casos no início de Julho de 2021. Nos EUA, é apenas cerca de 50%, o que significa que o crescimento de novos casos ainda irá acelerar.

Porque é que a Delta está a crescer tão rapidamente? Irá ser tão mau em todo o lado como na Índia? Será que tudo isto seria previsível? O que devemos fazer em relação a isso?

Para responder a estas questões, precisamos de começar pelo básico: as taxas de R e de letalidade.

Até que ponto a Delta é maligna?

Transmissibilidade

A variante original do Coronavírus tem um R0 de cerca de 2,71. Alfa — a “variante inglesa” que causou um pico em todo o mundo por volta do Natal — é cerca de 60% mais infecciosa. Agora parece que a Delta é, uma vez mais, cerca de 60% mais transmissível. Dependendo do número que se utilizasse, isso colocaria o R0 da Delta entre 4 e 9, o que poderia torná-la mais contagiosa do que a varíola. Só para lhe dar uma noção da consequência dramática de tal aumento do R, isto é o que dois meses de crescimento dariam com a taxa de transmissão anterior de 2,7 vs. um R de 6:

É por esta razão que hoje em dia tantos gráficos de casos sobem como foguetões. A Delta é muito contagiosa.

Aparentemente, um sujeito na Austrália foi infectado pela variante Delta só por ter passado ao lado de uma pessoa infectada, num encontro de 5 a 10 segundos. Embora este provavelmente seja um episódio isolado e, regra geral, não devamos ter medo de passar perto de outras pessoas, isto ilustra até que ponto a Delta é mais transmissível.

A proteína da espícula do vírus a vermelho está ligada ao receptor de uma célula humana (azul). Os pequenos números brancos mostram as principais mutações da Delta. Fonte: Juan Gaertner/Science Source

Portanto, sobre as taxas de transmissão é isto. E quanto às taxas de letalidade?

Taxas de letalidade

Parece que o risco de morte é 2 vezes mais elevado para a Delta do que para a variante original:

Sublinhado: “Os aumentos com a variante delta foram ainda superiores: 105% (80 a 133%) para hospitalização; 241% (163 a 344%) para entrada nos cuidados intensivos (ICU); e 121% (57 a 211%) para morte.Fonte.

Para contextualizar isso, apanhar a COVID original duplicou, aproximadamente, a sua probabilidade de morrer em qualquer idade. Isto significa que apanhar a Delta quase que a triplica.

Porque será mais mortal? Não era suposto que os vírus evoluíssem para se tornar menos virulentos ao longo do tempo? Isso era certamente o que as pessoas pensavam antes da Alfa ter aparecido. Expliquei por que razão isso era improvável.

Tomas Pueyo @tomaspueyo

A nova estirpe de #COVID é mais transmissível. Será mais mortal?


Muitas pessoas pensam que não: “Se um vírus mata mais rapidamente, tem menos oportunidades de se espalhar. É o contrapartida entre a transmissão e a virulência”.


Infelizmente, isso é demasiado simplista. 🧵
29 de Dezembro de 2020

Infelizmente, acabei por ter razão. A breve explicação é que os vírus que tendem a vingar, fazem-no porque se reproduzem mais rapidamente. Um vírus desse tipo irá crescer mais rapidamente dentro de uma pessoa, e irá tornar essa pessoa mais infecciosa, mais rapidamente. Também irá matar essa pessoa mais rapidamente.

Noutras doenças como o Ébola, matar mais depressa significa matar demasiado depressa para infectar muitas outras pessoas, pelo que este tipo de vírus não prevalece. Só vingam aqueles que ao mesmo tempo evoluem para ser menos mortíferos. Mas para a COVID no nosso sistema de saúde actual, todos os contágios acontecem desde cedo, muito mais cedo do que a morte. Portanto, fazer com que a morte ocorra mais cedo não importa muito.

Então é isto que está a acontecer com a Delta? Sim.

Uma maneira de o saber é a carga viral. Quanto maior for, mais o vírus está presente. Na China, estimaram a carga viral da Delta como sendo 1 000 vezes superior à da variante original.

O mais frustrante é que isto era completamente previsível, não apenas em Dezembro, mas mesmo em Março de 2020.

Sublinhado: “Dito de outra forma, a estratégia de mitigação não assume apenas milhões de mortes para um país como os EUA e o Reino Unido. Também arrisca com o facto de o vírus não mutar demasiado — que sabemos que este o faz. E isso irá fornecer-lhe a oportunidade para mutar.
Excerto de O Martelo e a Dança, portanto, 18 de Março de 2020. Há mais de um ano, e apenas algumas semanas depois de Wuhan2.

Assim, a Delta, tal como a Alfa antes dela, é simultaneamente mais transmissível e mais fatal. Ambos os efeitos têm a mesma origem: o vírus é muito melhor a ligar-se às células humanas, pelo que se reproduz muito mais rapidamente.

Então estão a morrer mais pessoas? Na Grã-Bretanha não.

A taxa de letalidade (Case Fatality Rate — CFR) da Delta é de 0,2%, em comparação com os 1,9% da Alfa! Ainda é cedo, mas parece que já devemos ter dados suficientes para o afirmar3. A razão principal é provavelmente a vacinação. De Israel:

A taxa de mortalidade (Infected Fatality Rat­e— IFR 4) para a variante original era de cerca de 0,01% para aqueles na casa dos 20 anos e de 0,2% para aqueles na casa dos 40.

Com a idade daqueles que agora são infectados, graças às vacinas, é claro que a nova variante irá matar menos pessoas! É por esta razão que a vacinação é tão importante.

Até que ponto as vacinas funcionam contra a Delta?

Os melhores dados que temos são de Israel, que utilizou a Pfizer.

Antes da Delta, parecia que a vacinação completa reduzia as infecções, hospitalizações e mortes em 93%, 93%, e 91% respectivamente. A vacinação parcial foi bastante boa, mas não foi tão boa.

Agora, com a Delta, parece que os números são 64%, 93% e 93% de acordo com Israel, e 79% para as infecções sintomáticas e 96% para as hospitalizações de acordo com o Reino Unido.

Dito isto, a Pfizer (e provavelmente a Moderna, enquanto vacinas de mRNA semelhantes) são provavelmente melhores do que a AstraZeneca (88% de protecção contra infecções sintomáticas vs. 60% para a AstraZeneca).

Isto significa que a protecção contra a hospitalização e a morte é quase perfeita para vacinas de mRNA, mas talvez não para as infecções. Como devemos interpretar estes dados?

Se está a pensar em si mesmo, estas são notícias bastante positivas. Sem vacinação, uma pessoa de 80 anos poderia ter tido 10% de hipóteses de morrer da COVID original e, digamos, 20% com a Delta. Agora, com uma vacina de mRNA, tem 2% de probabilidade de morrer caso seja infectado. Uma pessoa de 30 anos pode ter uma probabilidade de 0,02% de morrer, muito inferior à da gripe. Portanto, vacine-se o mais rápido possível.

Se for um político, um epidemiologista ou um líder social, o cálculo pode ser diferente e depende completamente do tipo de vacina na sua população, da sua eficácia, da taxa de transmissão das pessoas vacinadas e da vossa cultura.

Primeiro, quantas pessoas é necessário que sejam vacinadas para deter o vírus?

Limiar da Imunidade de Grupo

Se assumirmos um R0 de 8 e uma eficácia vacinal de 90% contra a transmissão, é necessário ter pelo menos 90% da população vacinada antes de se poder declarar a vitória. Nenhum país está sequer perto disso.

Considere que as vacinas de mRNA são apenas 60% eficazes contra a infecção sintomática, e que isso possa ser inferior para as outras vacinas. Se as pessoas vacinadas que acabam por ter sintomas são tão infecciosas como as que não estão vacinadas e que têm sintomas, chega-se a uma situação na qual até mesmo a vacinação completa não vai deter a epidemia, e será necessário um reforço da vacina específico para deter a Delta.

Vejamos um exemplo. Imaginemos um país que tem 50% da sua população vacinada. Imaginemos que a vacina apenas reduz a infecciosidade em 65%. Isso significa que o R só teria diminuído cerca de 33%5. Mas o R da Delta é 2 a 3 vezes mais elevado do que o original, por isso no fim das contas o R é agora cerca de 50% a 100% mais elevado do que era há um ano. Estes cálculos não são precisos, mas dão-lhe uma ideia de quanto melhor, ou pior, estaremos comparando com o ano passado.

Lembre-se, estamos no Verão no Hemisfério Norte. Agora é tudo mais fácil do que será entre Setembro e Novembro.

A COVID Longa

Ainda não falei da COVID Longa, mas também é algo a considerar. Sem vacinas, cerca de 1 em 8 infecções terão COVID Longa 6. Dito isto, se a protecção for a mesma para a COVID Longa e para a infecção, a hospitalização ou a morte, a COVID Longa desceria de cerca de 15% das infecções para cerca de 1 a 4%. Parece também que as vacinas podem reduzir a COVID Longa posteriormente. É algo a ter em mente, mas não tenho a certeza se mudaria neste momento qualquer política apenas por causa da COVID Longa. As mortes são suficientes para quantificar o lado negativo.

Conclusões

A Delta é uma variante mortífera. Espalha-se como um incêndio descontrolado e mata de forma eficiente. Temos de ser cuidadosos.

Enquanto indivíduo

Se está vacinado, está essencialmente seguro, especialmente com vacinas de mRNA. Mantenha-se atento por agora, evite eventos que possam tornar-se supercontagiantes, mas não é necessário que se preocupe muito mais do que isso.

Contudo se não está vacinado, este é um período muito mais perigoso do que em Março de 2020. A taxa de transmissão é mais elevada do que era, e se apanhar a Delta, é muito mais provável que morra — ou que apanhe COVID Longa. Deve ter um cuidado extra, só deve andar com outras pessoas vacinadas, e evitar eventos perigosos.

Caso seja um líder comunitário

Caso esteja encarregue de uma comunidade, tem dois objectivos:

  1. Vacinar, vacinar, vacinar. As vidas da sua comunidade dependem disso. Qualquer vacina que funcione é melhor do que nenhuma. Se as pessoas estiverem a recusar fazer parte, tente levá-las a participar. A maioria das pessoas não é antivacinas, mas sim indecisa, ou simplesmente não vê que o benefício supere o custo. Por isso, altere os cálculos dessas pessoas. Crie lotarias. A de Ohio, entre as primeiras, provavelmente não funcionou, mas o custo é insignificante em comparação com o custo das mortes e do encerramento da economia neste Outono.
  2. Mantenha a Delta à distância o máximo que puder enquanto a vacinação prossegue. Uma estratégia de eliminação será a melhor. Cercas adequadas nas fronteiras e programas de teste-rastreio-isolamento são as suas melhores ferramentas. Os eventos de supercontágio devem ainda assim ser evitados. As máscaras nos interiores e em multidões devem ser obrigatórias. Uma boa ventilação é uma medida imprescindível.

No entanto, se tiver vacinado todos os que querem ser vacinados, e o resto simplesmente não quiser ser vacinado, então o cálculo muda drasticamente. Se no local onde está se valoriza a liberdade do seu povo para tomar as decisões erradas (desde que não tenham impacto nos outros), então poderá considerar a abertura da economia. A Delta irá alastrar-se pelos que não estão vacinados, mas essa é a prerrogativa que lhes assiste. Talvez a realidade seja mais impactante nessa altura.

Mas isso depende realmente de cada sociedade. A abertura sem vacinação total infectaria alguns dos vacinados, cerca de 10% deles teriam COVID longa7, e cerca de 0,3% deles morreriam8.

Portanto, aqui cada sociedade precisa de se decidir. Digamos que 40% não se querem vacinar. A liberdade de 40% de não se vacinar valerá pelas mortes e a COVID Longa das pessoas vacinadas? Caso contrário, está disposto a forçar as pessoas a serem vacinadas? Vai manter o país fechado até haver uma vacina de reforço? Conseguirá fazer com que as suas cercas sanitárias e os seus programas de teste-rastreio-isolamento funcionem?

Caso seja responsável pela política de vacinas

Um R0 de 8 é uma péssima notícia para a imunidade de grupo. Coloca o seu limiar em cerca de 90% de pessoas protegidas, o que é impossível de alcançar se as vacinas protegerem apenas 65% contra a infecção. São necessárias vacinas de reforço. Acelere os seus ensaios, a sua aprovação, o seu lançamento e a sua distribuição.

Além disso, apoie a mistura e a combinação de vacinas. Na maioria dos países, hoje em dia, se precisar de um reforço, é forçado a tomar a mesma vacina. Mas as misturas provavelmente protegem-no melhor e são tão seguras como a utilização do mesmo tipo.

Tomas Pueyo @tomaspueyo

Vacinas: misture-as.

Temos de perceber que a única razão pela qual impomos 2 doses de algumas vacinas é porque foi isso que testámos e acabou por resultar.

Isso não significa que 2 doses seja o ideal.
Isso não significa que essa quantidade seja a ideal.
Isso não significa que 3 semanas de intervalo seja o ideal.
12 de Julho de 2021

Caso esteja num país em desenvolvimento

Não prestamos atenção suficiente aos países em desenvolvimento. A maior parte da comunidade científica e dos meios de comunicação concentra-se onde está o dinheiro, nas economias desenvolvidas.

Mas a Delta é muito dura nos países em desenvolvimento, especialmente em áreas urbanas densas onde os pobres são forçados a trabalhar, mas vivem em contacto próximo com muitos outros. A Índia, a Argentina, a Tunísia, a África do Sul, e a Indonésia são exemplos muito tristes disso.

Infelizmente, não há muitos truques especiais que os países pobres possam usar. Tendem a ter uma população mais jovem, o que ajuda. A única coisa a seu favor é que tendem a ser países mais quentes e húmidos, o que ajuda contra a COVID. Além disso, graças a um clima mais quente, podem ter mais eventos ao ar livre. Isto é a única coisa que podem aproveitar ao máximo: realizar o maior número possível dos seus ajuntamentos ao ar livre, enquanto fazem tudo o que podem para vacinar a sua população, e atrasam o máximo possível a chegada da Delta com fortes cercas sanitárias.

Esperemos que a produção de vacinas continue a crescer e que as pessoas em todo o mundo possam ser vacinadas antes do outono.

Se esta peça foi relevante para si, partilhe-a com aqueles que pensa que esta possa ajudar.


      1. Significa que cada pessoa infectada espalhou-a a outras 2,7 pessoas. Se for à GitHub e fizer a média de todos os cálculos de R0 para a variante inicial, irá obter esse 2,7.

      2. Os intervalos para os IFR ainda não eram claros nessa altura, daí a citação de milhões para países como os EUA ou o Reino Unido. Mas não estava muito longe disso. Os EUA estavam nas 900 mil mortes em Maio de 2021, e isto com todas as medidas tomadas e as vacinas. E se o vírus fosse deixado em liberdade no Reino Unido, com um R = 6 e um IFR de 2,2%, seriam 1,2 milhões.

      3. Apenas por comparação com a Alfa. A maioria das pessoas morre no prazo de 28 dias após a infecção inicial, e isto deve ser ainda mais rápido com a Delta. Temos cerca de 40 dias de dados da Delta no Reino Unido, pelo que algumas pessoas que foram infectadas precocemente já deveriam ter tido um desfecho decisivo. Ao olhar para os primeiros 40 dias da Alfa, o CFR estava acima dos 4%, portanto 20 vezes mais alto do que para a Delta.

      4. Lembre-se, a diferença entre IFR e CFR é que IFR é a verdadeira taxa de mortalidade, mas é sempre estimada, porque os casos são conhecidos, enquanto que as infecções são estimadas.

      5. Estimativa rápida: 50% das pessoas vacinadas x 65% de protecção contra a infecciosidade = 33% de redução da infecciosidade. Estes são pontos percentuais.

      6. 30% dos casos sintomáticos, mas estes são apenas 50% de todos os casos.

      7. Cerca de 12% x 90% de eficácia da vacina.

      8. 3% IFR x 90% de eficácia da vacina.


Publicado originalmente por Tomas Pueyo em Uncharted Territories, a 13 de Julho de 2020.

Tradução Rosa Costa e José Oliveira.

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