A carne cultivada pode salvar o planeta?

Por Peter Singer (Leapsmag)

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Carne limpa salva o planeta? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Em setembro, o governador da Califórnia, Jerry Brown, assinou uma lei determinando que, até 2045, toda a eletricidade da Califórnia virá de fontes de energia limpa. Os avanços tecnológicos na produção de eletricidade a partir do sol e do vento, bem como a redução do custo do armazenamento em baterias, desempenharam um papel importante na persuasão dos legisladores californianos de que esse objetivo é realista.

James Robo, Diretor executivo da empresa NextEra Energy, uma das 200 melhores de acordo com a revista Fortune, previu que até ao início de 2020, a eletricidade de centrais solares e turbinas eólicas gigantes será mais barata do que os custos operacionais de centrais elétricas a carvão, mesmo quando se inclui o custo de armazenamento.

Podemos todos então, de acordo com isso, suspirar de alívio, porque a tecnologia nos irá salvar das mudanças climáticas catastróficas? Ainda não. Mesmo que o mundo passasse para uma fonte de energia totalmente limpa e usasse essa energia limpa para carregar uma frota totalmente elétrica de carros, transportes públicos e de cargas, uma importante fonte de emissões de gases de efeito estufa continuaria a crescer: a carne.

A indústria da pecuária agora é responsável por cerca de 15% das emissões globais de gases de efeito estufa, aproximadamente o mesmo que as emissões dos tubos de escape de todos os veículos do mundo. Mas enquanto se pode esperar que as emissões dos veículos diminuam à medida que proliferam híbridos e veículos elétricos, prevê-se que o consumo global de carne seja 76% maior em 2050 do que nos últimos anos. A maior parte desse crescimento virá da Ásia, especialmente da China, onde o aumento da prosperidade levou a uma procura crescente por carne.

Changing Climate, Changing Diet [Mudanças Climáticas, Mudanças de Dieta], um relatório do Royal Institute of International Affairs, com sede em Londres, indica a ameaça representada pela produção de carne. Na conferência da ONU sobre mudanças climáticas, realizada em Cancun em 2010, os países participantes concordaram que permitir que as temperaturas globais subissem mais de 2° C acima dos níveis pré-industriais seria correr um risco de catástrofe inaceitável. Para lá desse limite, os efeitos desses ciclos contínuos de aquecimento, causam ainda mais aquecimento. Por exemplo, o degelo do pergelissolo siberiano libertará grandes quantidades de metano, causando ainda mais aquecimento e libertando ainda mais metano. O metano é um gás de efeito estufa que, por tonelada, aquece o planeta 30 vezes mais que o dióxido de carbono.

Entre o dia de hoje e os meados deste século, a quantidade de gases de efeito estufa que podemos colocar na atmosfera sem aquecer o planeta acima dos 2° C – conhecido como o “orçamento de carbono” – está diminuindo constantemente. A procura crescente por carne significa, no entanto, que as emissões da indústria pecuária continuarão a aumentar e absorverão uma parte crescente desse orçamento de carbono remanescente. Isto, de acordo com o relatório Mudanças Climáticas, Mudanças de Dieta, tornará “extremamente difícil” limitar o aumento da temperatura a 2° C.

Uma razão pela qual comer carne produz mais gases de efeito estufa do que obter o mesmo valor alimentício através das plantas é porque usamos combustíveis fósseis para cultivar grãos e soja para alimentar esses animais. Os animais usam a maior parte da energia das plantas para si mesmos, ao movimentar-se, ao respirar e para manter seus corpos aquecidos. Isso deixa apenas uma pequena fração para nós comermos, e por isso temos que cultivar várias vezes a quantidade de grãos e soja que precisaríamos se comêssemos alimentos vegetais nós próprios. O outro fator importante é o metano produzido por ruminantes – principalmente bovinos e ovinos – como parte de seu processo digestivo. Surpreendentemente, isso torna a carne alimentada no pasto ainda pior para o nosso clima do que a carne de animais engordados em confinamento. O gado alimentado em pastagens ganha peso mais lentamente do que o gado alimentado com milho e soja e, portanto, arrota e solta mais metano, por cada quilo de carne que produz.

Richard Branson sugeriu que, daqui a 30 anos, olharemos para a era atual e ficaremos chocados com a matança de animais em massa para alimento.

Se a tecnologia nos pode dar energia limpa, não nos poderá dar carne limpa? Esse termo já está em uso, pelos defensores do cultivo de carne ao nível celular. É usado, não para fazer o paralelo com a energia limpa, mas para enfatizar que a carne de animais vivos é suja, porque os animais vivos cagam. Bactérias das tripas dos animais e merda geralmente contaminam a carne. Com a carne cultivada a partir de células cultivadas em um biorreator, não há animal vivo, não há merda e não há bactérias do sistema digestivo para se misturarem com a carne. Também não há metano. Nem há um animal vivo para se aquecer, para se movimentar ou para desenvolver partes do corpo que não comemos. Portanto, produzir carne dessa maneira seria muito mais eficiente e muito mais limpo, no sentido ambiental, do que produzir carne a partir de animais.

Agora já existem muitas startups trabalhando para colocar a carne limpa no mercado. Produtos à base de vegetais que têm textura e sabor de carne, como o “Impossible Burger” e o “Beyond Burger”, já estão disponíveis em restaurantes e supermercados. Carne limpa para hambúrguer, peixe, laticínios e outros produtos de origem animal estão sendo produzidos sem criar e abater um animal vivo. O preço ainda não é competitivo com produtos de origem animal, mas está a descer rapidamente. Ainda esta semana, autoridades da Food and Drug Administration e do Departamento de Agricultura dos EUA se reuniram para discutir como regulamentar a produção e venda esperadas de carne produzida por este método.

Quando a Kodak, que antes dominava a venda e a revelação de película fotográfica, decidiu tratar a fotografia digital como uma ameaça e não como uma oportunidade, assinou a sua própria sentença de morte. A Tyson Foods e a Cargill, duas das maiores produtoras de carne do mundo, não estão cometendo o mesmo erro. Estão investindo em empresas que buscam produzir carne sem criar animais. Justin Whitmore, vice-presidente executivo da Tyson, disse: “Não queremos entrar em ruptura. Queremos fazer parte da ruptura”.

Essa é uma postura corajosa para uma empresa que fez a sua fortuna criando e matando dezenas de bilhões [Pt. dezenas de milhares de milhões] de animais, mas também é um reconhecimento de que, quando as novas tecnologias criam produtos que as pessoas querem, não é possível resistir-lhes. Richard Branson, que investiu na empresa de biotecnologia Memphis Meats, sugeriu que, daqui a 30 anos, olharemos para a era atual e ficaremos chocados com o fato de termos matado animais em massa para alimento. Se isso acontecer, a tecnologia terá possibilitado o maior passo ético na história da nossa espécie, salvando o planeta e eliminando a enorme quantidade de sofrimento que a pecuária industrial está infligindo agora aos animais.


Texto publicado originalmente por Peter Singer na Leapsmag, a 26 de Outubro de 2018

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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