“Longotermismo”

Por William MacAskill (EA Forum)

Longotermismo

O que é o Longotermismo? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay). Imagem da peça de arte “Regenerative Reliquary” da artista Amy Karle.

Este post discute a introdução e a definição do termo “longotermismo”. Agradeço ao Toby Ord, ao Matthew van der Merwe e à Hilary Greaves pela discussão.

Até há pouco tempo, não havia um nome para o conjunto de pontos de vista que envolve a preocupação em garantir que o futuro a longo prazo corra o melhor possível. A linguagem mais comum para nos referirmos a esse conjunto de pontos de vista era apenas dizer algo como “pessoas interessadas na redução dos riscos-x”. Existem algumas razões pelas quais essa terminologia não é a ideal:

  • É complicada e de certa forma usa jargão.
  • É duplamente negativa; enquanto que ao concentrarmo-nos no que é positivo (“garantir que o futuro a longo prazo corra bem”) é mais inspirador e capta com mais precisão o que fundamentalmente nos interessa.
  • As pessoas tendem a entender os “riscos existenciais” como uma referência apenas aos riscos de extinção, que é um conceito estritamente mais limitado.
  • Seria possível que nos importássemos muito com a redução dos riscos existenciais, mesmo que não nos preocupássemos particularmente com o longo termo, se, por exemplo, achássemos que o risco de extinção fosse elevado neste século e que houvesse muito o que fazer para reduzi-lo, de tal modo que fosse uma coisa muito eficaz mesmo à luz dos interesses da geração actual.
  • Da mesma forma, podemos importarmo-nos muito com o futuro a longo prazo sem nos concentrarmos na redução dos riscos existenciais, porque os riscos existenciais são apenas sobre uma redução drástica no valor do futuro. (“Riscos existenciais” é definido como riscos em que um resultado adverso aniquilaria a vida inteligente originária da Terra ou reduziria permanentemente e drasticamente o seu potencial.) Mas, pelo menos conceptualmente (e penso que na prática também), melhorias menores no valor esperado do futuro a longo prazo podem estar entre as coisas em que nos queremos concentrar, tais como mudar os valores das pessoas, ou mudar as instituições políticas (como a concepção de um governo mundial) antes que ocorra algum evento bloqueador. Também se pode pensar (como Tyler Cowen) que acelerar o progresso económico e tecnológico é uma das melhores maneiras de melhorar o futuro a longo prazo.

Por estes motivos, e com o livro em produção de Toby Ord sobre os riscos existenciais a estabelecer a urgência, o Toby e o Joe Carlsmith começaram a coordenar discussões sobre se haveria termos melhores para se usar. Em Outubro de 2017, propus o termo “longotermismo”, com a seguinte definição:

Longotermismo = a visão em que o determinante mais importante do valor das nossas acções de hoje é o modo como essas acções afectam o futuro a longo prazo.”

Desde então, o termo “longotermismo” parece ter propagado organicamente. Parece-me que está aqui para ficar. Ao contrário de “redução de riscos existenciais”, a ideia por trás do “longotermismo” é que este seja compatível com qualquer visão empírica sobre a melhor maneira de melhorar o futuro a longo prazo e que, espero, ajude a transmitir de imediato o sentimento por trás da posição filosófica, da mesma maneira que “ambientalismo”, ou “liberalismo”, ou “cosmopolitismo”.

Mas obter uma boa definição do termo é importante. Como observa Ben Kuhn, actualmente o termo pode ser entendido como estando a referir-se a uma mistura de visões diferentes. Penso que isso não é bom, e devemos tentar desenvolver alguma padronização antes que o termo seja bloqueado num ponto abaixo do ideal.

Penso que existem três conceitos naturais nesta área, que devemos distinguir. A minha proposta é que devemos nomeá-los da seguinte forma (indicando, por enquanto, os conceitos de forma imprecisa):

1) longotermismo, que designa uma visão ética que está particularmente preocupada em garantir que os resultados a longo prazo corram bem;

2) longotermismo forte, que, como a minha definição original propunha, é a visão de que os resultados a longo prazo são a coisa com a qual nos devemos preocupar mais;

3) longotermismo muito forte, a visão na qual os resultados a longo prazo são de importância esmagadora.[1]

A minha proposta inicial era que o “longotermismo” (sem modificação) deveria referir-se a 2), enquanto que agora penso que deveria referir-se a 1). Principalmente devido ao seguinte:

  • O primeiro conceito é intuitivamente atraente para uma proporção significativa do público em geral (incluindo os principais decisores, como responsáveis políticos e líderes empresariais); estou em crer que a maioria das pessoas acharia isso intuitivamente atraente. Por outro lado, o segundo conceito é amplamente considerado não intuitivo, inclusive mesmo pelos proponentes dessa visão.
  • Ao mesmo tempo, parece que alcançaríamos a maior parte do que queremos alcançar se o público em geral acreditasse que garantir que o futuro a longo prazo corra bem é uma prioridade importante para o mundo e que agisse com base nisso, mesmo que não a considerasse a prioridade mais importante.

Em geral, se imagino o “longotermismo” a propagar como um termo, imagino que receba muito apoio caso designe o primeiro conceito e muita contrariedade caso designe o segundo conceito. Também está mais alinhado com ideias morais e filosofias sociais que tiveram sucesso no passado: o ambientalismo alega que proteger o meio ambiente é importante, não que proteger o meio ambiente seja (sempre) a coisa mais importante; o feminismo alega que a defesa dos direitos das mulheres é importante, não que isso seja (sempre) a coisa mais importante. Tenho dificuldades em pensar em exemplos em que a filosofia faz afirmações sobre algo ser a coisa mais importante e, na medida em que o faça (o marxismo totalitário e o fascismo são exemplos que me vêm à ideia), não são o tipo de filosofias que queira imitar.

Consideremos agora as definições das variantes do longotermismo.

Longotermismo

Penso que temos dois caminhos a seguir para a definição de longotermismo. A primeira é a abordagem “sem definição”, sugerida por Toby Ord:

O longotermismo é uma filosofia que se preocupa especialmente em melhorar o futuro a longo termo.

Isto é aproximadamente análogo a termos como “ambientalismo” e “feminismo”.

A segunda abordagem é dispormos de uma definição mínima. Por exemplo:

Longotermismo é a visão de que:

1) Aqueles que vivam em tempos futuros são tão importantes moralmente quanto aqueles que vivem hoje;

2) A sociedade actualmente privilegia aqueles que vivem hoje acima daqueles que viverão no futuro; e

3) Devemos tomar medidas para corrigir isso e ajudar a garantir que o futuro a longo prazo corra bem.

Não estou confiante relativamente a esta definição em particular, mas prefiro a abordagem da definição mínima à abordagem sem definição por alguns motivos:

  • Quando olho para outros “ismos”, geralmente há muita confusão em torno do que o conceito denota, e isso atrapalha aqueles que querem incentivar outros a agir de acordo com esse “ismo”. Eis alguns exemplos:
    • O altruísmo eficaz ainda é amplamente confundido com o utilitarismo, ou com o ganhar para dar, ou com o movimento randomista. Sugeri uma definição e penso que ao haver essa definição isso ajudará nas respostas aos críticos e diminuirá aquilo que, à partida, poderá fazer com que as pessoas não entendam o que é o altruísmo eficaz. Oxalá tivéssemos muito mais cedo a definição que agora temos.
    • O liberalismo significa duas coisas diferentes nos EUA e no Reino Unido: nos EUA, um liberal é um progressista social, enquanto que no Reino Unido um liberal é um defensor dos mercados livres.
    • Curiosamente, vejo muita confusão da qual resulta discórdia sobre o termo “feminismo”, aí parece-me que uma definição precisa poderia ter ajudado a mitigar isso, pelo menos um pouco.
  • Em particular, preocupa-me que, sem a definição mínima, “longotermismo” acabaria por se referir ao longotermismo forte, ou mesmo ao longotermismo muito forte. A analogia aqui seria o “altruísmo eficaz” referir-se, na mente de muitas pessoas, simplesmente ao utilitarismo aplicado. Ou, por outro lado, poderia referir-se a uma confusão desinteressante de conceitos, sendo um exemplo disso a sugestão de Ben Kuhn sobre aquilo a que se refere actualmente o “longotermismo”.

Também não me parece haver razões suficientes contra a existência de uma definição mínima. Se a “definição precisa” acabar por ser inútil no futuro, podemos abandoná-la discretamente. Ou a “definição precisa” poderá ser algo que não destacamos muitas vezes, mas é apenas algo a que podemos fazer referência caso as pessoas estejam a deturpar grosseiramente a posição. E a definição mínima também é compatível com as pessoas que usam a versão “sem definição”.

O argumento mais forte em favor da abordagem sem definição, na minha opinião, é que ela poderia permitir que o termo evoluísse de modo a ajustar-se melhor aos tempos futuros, e qualquer definição actual poderia ser míope. Talvez essa flexibilidade tenha ajudado a explicar a razão porque termos como “ambientalismo” e “liberalismo” tenham propagado. Mas a definição que proponho é tão mínima que me parece difícil imaginar que haveria grande benefício numa flexibilidade ainda maior.

Uma definição mínima alternativa, sugerida por Hilary Greaves (embora a redacção exacta seja minha), é que poderíamos definir o longotermismo como a visão de que o valor (intrínseco) de um resultado é o mesmo, independentemente do tempo em que ocorra. Isso exclui visões nas quais devemos desconsiderar o futuro ou em que devemos ignorar os efeitos indirectos a longo prazo das nossas acções, mas não excluiria visões nas quais é apenas empiricamente intratável tentar melhorar o futuro a longo termo. Parte da ideia é que essa definição abriria caminho para um debate sobre as questões empíricas relevantes, em particular sobre a tratabilidade de afectar o futuro a longo prazo. Essa definição torna o “longotermismo” um pouco mais parecido com os termos “cosmopolitismo” ou “anti-especismo” e menos parecido com “neoliberalismo”, ou “feminismo”, ou “ambientalismo”.

Na minha opinião, essa definição seria demasiado abrangente. Penso que a ideia particular que devemos tentar captar é a ideia de tentar promover bons resultados a longo termo. Vejo o termo “longotermismo” a criar valor se resultar em mais pessoas a tomar medidas para ajudar a garantir que o futuro a longo prazo corra bem. Mas caso se possa apoiar o longotermismo sem pensar que deveríamos, pelo menos até certo ponto, tentar promover bons resultados a longo termo, aí parece que perdemos muito desse valor. E, na medida em que o termo propagou até agora, este foi usado para se referir a pessoas que pensam que deveríamos estar a tentar melhorar o futuro a longo prazo.

Uma implicação da minha definição, a qual pode ser contestada, é que, se no futuro a sociedade começar a preocupar-se com o futuro a longo termo exactamente na medida em que deveria (ou mais do que deveria), nessa altura o longotermismo deixará de ser verdadeiro. Na minha opinião, isso parece ser uma boa consequência. Suponha que a sociedade começa a preocupar-se muito com o longo termo e a negligenciar os interesses da geração actual: aí não haveria necessidade do “longotermismo” como uma ideia; aliás, em vez disso, iríamos querer promover o curtotermismo! Na minha definição, o longotermismo deixa de ser verdade exactamente quando deixa de ser necessário.

Longotermismo forte

A definição que propus inicialmente para o longotermismo foi uma tentativa de captar a ideia de um longotermismo forte. Aqui está uma versão estilisticamente modificada:

Longotermismo forte é a visão de que o principal determinante do valor das nossas acções hoje é o modo como essas acções afectam o futuro a longo termo.

Penso que essa definição é suficientemente boa para uso geral, mas tecnicamente não está a captar correctamente o que queremos. Talvez a maior parte do valor das nossas acções venha dos seus efeitos a longo prazo, mas a maioria das diferenças de valor entre as acções vem dos seus efeitos a curto prazo. Nesse caso, deveríamos gastar o nosso tempo a tentar descobrir quais são as acções que melhoram o curto prazo; esse não é o espírito do longotermismo.

Recentemente, a Hilary Greaves e eu estivemos a trabalhar num artigo sobre a defesa essencial do longotermismo e propusemos a mais complexa, mas a mais precisa filosoficamente:

Longotermismo forte axiológico = Num variado tipo de situações de decisão, a opção que é ex ante [que se espera] melhor está contida em um subconjunto bastante pequeno de opções cujos efeitos ex ante [que se esperam] no futuro a longo prazo são os melhores.

Longotermismo forte deôntico = Num variado tipo de situações de decisão, a opção que se deve, ex ante, escolher está contida num subconjunto razoavelmente pequeno de opções cujos efeitos ex ante no futuro a longo prazo são os melhores.

Em que “a opção cujos efeitos sobre o futuro a muito longo prazo são os melhores”, quer dizer “a opção cujos efeitos sobre o futuro desde o momento t em diante são os melhores”, em que t é um momento surpreendentemente afastado deste momento agora (digamos, 1000 anos). A minha opinião é que devemos escolher o menor t de modo que, qualquer escolha maior de t faça pouca diferença para o que iríamos priorizar.

A ideia principal por trás da definição informal e da definição mais precisa é que, para avaliar o valor (ou o carácter normativo) de uma acção específica, podemos, em primeira instância, observar apenas os efeitos a longo prazo dessa acção (ou seja, aquelas após 1000 anos) e, em seguida, observar os efeitos de curto prazo apenas para decidir entre aquelas acções cujos efeitos a longo prazo estão entre os melhores.

Hifenização*

As pessoas tendem a usar naturalmente tanto “longo-termismo” como “longotermismo”. Parece-me que faz sentido decidir sobre um deles como canónico, e penso que a escolha certa é o termo não hifenizado, “longotermismo”. Existem algumas razões para isso.

Primeiro, gramaticalmente, qualquer um estaria bem. “Longo-termo”* é um adjectivo composto (p. ex. “Ela preocupa-se com o futuro a longo-termo*”), “longo termo” é um par de adjectivo-substantivo (p. ex. “Ela preocupa-se com o longo termo.”), E, em geral, desde que uma palavra seja inequívoca, não é preciso incluir um hífen mesmo nos casos em que é permitido fazê-lo: por isso, por exemplo, é “pós-estruturalismo”, mas é “pósfeminismo”*.[2] Como comenta o manual de estilo da Oxford University Press: “Se levar os hífens a sério, certamente irá enlouquecer.”

Segundo, caso se possa tornar um termo mais curto e rápido para escrever sem sacrificar muito, deve-se fazê-lo. Assim, por exemplo, “Neoliberalismo” é claramente um termo melhor que “Neo-liberalismo”* e é gramaticalmente permitido.

Terceiro, as palavras hifenizadas tendem a perder o hífen com o tempo, à medida que se tornam cada vez mais familiares. Exemplos: to-morrow, to-day, co-operative, pigeon-hole, e-mail, etc.* Em 2007, a sexta edição do Shorter Oxford English Dictionary removeu os hífens de 16 000 entradas. Portanto, mesmo se adoptássemos “longo-termismo”, provavelmente mudaria para “longotermismo” ao longo do tempo.

Quarto, a hifenização torna o termo ambíguo. Considere alguns outros ismos hifenizados: “anarco-capitalismo”* ou “pós-estruturalismo”. Aqui, o prefixo hifenizado modifica um ismo existente. Assim, a leitura natural de “longo-termismo” seria que “longo” modifica algum outro conceito, “termismo”. Mas é claro que não é isso que esse termo é suposto transmitir. Na medida em que “termismo” não é um conceito, não espero que isso cause confusão, mas ainda assim é um motivo leve para preferir a versão sem hífen.

O melhor contra-argumento que conheço é que, sob esse ponto de vista, o oposto do longotermismo seria o “curtotermismo” [shorttermism], que tem um duplo “t” de aparência estranha. Mas há muitas palavras compostas com consoantes duplas com as quais nos acostumamos, como “bookkeeping”, “earring” e “newsstand”, incluindo pelo menos uma com um duplo “t”, ou seja, “posttraumatic” (embora também se escreva “post-traumatic”) e até mesmo algumas com vogais duplas como resultado da perda de hífen, como “cooperation”. E não sei com que frequência o “curtotermismo” será usado. Portanto, não vejo isso como um contra-argumento forte.

 

Notas:

[1] A tese principal de Nick Beckstead na sua dissertação faz uma afirmação semelhante ao longotermismo forte: “Tese principal: A partir de uma perspectiva global, o que mais importa (em expectativa) é que façamos o que é melhor (em expectativa) para a trajectória geral na qual os nossos descendentes se desenvolvem nos próximos milhões, milhares de milhões e biliões de anos [Br. milhões, bilhões e trilhões de anos].” Mas o título da sua tese — “Sobre a esmagadora importância de influenciar o futuro distante” — sugere o apoio de um longotermismo muito forte.

[2] Importa notar que, para a forma adjectiva composta, é gramaticalmente preferível dizer “o futuro a longo-termo*”, é correcto dizer “o futuro a longo termo” (porque não há ambiguidade causada pela queda do hífen), mas actualmente não é gramaticalmente correcto dizer “o futuro a longotermo*”. Poderíamos tentar usar “longotermo”* com o objectivo de alterar o uso; a minha opinião é manter aqui a gramática actual, pois não estamos a usar “longo-termo”* como um termo técnico ou com o objectivo de mudar o seu significado.

* Optou-se por se incluir os hiféns mesmo quando a gramática portuguesa diverge da inglesa ou então por manter os termos em Inglês, para preservar o sentido do texto. (N. do T.)

Texto publicado originalmente por William MacAskill no EA Forum, a 25 de Julho de 2019.

Tradução de José Oliveira.

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