Quais são as principais ameaças à humanidade?

Por Simon Beard e Lauren Holt (BBC)

Ameaças à humanidade

Como podemos acabar? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

A extinção humana pode parecer coisa de pesadelos, mas há muitas maneiras de poder acontecer.

A cultura popular tende a concentrar-se apenas nas possibilidades mais espectaculares: pense na velocidade ameaçadora do asteróide do filme Armageddon ou na invasão de extraterrestres d’O Dia da Independência.

Embora seja possível a humanidade ter um fim dramático, concentrarmo-nos em tais cenários pode significar ignorar as ameaças mais graves que enfrentamos no mundo de hoje.

E pode ser que tenhamos a capacidade de fazer algo a esse propósito.

Ameaças vulcânicas

Em 1815, uma erupção do Monte Tambora, na Indonésia, matou mais de 70 000 pessoas, lançando cinzas vulcânicas para a atmosfera superior.

Isso reduziu a quantidade de luz solar que chegou à superfície da Terra, desencadeando o que ficou conhecido como o “ano sem verão”.

O lago Toba, no outro extremo da Sumatra, conta uma história ainda mais sinistra. Foi formado por uma erupção super-vulcânica verdadeiramente gigantesca, há 75 000 anos, e o seu impacto foi sentido em todo o mundo.

Foi sugerido que o evento terá levado a um dramático declínio na população dos primeiros seres humanos, embora isso tenha sido questionado recentemente.

Mas, apesar de a perspectiva de uma erupção super-vulcânica ser aterrorizante, não devemos preocupar-nos demasiado. Os super-vulcões e outros desastres naturais, tais como um asteróide a atingir a Terra ou uma estrela a explodir na nossa vizinhança cósmica, não são mais prováveis em 2019 do que em qualquer outro ano. E isso não é muito provável.

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Fonte: OMS, The Good Judgment Project, AER/Lloyd’s of London, Royal Meteorological Society

Ameaças crescentes

O mesmo não se pode dizer sobre muitas ameaças globais provocadas por pessoas.

Por exemplo, tanto a Organização Mundial de Saúde como o Fórum Económico Mundial listaram as mudanças climáticas e os seus efeitos como um dos principais riscos para 2019.

Em conversações recentes na ONU, foi dito que as mudanças climáticas já eram “uma questão de vida ou morte” para muitas regiões. Enquanto muitos, incluindo o Sir David Attenborough, acreditam que poderiam levar ao colapso de civilizações e à extinção de “grande parte do mundo natural”.

As ameaças são complexas e diversas, desde ondas de calor devastadoras e o aumento do nível do mar, até à fome e à migração generalizadas numa escala verdadeiramente gigantesca.

Potenciais riscos de novas tecnologias, como a inteligência artificial (IA), também estão a aumentar.

Os cenários vão desde ciber-armas cada vez mais sofisticadas, que poderiam fazer refém os dados de uma nação inteira, a algoritmos autónomos que, inadvertidamente, podem causar um colapso do mercado de acções.

Outra ameaça é a possibilidade de uma guerra nuclear.

Enquanto muitos se concentram no aumento das tensões entre potências globais, as novas tecnologias também podem estar a tornar-nos menos seguros.

Isso ocorre devido ao “entrelaçamento” entre armas nucleares e armas convencionais e ao risco de a IA poder ajudar a desencadear uma guerra nuclear.

Outro risco que pode estar a aumentar é o das pandemias globais. Pensa-se que a gripe, por exemplo mate uma média de 700 000 pessoas e custe à economia global 500 mil milhões [Br. 500 biliões] de dólares (391 mil milhões [Br. 391 biliões] de libras) por ano.

As populações humanas cada vez mais densas e móveis têm o potencial de levar a que novas estirpes de gripe se espalhem facilmente. E isso leva a preocupações sobre um futuro surto como a Gripe Espanhola de 1918, que terá matado até 50 milhões de pessoas.

No entanto, programas de vacinação generalizados e outras medidas de prevenção de doenças ajudam a reduzir esse risco.

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Como calcular a probabilidade de um risco existencial

  • Observar registos históricos ou geológicos. Podemos acompanhar alguns eventos, como super-vulcões e impactos de asteróides
  • Encontrar um precedente natural. Quando os cientistas analisaram o risco que o reactor CERN poderia representar, observaram ambientes semelhantes que ocorrem nas estrelas
  • Construir um modelo. Os cientistas usam modelos atmosféricos sofisticados para explorar o futuro do nosso clima
  • Para ameaças que não podem ser testadas em modelos, os cientistas geram informação envolvendo-se em jogos de guerra e outros exercícios
  • O governo do Reino Unido também mantém um registo de riscos nacionais, incluindo inundações, meteorologia do espaço e doenças

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Um futuro disruptivo

Embora estas ameaças sejam reais, o maior perigo que enfrentamos em 2019, quando visto de uma perspectiva global, provavelmente virá de outro lado.

Com quase oito mil milhões [Br. 8 biliões] de pessoas a viver na Terra, estamos cada vez mais dependentes de sistemas globais que nos sustentem. Isso abrange desde o meio ambiente que nos fornece comida, água, ar limpo e energia, até à economia global que os transforma em bens e serviços.

No entanto, desde o declínio dos níveis de biodiversidade até às infra-estruturas e às cadeias de abastecimento a funcionar para além do seu limite, muitos destes sistemas já estão a atingir o ponto de ruptura. E as rápidas mudanças climáticas estão apenas a piorar as coisas.

Diante disto, pode ser que os riscos globais não sejam definidos pelo tamanho do desastre que os causa, mas pelo seu potencial para perturbar estes sistemas vitais.

O potencial é indiciado por exemplos recentes de reacções em cadeia.

A erupção de 2010 do vulcão Eyjafjallajökull na Islândia não matou ninguém, mas levou ao encerramento do tráfego aéreo sobre a Europa por seis dias. E, em 2017, o ataque de sequestro de dados, ransomware WannaCry, relativamente pouco sofisticado, fechou partes do Serviço Nacional de Saúde, no Reino Unido, e outras organizações em todo o mundo.

Como quase tudo aquilo de que dependemos também depende do funcionamento de um sistema eléctrico, computacional e de internet, qualquer coisa que pudesse  danificá-los — desde uma erupção solar a uma explosão nuclear na alta atmosfera — poderá causar danos muito generalizados.

Prevenção de desastres

No entanto, pode haver novas maneiras de reduzir este risco.

Há uma história antiga do rei Canuto da Dinamarca que ordenou ao mar que recuasse. Ele sabia que seria incapaz de conter a maré e um sentimento semelhante de impotência pode facilmente dominar-nos quando consideramos possíveis catástrofes futuras.

No entanto, a verdade é que os dinamarqueses estão a afastar a sua linha costeira há gerações: construindo diques e drenando pântanos para se protegerem da maré que se aproxima.

Às vezes, o melhor é protegermo-nos pensando em maneiras de tornar a humanidade mais resistente aos desastres que estão para vir.

E isso poderia dar-nos a melhor maneira de garantir que 2019 — e mais além — seja um ano seguro para a humanidade.

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Sobre esta peça

Esta análise foi comissionada pela BBC a especialistas que trabalham para uma organização externa.

Dr. Simon Beard e Dr. Lauren Holt são investigadores associados no Center for the Study of Existential Risk.

O CSER, com sede na Universidade de Cambridge, estuda a mitigação de riscos que podem levar à extinção humana ou ao colapso da civilização.

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Editado por Duncan Walker


Texto de Simon Beard e Lauren Holt publicado na BBC, a 15 de Fevereiro de 2019

Tradução de Luís Campos. Revisão de José Oliveira.

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