Os problemas do longotermismo aplicados ao presente

Por Celso Vieira

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Problemas do futuro ou do presente? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Introdução

Um dos esforços recentes do Altruísmo Eficaz tem sido o de divulgar a necessidade de se pensar sobre questões do futuro, como os riscos-existenciais e o longotermismo. Esse campo de investigação, apesar de recente, já tem alguns tipos de problemas que guiam as discussões, entre eles, o problema do buraco negro, a parálise de decisão e a diversificação. A proposta deste texto será de apresentar esses problemas com o intuito de verificar se eles, mutatis mutandis, ou seja, com as devidas modificações, podem ajudar também na reflexão acerca das intervenções humanitárias que visam resolver problemas no presente.

Algumas definições

Riscos-existenciais (riscos-x) e o longotermismo se referem a concepções diferentes, ainda que estejam intimamente ligadas em vários pontos. Quem quiser uma discussão mais precisa pode ler a seguinte postagem. Para este texto, bastara uma definição mais abreviada.

Focalizar nos riscos-existenciais implica tentar identificar o que é que poderia levar à extinção dos seres humanos e trabalhar para reduzir as chances de que isso aconteça. Por exemplo, podemos pensar que uma guerra nuclear, uma epidemia ou o esgotamento dos recursos naturais do planeta estejam entre os eventos que possuem uma maior probabilidade de levar à extinção dos seres humanos. Em geral, como esses eventos têm mais chances de acontecer em um futuro suficientemente distante, se tende a associar esse tipo de trabalho com um modo de pensar a longo prazo. No entanto, é possível que algum desses riscos seja uma ameaça mais iminente do que aquilo que aparenta.

Longotermismo, por sua vez, consiste em pensar em o que poderíamos fazer para que o futuro da humanidade a longo termo seja o melhor possível. Ainda que pensar a longo termo implique em considerar os riscos existenciais, o longotermismo é mais amplo pois não se limita exclusivamente a uma abordagem negativa. Assim, pode se vislumbrar medidas positivas que tragam benefícios a longo prazo.

Ambas as abordagens, os riscos-x e o longotermismo, possuem um objeto de investigação muito amplo. Afinal de contas, são inúmeros os eventos que podem extinguir a humanidade e existe um universo ainda maior de intervenções que podem assegurar um bom futuro a longo prazo para a humanidade. Portanto, uma vez que se reconhece a importância da preocupação com esse tipo de questão, o primeiro problema que se apresenta é vislumbrar quais seriam os candidatos a eventos que teriam mais chances de modificar positiva ou negativamente o futuro da humanidade. É nesse âmbito que surgem os problemas que vamos tratar:

O que ficou conhecido como o problema do buraco negro consiste em, uma vez identificada qual seria a área de atuação mais promissora, dedicar-se integralmente a ela. Tal qual um buraco negro, essa área de atuação sugaria tudo o que dela se aproxima. Assim, se o principal risco para a humanidade fosse uma Inteligência Artificial não-amigável aos seres humanos, seria justificável que todos os nossos esforços e recursos fossem aplicados para lidar com essa questão. Isso é um problema, pelo menos no nível intuitivo, porque não parece que essa maneira, por excluir todas as outras, seja a melhor maneira de garantir um bom futuro para a humanidade.

O problema da parálise de decisão é, em certa medida, o extremo oposto do buraco negro. Nesse cenário, se identificam tantas áreas de intervenção com uma probabilidade similar de interferirem positiva ou negativamente no futuro da humanidade, de tal modo que acabamos paralisados na hora de fazer uma escolha não arbitrária para decidir qual ou quais delas deveriam receber os nossos recursos e esforços.

A solução de meio-termo entre esses dois extremos seria algum tipo de diversificação que guiasse as nossas escolhas (quem quiser pode seguir a discussão nesse podcast). No entanto, como veremos, parece haver mais de um tipo de diversificação. Antes de identificá-las convém transpor os dois problemas acima para o âmbito do presente.

Mutatis mutandis

O problema do buraco negro pode ser facilmente aplicado à identificação de intervenções humanitárias de maior eficácia. Nesse caso, ao se identificar uma intervenção que parece ser a mais eficaz entre as mais eficazes, ela passaria a receber todos os recursos e esforços disponíveis. Em algum grau, isso parece ter acontecido durante um breve período do Altruísmo Eficaz e da GiveWell em que a The Against Malaria Foundation era tida como a intervenção a ser apoiada. Atualmente, no entanto, a GiveWell recomenda uma gama mais diversificada de causas e fundou até um projeto para identificar outras causas em potencial, o Open Philanthropy Project. O AE, por sua vez, tem como objeto uma gama de intervenções ainda maior que abarca o bem-estar dos animais, o combate à pobreza e a inteligência artificial, para citar apenas algumas.

O problema da parálise de decisão também parece se aplicar sem maiores dificuldades ao caso das intervenções no presente. Afinal de contas, há uma gama tão grande de problemas que, muitas vezes, fica difícil de definir qual desses problemas deve ser priorizado. Na verdade, só depois de algum tempo e recursos investidos na pesquisa de uma causa é que se poderá fazer uma estimativa mais abalizada sobre o seu potencial. Uma opção comum que se segue desse tipo de problema é se optar por esperar – e acumular os recursos reservados para doações – para doar mais tarde.

Se os problemas do longo prazo (o problema do buraco negro e o problema da parálise de decisão) se aplicam às questões presentes, as suas soluções também podem ter alguma relação. Esclarecer quais são essas soluções pode trazer um benefício a ambas as abordagens. Como foi mencionado, a via mais comum de resposta é se adotar uma posição intermediária baseada em uma diversificação das causas escolhidas.

A diversificação

Pelo que parece temos, pelo menos, três tipos de diversificação:

Diversificação pela diversificação: esse tipo de posição depende de se considerar que ser diversificado tem um valor em si. Diante do reconhecimento desse valor, ou do reconhecimento da falta de valor das escolhas unitárias, se evita o problema do buraco negro e se adota uma postura mais aberta em relação ao que se deve fazer para melhorar o mundo. O primeiro problema é que não é fácil defender que a diversificação tenha valor em si. O segundo problema é que, se se aceita o valor da diversificação, parece que haverá sempre motivos para aumentar a diversificação aumentando o leque de causas escolhidas. Isso levará a um tratamento insuficiente de cada uma delas.

Diversificação pela incerteza: nesse caso, o que gera a escolha de mais de uma causa, e acaba evitando o problema do buraco negro, é a consciência de que o que está em jogo é muito importante e as provas que justificam a maior importância de uma causa ou outra não são definitivas a ponto de eliminar a margem de erro. Em vista disso seria melhor adotar uma posição mais razoável que abarque um leque maior de causas. O grande problema com esse tipo de abordagem é que não parece haver um modo não-arbitrário de se traçar um limite para definir a partir de qual probabilidade de sucesso se deve aceitar a prioridade de uma intervenção.

Diversificação por causa da multidimensionalidade: nesse caso, o que justifica uma opção que abarca múltiplas causas e intervenções é reconhecer que o objeto em questão, os indivíduos ajudados ou a humanidade, são complexos e, portanto, necessitam de ajuda em mais de um campo sem haver um critério objetivo para hierarquizar a sua importância. Aqui também o principal problema é de determinação, mas, nesse caso, o problema será como determinar quais são essas dimensões. Por exemplo, tradicionalmente se assumia que as necessidades de saúde física eram mais prioritárias do que as de saúde mental, mas cada vez mais o hiato entre esses âmbitos está se fechando.

Diferentes aplicações

Cada uma dessas diversificações parece ter aplicações mais imediatas se analisadas de determinadas perspectivas. O exercício de atribuir uma diversificação a uma perspectiva pode ajudar na sua caracterização.

Na nossa vida particular parece que nos aproximamos mais de seguir uma diversificação pela diversificação já que perseguimos vários objetivos, muitos deles sem relação, e, em grande parte, escolhidos de maneira não muito refletida. Ainda que seja difícil abandonar por completo esse diletantismo, a tentativa de se adotar em algum grau os outros tipos de diversificação pode ser benéfico (no entanto, é preciso admitir que isso talvez não seja nada mais do que se limitar a ser diversificado sobre a diversificação).

O governo e as políticas públicas, por sua vez, parecem ser o âmbito por excelência da diversificação multidimensional. Isso porque há uma gama de áreas que lhes competem que são, em geral, necessárias para o bem-estar da população. Como tais, elas devem todas ser tratadas. Um governo que aceitasse o buraco negro e investisse apenas em uma área que considerasse essencial até resolver todos os seus problemas, por exemplo, o saneamento, não seria um bom governo ainda que resolvesse por completo o problema ao qual se dedicou, pois teria deixado todos os outros problemas por resolver. Por outro lado, tratar todos os aspectos dessa multidimensionalidade de maneira diversa por diversidade tampouco se justifica. Por isso é importante uma maior reflexão sobre as dimensões dessa multidimensionalidade.

As intervenções humanitárias, por sua vez, por serem entendidas como soluções para problemas pontuais, escapam mais facilmente às diversidades acima. Na verdade, se se tivesse como identificar, com toda a certeza, qual seria a intervenção que geraria mais bem não haveria tantas dúvidas em se focalizar a grande maioria dos recursos nessa intervenção. O problema advém apenas da dificuldade desse tipo de identificação. Portanto, a diversificação em vista da incerteza parece ser a mais aplicável nesse caso.

Agora que temos os tipos de problema, os tipos de solução pela diversificação e os âmbitos em que cada uma se aplica mais naturalmente, é a hora de realizar o exercício de conjugá-las a fim de verificar se surgirão alguns benefícios potenciais. Um desenvolvimento pormenorizado dessa etapa ficará a cargo do leitor, na sequência, me limitarei a algumas intuições que podem estimular uma reflexão mais demorada.

Conclusão

Ainda que a nossa vida seja guiada pela diversificação sem justificativa, quando nos focamos em certos âmbitos parece que os problemas se tornam mais tratáveis ao utilizarmos as outras diversificações mais determinadas. Por exemplo, ao pensar qual carreira seguir, e, por conseguinte, quais competências adquirir para alcançar o objetivo, deve se considerar a diversificação em vista da incerteza já que as chances são grandes que entre a aquisição de competências e a entrada no mercado de trabalho o contexto tenha mudado [ver 80.000 Horas]. Já a identificação do que é importante para se desenvolver uma diversificação multidimensional também pode ajudar a guiar quais aspectos da nossa vida tentaremos desenvolver. Isso pode ajudar, inclusive, a decidir a que tipo de passatempos, atividades físicas e intelectuais nos devemos dedicar. Em vista da incerteza, a diversificação multidimensional pode acabar trazendo benefícios não previstos. Isso justificaria uma caracterização de quais são as dimensões da nossa vida que se beneficiariam mutuamente a fim de se maximizar as nossas boas escolhas. Pense em alguém que estuda química e escolhe desenvolver o seu gosto pela culinária como passatempo testando receitas veganas. Em vista da incerteza, pode ser que isso abra um caminho na sua carreira.

No caso do governo, para se decidir as dimensões a serem privilegiadas na diversificação multidimensional deve se considerar a diversificação diante da incerteza, tanto para se privilegiar as dimensões que tenham maior probabilidade de gerar uma boa vida para a população, quanto para se considerar quais políticas devem ser incentivadas para lidar com essas dimensões. Por exemplo, medidores multidimensionais como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) podem se beneficiar de testes aleatórios controlados que contemplam a diversificação pela incerteza. Na verdade, devido ao alto grau de incerteza, até a diversificação pela diversificação pode encontrar uma justificativa pois ela permite descobrir dimensões que negligenciamos por um ou outro motivo.

No caso das intervenções humanitárias, considerar a diversidade multidimensional pode interferir no sentido de se privilegiar intervenções que tenham um alcance maior do que aquelas que focalizam em apenas um tipo de resultado. Há um grupo considerável de estudiosos que defendem uma abordagem multidimensional da pobreza. Isso justificaria intervenções conjuntas que contemplem mais de uma dimensão. Ampliar o leque de intervenções, mais uma vez, pode se justificar em vista da incerteza. Esse tipo de abordagem faz sentido também na perspectiva do longotermismo, afinal de contas, a longo prazo pode ser que os benefícios não percebidos de uma intervenção gerem o maior bem mesmo que inesperado. Um exemplo já célebre é o caso da legalização do aborto em Nova Iorque que, inesperadamente, acabou gerando uma redução considerável na taxa de crimes algumas décadas adiante.

Espero ter apontado o potencial de como os problemas e reflexões do longotermismo podem ajudar também para pensarmos problemas presentes. Além disso, a recíproca pode ser verdadeira na medida em que os problemas presentes podem se provar importantes para se pensar o longo prazo e, talvez, até para um futuro muito remoto.


Texto de Celso Vieira.

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