Doar agora ou doar depois?

Por Holden Karnofsky (GiveWell)

doar.agora.ou.depois

Doar agora ou depois? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Às vezes, as pessoas nos perguntam se devem doar agora ou economizar o seu dinheiro e doar (incluindo os juros/retornos acumulados do seu dinheiro) posteriormente. Não nos parece que exista uma resposta clara. Aqui estão as principais questões conforme as vejo quando penso em minhas próprias doações. Conclusão – a minha estratégia preferida no momento é doar regularmente (uma porcentagem fixa do meu rendimento a cada ano).

.

As oportunidades de doação de amanhã serão melhores que as de hoje?

O progresso da GiveWell pode levar a melhores oportunidades de doação no futuro próximo. Acredito que a pesquisa da GiveWell é a melhor disponível para identificar grandes oportunidades de doação; mas a GiveWell ainda é uma organização muito jovem e ainda temos muito a aprender. É bem possível que possamos encontrar oportunidades muito melhores no futuro.

Por outro lado, o nosso crescimento e aprendizagem dependem do crescimento do dinheiro que movimentamos. Fazer donativos hoje às nossas principais instituições de caridade ajuda isso a acontecer.

Nenhuma das melhores oportunidades de doação que vejo hoje tem a garantia de ser uma das boas oportunidades do próximo ano. Em alguns casos (particularmente a VillageReach em 2010), doar agora pode ser crucial para o desenvolvimento de uma organização. Mesmo quando esse não é o caso, há sempre a possibilidade de que a organização melhore a sua angariação de fundos – ou faça um contato com um grande financiador – no futuro, afetando a sua capacidade para alocar mais fundos.

Crescimento econômico, aumento de doações e doações mais inteligentes podem significar que as oportunidades de doação sejam piores no futuro distante. Escrevemos anteriormente sobre a ideia de que, quanto mais os outros fazem o bem, menos oportunidades você tem para fazer um grande bem com as suas próprias doações. Esperamos ver o dia em que ninguém seja tão pobre/carente para que você lhe pudesse salvar a vida doando alguns milhares de dólares.

.

Poderei “ganhar juros” economizando agora e doando mais tarde?

Se economizo, ganho juros/retornos sobre o meu dinheiro; mas se doar, o bem que realizo pode “ganhar juros” também. Idealmente, as doações dão às pessoas mais poder sobre as suas vidas, o que por sua vez as deixa melhor posicionadas para ajudar outras pessoas (em sua comunidade ou em outros lugares). Levamos a sério a ideia de que a maioria dos problemas pode ser resolvida de melhor forma pelas comunidades locais do que pela ajuda externa; concentramos a nossa ajuda externa nos problemas que consideramos mais adequados de se resolver.

Em geral, suponho que a “taxa de juros conceitual de empoderar as pessoas” é maior que a taxa de juros que você ganha quando economiza. Isso ocorre porque é o mesmo mecanismo básico que está na origem de ambos (ter mais recursos hoje pode permitir que uma pessoa gere mais recursos para o futuro), mas quem poupa é pago diretamente pelo fornecimento de recursos, enquanto os doadores não (portanto, é provável que haja mais “necessidades não satisfeitas” de doações do que de poupanças). Dadas as taxas de juros atuais, parece particularmente provável que a “taxa de juros de empoderar as pessoas” seja maior que a taxa de juros que você ganha ao economizar.

.

Outras questões

Doar agora significa “pagar para ver”. Acredito que ter o meu próprio dinheiro em jogo me ajuda a pensar mais, de forma mais concreta e realista sobre onde devo doar e que resultados espero com a minha doação. Por sua vez, isso me ajuda a aprender com o tempo.

Penso que o mesmo se aplica, em menor grau, aos doadores que confiam na pesquisa da GiveWell em vez de fazerem a sua própria pesquisa – dar agora pode ajudá-lo a pensar sobre quais perguntas contrastar com as respostas da GiveWell e a considerar como se sente em relação a confiar na pesquisa da GiveWell vs. ir em outra direção.

Se eu adiasse as doações substanciais por um longo tempo, ficaria preocupado por estar a dar uma desculpa a mim mesmo para acabar por não doar nada.

Doar regularmente e previsivelmente é mais útil para o(s) grupo(s) que estou apoiando. Em geral, as pessoas tendem a fazer as mesmas doações a cada ano*, e acredito que as instituições de caridade geralmente fazem os seus planos de acordo com esse fato. (É certo que nós o fazemos, tanto ao considerar nossas despesas operacionais quanto ao considerar a movimentação do nosso dinheiro.) Portanto, se você doar de forma irregular (principalmente se suas doações diminuírem ao longo do tempo), você estará a dar um sinal impreciso a uma instituição de caridade e poderá afetar negativamente a capacidade desta para planejar, a menos que faça esforços específicos para comunicar seus planos (e mesmo quando o faz isso pode criar problemas extra para a instituição).

Concluindo. Em geral, a minha abordagem preferida é doar de forma relativamente regular; creio que há desvantagens substanciais (discutidas acima) em desviar-se dessa abordagem em qualquer direção (seja doando muito agora e apenas um pouco mais tarde, ou doando um pouco agora com a intenção de doar muito mais tarde).

A todo o momento, posso encontrar uma oportunidade de doação que pareça verdadeiramente excepcional e concentrar a minha doação nessa oportunidade, em vez de doar regularmente ao longo do tempo. Para dar um exemplo disso – quando começamos a GiveWell, acreditávamos que nossos fundos para as organizações recém-criadas eram críticos e, portanto, incentivamos os doadores a doarem uma grande quantia imediatamente, mesmo que isso significasse abster-se de doar no próximo ano ou dois. Vários fizeram exatamente isso e, olhando para trás, acho que foi a decisão certa (as doações que fizeram em 2007 foram de fato críticas para darmos os primeiros passos, de uma maneira que, um ano depois, não teriam sido). Por isso, penso que pode haver boas razões para “doar em excesso” agora e não doar mais depois, ou para economizar agora e doar mais depois. Mas, no momento, não vejo nenhum argumento convincente para desviar-me de “doar uma porcentagem fixa do meu rendimento a cada ano”.

.

* Nossa experiência sugere isso; o estudo Money for Good sugere isso também (consulte a página 16).


Publicado originalmente por Holden Karnofsky no Blog da GiveWell, em 20 de dezembro de 2011 (atualizado em 25 de julho de 2016).

Tradução de Thiago Tamosauskas. Revisão José Oliveira.

Assine o Boletim Mensal

 

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s