A defesa do Longotermismo Forte

Por Global Priorities Institute (EA Forum)

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O que é o Longotermismo Forte? (Arte digital: José Oliveira | Foto: Ivan Diaz/Unsplash)

Resumo

Digamos que o longotermismo forte seja a tese de que, numa ampla classe de situações de decisão, a opção que é melhor ex ante está contida num subconjunto bastante pequeno de opções cujos efeitos ex ante sobre o futuro a muito longo prazo são melhores. Se esta tese estiver correcta, isto sugere que, para efeitos de decisão, podemos muitas vezes simplesmente ignorar os efeitos a curto prazo: o principal factor determinante de quão boa é uma opção (ex ante) é quão bons são os seus efeitos a muito longo prazo.

Este artigo apresenta um argumento a favor do longotermismo forte. Argumentamos que a defesa desta tese é bastante robusta a variações plausíveis em vários pressupostos normativos, incluindo aqueles relacionados com a ética populacional, a agregação interpessoal e a teoria da decisão. Sugerimos também que, embora o longotermismo forte, tal como definido acima, seja uma tese puramente axiológica, segue-se plausivelmente uma tese deôntica correspondente, mesmo sob uma perspectiva não consequencialista.

Introdução

Um facto marcante sobre a história da civilização é estarmos precisamente na sua fase inicial. Há 5000 anos de história registada atrás de nós, mas quantos anos ainda estarão para vir? Se apenas durarmos tanto tempo como as típicas espécies de mamíferos, ainda temos mais 200 000 anos; há mais mil milhões [BR: 1 bilhão] de anos até que a Terra fique estéril devido ao Sol; e biliões [BR: trilhões] de anos até às últimas formações estelares convencionais. Mesmo na mais conservadora destas cronologias, temos progredido através de uma pequeníssima fracção da história registada. Se a saga da humanidade fosse um romance, ainda estaríamos na primeira página.

Normalmente, a atenção que prestamos a este facto é pouca e insuficiente. As discussões políticas estão centradas no aqui e agora, concentrando-se no último escândalo ou nas próximas eleições. Quando uma pessoa erudita assume uma perspectiva de “longo-termo”, fala sobre os próximos 5 a 10 anos. Essencialmente nunca pensamos em como as nossas acções de hoje podem influenciar a civilização daqui a centenas de milhares de anos.

Acreditamos que esta negligência face ao futuro a muito longo prazo é um erro grave. Uma perspectiva alternativa é dada pelo longotermismo, segundo a qual devemos estar particularmente preocupados em assegurar que o futuro longínquo corra bem. Neste artigo, vamos mais longe, argumentando a favor de um longotermismo forte: a posição de que o impacto sobre o futuro distante é a característica mais importante das nossas acções de hoje. Defenderemos tanto as versões axiológicas como as deônticas desta tese.

A humanidade, hoje em dia, é como uma pessoa adolescente imprudente. A característica mais importante das decisões mais importantes que uma pessoa adolescente toma, por exemplo, qual o assunto a estudar na universidade e com que dedicação deve estudar, não é o prazer que irá ter a curto prazo, mas como essas decisões irão afectar o resto da sua vida.

A estrutura do artigo é a seguinte. A secção 2 apresenta com maior precisão a tese que iremos defender em primeiro lugar: o longotermismo forte axiológico (LFA). Essa tese afirma que, nas mais importantes situações de decisão que os agentes enfrentam hoje em dia, (1) cada opção que esteja próxima da melhor em geral está próxima da melhor para o futuro distante, e (2) cada opção que esteja próxima da melhor em geral proporciona benefícios muito maiores no futuro distante do que no futuro próximo.

Centramo-nos principalmente na situação de decisão de uma sociedade que decide como gastar os seus recursos. Utilizamos a relação custo-eficácia da distribuição de mosquiteiros anti-malária como um limite superior aproximado de benefícios atingíveis no futuro próximo por unidade de despesa. No sentido de estabelecer um limite inferior sobre os benefícios esperados mais elevados possíveis no futuro distante, a secção 3 argumenta que existe, em expectativa, um vasto número de seres sencientes no futuro da civilização de origem humana. A secção 4 argumenta então, através de exemplos que envolvem riscos existenciais, que o projecto de tentar influenciar de forma benéfica o curso do futuro distante é suficientemente exequível para que o LFA(1) e o LFA(2) sejam verdadeiros para a situação de decisão acima referida. A Secção 5 argumenta que as mesmas alegações e argumentos se aplicam igualmente a uma pessoa que decide como gastar recursos e a uma pessoa que escolhe uma carreira. Afirmamos que estas constituem colectivamente as situações de decisão mais importantes que os agentes enfrentam hoje em dia, de modo a que o LFA resulte daí.

O resto do artigo explora objecções e ampliações face ao nosso argumento.

A secção 6 argumenta que a defesa do LFA é robusta face a diversas variações plausíveis na axiologia, relativamente à aversão ao risco, à priorização face a quem está pior e à ética populacional. A secção 7 aborda a preocupação de não termos noção sobre os efeitos das nossas acções a muito longo prazo. A secção 8 aborda a preocupação de que a nossa argumentação se baseia em probabilidades minúsculas de recompensas gigantescas.

A secção 9 volta-se para o longotermismo forte deôntico. Esboçamos um argumento segundo o qual, de acordo com qualquer teoria moral plausível não consequencialista, a nossa discussão do LFA também é suficiente para estabelecer uma tese deôntica análoga. A secção 10 faz um resumo.

O argumento neste artigo tem alguns antecedentes na literatura. Nick Bostrom (2003) argumentou que o utilitarismo total implica que devemos maximizar a hipótese de que a humanidade acabe por colonizar o espaço. Nick Beckstead (2013) argumenta, a partir de um conjunto de pressupostos um pouco mais amplo, que “o que mais importa” é que façamos o que é melhor para a trajectória a longo prazo da humanidade. Neste artigo, tornamos mais rigoroso o argumento a favor de um longotermismo forte, e mostramos que este decorre de um conjunto muito mais amplo de visões empíricas, morais e baseadas em teorias da decisão. Além disso, o nosso argumento a favor de um logotermismo forte é inédito.

Acreditamos que o longotermismo forte é da maior importância: que se a sociedade viesse a adoptar os pontos de vista que defendemos neste artigo, muito daquilo que hoje priorizamos no mundo mudaria.

Leia o resto do artigo


Publicado originalmente por Global Priorities Institute no EA Forum, a 3 de Setembro de 2019.

Tradução de José Oliveira.

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