Educação e Altruísmo Eficaz (2 de 2)

(Revisão feita em 24/10/2019, acrescentando alguns dados compartilhados pelo Projeto Ninho)

Por Celso Vieira

AE e Educação2

Altruísmo eficaz, e a Educação no Brasil? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Introdução

Em uma postagem anterior, vimos os argumentos a favor da intervenção na área da educação em países em desenvolvimento bem como a dificuldade de se medir os resultados e de conseguir os mesmos resultados transferindo programas que deram certo. Apesar disso, foi possível formar um quadro suficientemente robusto de intervenções que funcionam. A proposta seguinte será a de aplicar as informações anteriores para fazer uma primeira apreciação do Projeto Educacional Ninho, uma intervenção na área social que me convidaram a visitar.

A proposta do Ninho

O Projeto Educacional Ninho se propõe a oferecer acesso a educação de qualidade para crianças com alto potencial intelectual residentes em comunidades com alta vulnerabilidade social na região de Lagoa Santa (Minas Gerais – Brasil). O projeto tem três anos de existência. A cada ano eles selecionam 10 crianças que estudam na rede pública nos bairros mais pobres da região. O planejamento é chegar a um contingente de 120 crianças atendidas simultaneamente. Como o ciclo da educação básica no Brasil é de 12 anos, uma vez estabelecido esse número total, a cada ano se formarão 10 jovens e entrarão novas crianças.

A seleção rigorosa é realizada por um grupo de profissionais da área da psicologia e pedagogia. O objetivo é selecionar os jovens e famílias com grande potencial que estariam sendo sub-estimulados nas escolas da rede pública da região.O potencial não é identificado por apenas um medidor como a performance da criança ou QI. Pelo contrário, eles privilegiam o que costuma se chamar de inteligência disposicional que considera traços como organização, compromisso e responsabilidade que serão necessárias para as crianças se adaptarem às tarefas de uma escola mais exigente. Por exemplo, durante a seleção se identificou uma criança que possuía um grau relevante de deficiência auditiva não diagnosticada. Hoje em dia, ela é uma das melhores alunas do projeto.

Os selecionados são matriculados em um dos melhores colégios particulares da região, o M2. Nesse colégio, as crianças frequentam as aulas no turno matinal junto com os alunos de classe alta. Depois disso, os participantes do Projeto Ninho almoçam e, no turno da tarde, são transportados para a recém-inaugurada sede do projeto. Ali eles têm acesso a uma estrutura de alto nível e a uma rede de profissionais qualificados (professores e psicólogos) para lhes ajudar a realizar as tarefas do colégio e também ampliar a sua aprendizagem seguindo uma abordagem mais lúdica e com acesso à tecnologia.

 

 

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Convém destacar ainda que a seleção das crianças também leva em consideração o ambiente familiar. Isso porque é necessário que os pais também se engajem com o projeto. Em um sistema rotativo, sempre se pode encontrar pais e mães na sede do projeto ajudando nas tarefas e na manutenção do local. Nas palavras de Daniela Paulinelli, a diretora executiva, educação, para funcionar, deve ser tratada como uma tarefa familiar.

À primeira vista, os resultados são encorajadores. Todos os alunos se adaptaram bem ao novo colégio em que as aulas, tarefas e avaliações são muito mais exigentes. Nenhum deles está abaixo da média e a maioria encontra-se entre os 25% do topo (mesmo face aos outros alunos que já frequentavam o colégio).

Questões preliminares

Para quem segue a abordagem do altruísmo eficaz há algumas questões que se colocam antes mesmo da avaliação de uma intervenção em particular. Como foi dito, uma discussão mais alongada da área da educação encontra-se em uma postagem anterior. Além disso, um dos problemas é o local da intervenção. É um dos princípios guia do movimento que se procure os locais em que as intervenções gerem o maior bem possível. É por isso que, em geral, se privilegia intervenções que atuam nas áreas mais vulneráveis do planeta, atualmente, a África subsaariana. Isso excluiria um país como o Brasil. No entanto, atualmente há um reconhecimento de que muitas das pessoas mais pobres do mundo vivem em países em desenvolvimento que, em geral, não são foco de ajuda humanitária. Ademais, a partir da pesquisa de Deaton e outros, ser parte dos habitantes mais pobres de regiões em que há concentração de riqueza, mas em que há também enorme desigualdade, pode ser até pior do que habitar nas regiões mais pobres.

Isso parece qualificar o Brasil como uma região apta a gerar intervenções altamente eficazes. Ainda assim, teríamos que identificar quais seriam as sub ou microrregiões em que há mais oportunidade para intervenção. No nosso caso, a informação relevante seria sobre Lagoa Santa. Aqui eu tenho uma limitação no acesso e na análise dos dados. Por um lado, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM) de Lagoa Santa não está entre os mais baixos do Brasil. No entanto, seria necessário ver a microregião dos bairros de onde provêm os alunos que frequentam o Projeto Ninho. Eles, de fato, saem dos bairros mais vulneráveis da cidade, mas não sei como isso se compara a nível nacional.

A equipe do Projeto Ninho compartilhou os dados da microregião: Em 2014, os moradores do Residencial Bem Viver (de onde sai a maioria dos alunos participantes) apresentavam as seguintes características:

  • contingente total de 2025 pessoas;
  • 620 famílias com rendimento familiar de até R$1.600,00 (que é considerado o limite para o rendimento baixo no Brasil);
  • 50% dos moradores menores de 18 anos;
  • 59% dos moradores eram mulheres;
  • taxa de analfabetos de 10%;
  • 56% com ensino fundamental (9.º ano) incompleto;
  • 28% de desempregados (taxa cinco vezes maior do que a média nacional no período citado).

Os medidores de escolaridade do município não são especialmente baixos em relação à média nacional. Porém, mais uma vez, a região é desigual, o que não torna o uso da ‘média’ muito significativo. Uma das escolas que muitos dos alunos selecionados frequentavam, a EM Lívio Múcio, está listada como ‘estado de alerta’ devido à nota baixa no índice de educação (a nota é 5,7, a menor da região, ver o link para uma comparação entre as escolas). Além disso, o exame compara apenas escolas públicas, de modo que isso não dá conta da diferença que pode haver entre a educação pública e a educação privada. E, de fato, a diferença é significativa já que o Brasil está listado entre os países em que há mais diferença na performance entre alunos ricos e pobres.

No caso da aprendizagem de matemática e ciências os alunos do Brasil (ricos vs. pobres) apresentam uma diferença de -1,5 de desvio padrão em relação à média dos países desenvolvidos (semelhante à de Botswana e Filipinas). Já no caso da literacia, a média da pontuação dos alunos brasileiros é 400 enquanto no Reino Unido é 500, por exemplo. Ademais, há uma grande variação de acordo com a situação social. Os alunos brasileiros ricos têm uma média que se aproxima aos 500 enquanto que os pobres superam um pouco os 300. É uma das maiores diferenças internas entre os países avaliados. (Baseado no World Development Report, ver também a ferramenta do Global Monitoring).

No fim dessa breve análise, não há informação suficiente para confirmar a pertinência do local escolhido para a intervenção. No entanto, de uma perspectiva geral, o Brasil e a desigualdade da educação legitimam o esforço de melhoria.

O modelo de intervenção do Projeto Educacional Ninho

Agora é hora de verificar o potencial do modelo de intervenção do Projeto Ninho.

Vimos que, hoje em dia, a maioria das crianças têm acesso à escola. No entanto, isso não implica que elas aprendem. Por isso, a agenda dos novos objetivos do desenvolvimento sustentável estabelecidos em 2015 foca em atingir resultados relevantes e eficazes na aprendizagem. O projeto Ninho se enquadra nessa agenda atualizada que visa garantir a qualidade da aprendizagem.

Devido à complexidade da área da educação, Lant Pritchett defende a importância da autonomia dos agentes locais como essencial para os resultados de um projeto. Isso o Ninho, com certeza, satisfaz. Eles se propõem a oferecer um terceiro modelo de educação além da divisão entre ensino público e privado que conta com um envolvimento direto da sociedade. Além disso, eles esperam que o seu projeto sirva de modelo para ser aplicado em outras regiões e contextos. Em vista disso, convém vislumbrar o potencial de intervenção em vista das intervenções de eficácia comprovada.

O que funciona

(mais detalhes na postagem anterior)

O que o Projeto Ninho oferece

.

Atividades após as aulas funcionam ao envolver os alunos social e educacionalmente. Esse é o grande diferencial do Ninho. Os estudantes recebem ajuda nas tarefas, imersão em inglês e estímulo para atividades físicas e sociais.
Transferir alunos para escolas boas pode reduzir as suas notas, mas mantém os ganhos (como p. ex. entrar na universidade). O objetivo do Ninho é que todos os participantes entrem na universidade. Ademais, o reforço que eles recebem à tarde garante que as notas continuem boas mesmo no novo ambiente.
O envolvimento das famílias aumenta o desenvolvimento dos alunos. Como foi notado, a participação da família é parte integrante do Ninho.
Os resultados obtidos mais cedo crescem. Reduzir a diferença na educação entre ricos e pobres aos 12 anos reduz a diferença aos 22 anos. O Ninho seleciona alunos que estão no ensino fundamental e se compromete a acompanhá-los até o primeiro dia na universidade.
Distribuir os estudantes pelas suas capacidades iniciais gera bons resultados (tanto para os melhores quanto para os piores). Ver o programa Teaching at the Right Level da J-pal. (1)
Efeitos dos pares/ colegas aumentam a aprendizagem e os outros ganhos além de que o convívio de alunos de diferentes classes aumenta as chances de eles se ajudarem no futuro. Ao matricular os alunos dos bairros vulneráveis em uma escola particular de alto nível o Ninho acaba gerando essa integração social que não aconteceria.
Mesclar crianças ricas e pobres em uma sala de aula aumenta a confiança, generosidade e a tolerância em ambos os lados. Há casos em que também há um ganho acadêmico. Desse modo, apesar de não ser o objetivo do programa, eles acabam gerando benefícios aos outros alunos que participam de uma sala mais diversa.
Terapia cognitiva comportamental (TCC) funciona para casos específicos como aumentar autocontrole. Apesar de não utilizar TCC, a evolução de traços como autoestima, autoconfiança e identidade social são visíveis nas crianças participantes.

(2)

Treinamento vocacional parece funcionar, mas em contextos específicos. (2)
Competências comportamentais (Soft skills) podem fazer diferença. (2)
Reforço pós-aula e mentoria para os alunos com mais dificuldades funcionam. Ver também o programa Teaching at the Right Level da J-pal. (1)
Tutoria após a escola, lições e monitoria geram bons resultados, mas é caro. Por outro lado, tutores informais na Índia não aumentaram as notas. No Ninho todos os alunos recebem reforço na parte da tarde. Quando necessário, eles podem ter um acompanhamento mais individualizado.
Tecnologia: Prover mais conteúdo através de novas mídias e boas instalações e material didático também geram bons resultados. Porém, há resultados que questionam o uso de tecnologia. Também há resultados positivos do uso da gamificação. (3)
Bolsas estão entre as intervenções mais custo eficazes (J-Pal, p.11), mas há estudos que não acham diferenças significativas nas notas. Uma das ações do Ninho é oferecer bolsas para os alunos estudarem na escola particular.
Bolsas por mérito e bolsas por necessidade aumentam a frequência na escola. Porém, as bolsas por mérito apenas têm efeito na aprendizagem e no bem-estar (que persistiu 9 anos depois, mas não teve efeito no rendimento). Bolsas por mérito também funcionaram no Quênia. As bolsas no Ninho não são ligadas ao mérito, mas a seleção de quem vai participar do programa, e receber as bolsas, é feita de acordo com o potencial identificado em um processo rigoroso de avaliação intelectual, disposicional, perfil psicológico, social e familiar.

Esse quadro deixa claro que, em muitos pontos, a proposta de intervenção do Projeto Educacional Ninho está na direção correta para garantir bons resultados. Na grande maioria dos casos, as intervenções estão em consonância com o que, segundo as pesquisas na área, gera resultados desejáveis. De modo que parece pertinente afirmar que a doação feita ao projeto tem boas chances de gerar o resultado esperado, ou seja, que a grande maioria dos participantes vai desenvolver o seu potencial e entrar na universidade. No entanto, os quadros em branco abrem espaço para algumas questões ou sugestões que poderíamos fazer.

Algumas sugestões

(1) Visto que a seleção para integrar o projeto não é feita apenas pela avaliação do QI, mas sobretudo por características como organização, compromisso e responsabilidade (inteligência disposicional), caso a rotina de estudo assistido também seja capaz de gerar uma disposição para o estudo, então o Ninho poderia incluir atividades de educação disposicional, o que poderia ampliar o leque de seleção de crianças para incluir aquelas que, tendo pontuado bem nas capacidades de aquisição de conhecimento, não tivessem pontuado tão bem na inteligência disposicional.

(2) Esse grupo de estudos podem oferecer boas sugestões sobre os tipos de saberes que podem ser ensinados aos alunos na parte da tarde do programa em vista de aumentar as suas chances de sucesso. Temos a teoria cognitiva comportamental para gerar inteligência emocional, treinamento vocacional (que depende de identificar o potencial da área em que eles habitam), e as competências comportamentais que os ajudarão no mercado de trabalho. Isso talvez dependa de um novo grupo de voluntários que o Ninho, definitivamente, tem estrutura para receber.

(3) O Ninho recebeu alguma ajuda da Google tanto em verba quanto em computadores e jogos. No entanto, um uso sistemático da tecnologia ainda não foi implementado.

Por fim, uma vez que o projeto pode servir de modelo para ser implantado em outros lugares, potencializando a sua eficácia, seria importante reunir dados que ajudem na avaliação futura do projeto, como, por exemplo:

(a) considerar o contrafactual, ou seja, tentar saber o que seria dessas crianças se elas não fossem ajudadas pelo Ninho. Nesse caso, o projeto está em uma ótima posição de fazer uma pesquisa que recolha esse tipo de dados. Afinal de contas, bastaria acompanhar as crianças que quase foram selecionadas e comparar, ao longo dos anos, qual a diferença entre elas e as selecionadas. Esse tipo de estudo controlado pode fornecer dados importantes para uma área em que é difícil de encontrar condições para avaliações aleatórias controladas.

(b) O projeto revela o potencial dos alunos com características especiais ou poderá também revelar o potencial de qualquer aluno? Porque não testar o projeto num aluno escolhido, não pelas suas características especiais, mas aleatoriamente? Este poderia ser também mais um elemento de controle da eficácia do projeto. E caso gerasse frutos substanciais, poderia abrir a possibilidade deste projeto ser reproduzido ou adaptado para potenciar os resultados no ensino público.*

(c) Vimos ainda que um medidor muito utilizado é o custo por ano de estudo adicionado. Também seria importante tentar aplicar esse tipo de métrica ao Projeto Ninho.

Conclusão

Em vista da pesquisa acima e do que pude comprovar e experienciar nas visitas ao local, parece seguro afirmar que o maior propósito do Ninho será alcançado com a maioria dos participantes, a saber, garantir que eles desenvolvam ao máximo o seu potencial intelectual, se graduem na universidade e recolham os frutos dessas conquistas (e talvez retornem para ajudar as suas comunidades).

No entanto, se formos olhar para essa intervenção seguindo os princípios do Altruísmo Eficaz, há espaço para algumas questões. Afinal de contas, a intervenção tem um custo alto e atinge poucas crianças (ainda que a cada ano o número aumente). Em um mundo com recursos escassos e tanta pobreza, pode se defender que a quantia investida ali pudesse gerar um maior bem se aplicada em outras intervenções e outros locais, alcançando um número maior de participantes. No entanto, esse tipo de argumento não diminui a qualidade do projeto em vista do que ele se propõe a fazer. Afinal de contas, as intervenções do Projeto Ninho são atestadas em vista da pesquisa especializada na área.

O meu parecer final é que:

a) se você procura uma intervenção no Brasil,

b) se a área da educação é importante para você,

c) e se você prefere uma intervenção em que a garantia advinda de um acompanhamento individual a longo-prazo é mais importante do que a amplitude, o Projeto Ninho se apresenta como uma opção muito boa.

***

 

PS: Algumas das posições expressas nesse texto podem não refletir necessariamente as do movimento do altruísmo eficaz. Sobre este assunto o leitor pode também achar interessante os seguintes textos:

 

* A sugestão é do José Oliveira.

Texto de Celso Vieira.

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