Educação e Altruísmo Eficaz (1 de 2)

Por Celso Vieira

AE e Educação

Altruísmo eficaz, e a Educação (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Introdução

Recentemente, eu fui convidado a visitar uma intervenção social na área da educação, o Projeto Ninho. O convite me levou a pesquisar um pouco sobre as intervenções educacionais. Na sequência, apresento um resumo de alguns estudos sobre o impacto desse tipo de intervenção junto com alguma reflexão sobre a abordagem que o Altruísmo Eficaz lhe confere. Em uma segunda publicação, aplicarei esses resultados ao projeto visitado. Nesse primeiro momento, veremos que, como já foi notado por alguns Altruístas Eficazes, a educação parece uma área mais promissora do que a GiveWell assume.

Benefícios da Educação

A área da educação possui um valor social já muito bem estabelecido no senso comum tanto no âmbito prudencial quanto no altruísta, ou seja, quase todos os pais se esforçam para garantir uma boa educação aos filhos (e para se manterem aprendizes pela vida inteira), bem como há um consenso de que intervenções sociais na área da educação estão entre as mais justificadas.

Dados recolhidos por vários estudos comprovam essa boa impressão. Em geral, se destacam os benefícios no rendimento, na saúde e no comportamento social de quem recebe educação. Para ser mais específico apresento os resultados desse relatório do Center for Global Development (exceto quando indico outra referência):

– Um ano de escolaridade adicionado gera um aumento de 10% no rendimento da pessoa (dados do Banco Mundial).

– Mais educação diminui a taxa de contaminação com HIV e a educação feminina correlaciona com queda na mortalidade infantil. Segundo Angus Deaton, nobel em economia, a educação é a intervenção mais eficaz na área de saúde.

– A educação aumenta a mobilidade social. Um estudo em Benin identificou que a exposição à educação durante a era colonial aumentou a mobilidade social durante três gerações.

– Redução de violência. Um estudo com jovens em alta vulnerabilidade identificou uma redução de 50% nas chances dos jovens que recebem educação se envolverem em atividades violentas.

– Até hoje nenhum país obteve um crescimento econômico estável sem atingir um nível de pelo menos 40% de alfabetização.

– A educação aumenta a taxa de comportamento pro-social em fatores como participação no voto, serviço voluntário, organização em sindicatos, e similares (ver Steven Pinker, Enlightment Now).

– Democracia e estabilidade política também estão ligadas ao sucesso da educação.

Em vista desses resultados, não é de se surpreender que a educação tenha também o seu valor reconhecido institucionalmente. Do ponto de vista global, três momentos são importantes:

(1) A declaração dos direitos humanos da ONU feita em 1948 traz no artigo 26.º a garantia de que todas as crianças têm direito à educação elementar.

Há também um esforço de implementação desse direito.

(2) O segundo Objetivo de Desenvolvimento do Milênio declara que até 2015 todas as crianças deveriam ser capazes de completar a escola primária. E, de fato, hoje em dia 90% das crianças frequentam a escola primária. Para se ter uma ideia, um adulto de um país em desenvolvimento hoje passa mais tempo na escola do que um adulto dos países desenvolvidos na década de 1960.

No entanto, frequentar uma escola não é aprender. E, quando se verificam os resultados, o fato é que muitas crianças – principalmente em países menos desenvolvidos – saem da escola como analfabetas funcionais e sem o mínimo de conhecimento matemático. Um bom aluno pobre em um país em desenvolvimento tem uma performance pior do que um aluno medíocre dos países desenvolvidos.

(3) É por isso que a agenda dos novos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável estabelecidos em 2015 se concentra em atingir resultados relevantes e eficazes no âmbito da Educação.

Ceticismo face à Educação

Ainda que haja um consenso sobre o benefício da educação, há quem seja mais cético no que concerne à eficácia das intervenções sociais na área da educação. A GiveWell, que guia muitas das decisões de doação do AE, adota essa postura. Eles são prudentes ao alertar que ainda possuímos poucos estudos sobre os efeitos da educação no rendimento e saúde dos beneficiários. Eles avaliaram 9 estudos (3 estudos aleatórios controlados e 6 estudos quasi-experimentais). Apesar do número reduzido, eles tiveram resultados positivos principalmente no caso do rendimento futuro de quem recebeu educação. Em vista disso, o que explica a falta de confiança seria:

(a) a comparação com resultados de outras intervenções, e,

(b) a dificuldade de transplantar o que dá certo em um contexto para outras situações.

Ambos os motivos são pertinentes, mas o grupo do Altruísmo Eficazdo Quebec fez um relatório mostrando que eles não parecem ser fortes o suficiente para se justificar abandonar o potencial transformador da área da educação.

No que concerne a comparação com outras intervenções (a), o AE Quebec propôs um modelo quantitativo para se comparar entre causas diferentes utilizando como métrica comum o aumento no rendimento futuro dos beneficiários. Uma comparação das boas intervenções de educação com o outro tipo de intervenções recomendadas pela GiveWell mostra, por exemplo, que as intervenções em que 100 dólares provê 1 ano extra de educação, o impacto no rendimento da pessoa é 7 a 8 vezes maior do que 100 dólares doados para a GiveDirectly.

Para definir essa métrica eles seguiram a sugestão de Rachel Glennster, que foi entrevistada pela 80.000 Hours. Ela diz que as boas intervenções proporcionam pelo menos 1 ano de escolaridade ajustado à aprendizagem (Learning-Adjusted Years of Schooling – LAYS) por 100 dólares. Essa métrica consiste em multiplicar um ano de escola pela média dos exames de teste de competência nas matérias. Assim se sabe o quanto se ganha em um ano de escola. O que permite ver o quanto uma intervenção adiciona em termos de aprendizagem (e não de frequência escolar). Note a diferença entre as duas abordagens. O AE Quebec/ GiveWell usam o rendimento como uma métrica comparativa ao passo que os especialistas da área usam uma métrica apropriada para a educação. A diferença é que no segundo caso se considera a educação como um bem em si.

Uma questão que surge é se devemos atribuir valor em si à educação. Seria o caso de um argumento filosófico, mas isso vai ficar para uma outra oportunidade. De qualquer maneira, a importância relativa da educação é forte o bastante para se valorizar a medição por competências em vez de resultados. Isso porque vivemos em uma sociedade em que a maioria das relações pressupõe a literacia. Imagine o caso de um herdeiro saudável de uma quantia que lhe permite viver com luxo pelo resto da vida que, no entanto, é analfabeto. As chances são grandes de que ele não conseguirá formar relações e desempenhar papéis sociais necessários para viver uma vida plena nessa sociedade centrada na literacia. Nesse cenário, enquanto não houver uma grande mudança no nosso modo de vida, a educação terá importância relativa, mas indissociável da nossa sociedade.

Há de se atentar ainda para o risco prático de se retirar o valor em si da educação. Há quem atribua o sucesso do Vietnã (acima da média) nos testes de competências ao valor que se dá à educação no país.

Estudos e avaliações

De qualquer maneira, seja pela métrica comparativa, seja pela métrica da educação, (a) não parece ser um motivo suficiente para abandonar as intervenções na área. Nos resta então analisar se a dificuldade de se transplantar o que deu certo em um lugar para outros cenários basta para desencorajar as doações (b). De fato, mesmo os profissionais da área reconhecem que a educação é uma área complexa demais para termos segurança de que os resultados que deram certo em um contexto darão em outro. É muito difícil saber o que é que funciona e se vai funcionar em outros contextos. Porém, graças aos esforços de pesquisadores temos alguns bons indicadores.

O que funciona

Nota: As cores indicam resultados positivos e replicados ou positivos ou positivos mas nem sempre replicados.

Escolas

Quantidade de escolas e a qualidade importa para os resultados, não só no aprendizagem, mas também rendimento, saúde e outros.
Atividades após as aulas funcionam ao envolver os alunos social e educacionalmente.
Alunos bons de escolas ruins que entram em escolas de alta qualidade perdem seus status de bons mas mantêm os ganhos. Por exemplo, dobram as suas chances de ir para a universidade.
O envolvimento das famílias aumenta o desenvolvimento dos alunos.

Turmas

Distribuir os estudantes de acordo com as suas competências iniciais gera bons resultados (tanto para os melhores quanto para os piores). Ver o programa Teaching at the Right Level da J-pal.
Os resultados obtidos mais cedo crescem. Reduzir a diferença de aprendizagem entre ricos e pobres aos 12 anos reduz pela metade a diferença deles aos 22 anos.
Efeitos dos pares/ colegas aumentam a aprendizagem e os outros ganhos.
A força das relações fracas. Criar o convívio entre alunos de diferentes classes sociais aumenta as chances de se ajudarem no futuro.
Concentrar jovens vulneráveis em uma mesma escola e vizinhança tem efeitos ruins sociais (violência) e na educação.
Misturar crianças ricas e pobres na sala de aula aumenta a confiança, a generosidade e a tolerância dos dois lados. Há um ganho acadêmico também para os alunos ricos, mas é modesto. Outro estudo encontrou aumento no desempenho dos alunos ricos da sala.

Conteúdo

O currículo e a velocidade adequada ao passo dos alunos importam.
Terapia cognitiva comportamental funciona para casos específicos como aumentar autocrontrole.
Treinamento vocacional parece funcionar (p.156) mas em contextos específicos.
Competências comportamentais (Soft skills) podem fazer diferença.

Complementação

Reforço pós-aula e mentoria para os alunos com mais dificuldades funcionam. Ver também o programa Teaching at the Right Level da J-pal.
Tutoria após a escola, lições e monitoria geram bons resultados, mas é caro. Por outro lado, tutores informais na Índia não aumentaram as notas.
Bolsas por mérito e bolsas por necessidade aumentam a frequência na escola. Porém, as bolsas por mérito apenas têm efeito no aprendizagem e no bem-estar (que persistiu 9 anos depois, mas não teve efeito no rendimento). Bolsas por mérito também funcionaram no Quênia.
Bolsas estão entre as intervenções mais custo eficazes (J-Pal, p.11), mas há estudos que não acham diferenças significativas nas notas.
Tecnologia: Prover mais conteúdo através de novas mídias e boas instalações e material didático também geram bons resultados. Porém, há resultados que questionam o uso de tecnologia. Também há resultados positivos do uso da gamificação.

Professores

A competência dos professores importa, mas não é tudo.
Pagar por performance atraiu mais pessoas mais interessadas em dinheiro para a profissão, mas não melhorou a performance dos alunos. No entanto, seguindo o tipo de seleção tradicional, oferecer bônus por performance gerou resultados.
Uso de planificação de aulas, monitoramento e treinamento dos professores melhorou os resultados, mas é caro.

Contexto local

Vimos os resultados de algumas intervenções em contextos variados, outras em estudos individuais e outras que provocaram resultados conflitantes. Como foi notado, a área da educação é complexa o bastante para ser especialmente sensível a variações do contexto. Em vista disso, Lant Pritchett defende que dar autonomia aos agente locais é essencial para que um projeto na área da educação gere resultados robustos na aprendizagem das crianças. Por outro lado, é a partir do conhecimento adquirido em outros contextos que se aumentam as chances de sucesso. No fim das contas, é só com uma união das duas abordagens e um comprometimento com avaliação séria e frequente dos resultados que se constituirá uma intervenção robusta na área da educação. É isso que caracteriza as boas intervenções na área da educação indicada pelo AE Quebec:

  • Pratham: Eles usam o Teaching at the Right Level [Ensinar no Nível Apropriado] da J-Pal. Atuam na Índia e África. Já alcançaram mais de 8 milhões de crianças. A estimativa é que o programa acrescente 8 LAYS por 100 dólares. Em termos de rendimento dos benificiários, ela parece ser mais de 20 vezes mais eficaz que a GiveDirectly.
  • Educate!: Eles ensinam competências comportamentais como falar em público e trabalhar em equipe para dar vantagens no mercado de trabalho. Atuam em 400 escolas em Ruanda, Uganda e Quênia. O custo é de 75 dólares por estudante. Um estudo aleatório controlado identificou aumento no rendimento dos participantes de 95% e aumento em empreendimentos de 44%.
  • Camfed: Eles oferecem um programa de auxílio a formação secundária de garotas na África. Oferecem mentores, bolsas, livros, uniformes, formam uma rede de participantes, incentivam que comecem empreendimentos, entre outros. Geram quase 2 LAYS por 100 dólares.

Espero que esse resumo tenha utilidade para quem se interessa em doar para intervenções na área da educação quanto para quem queira se envolver ou implementar alguma intervenção relacionada. Se quiserem conversar sobre isso, basta me contatar. Na próxima postagem vamos ver como esses dados e reflexão se aplicam à intervenção específica do Projeto Ninho e aprofundar na reflexão do tema.


Texto de Celso Vieira.

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