Desigualdade, uma questão de saúde?

Por Celso Vieira

Desigualdade e Saude(19)

Desigualdade, uma questão de saúde? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Introdução

O crescimento da desigualdade é apontado como um dos maiores problemas do cenário atual, não só em cada país como também a nível global. Os críticos da desigualdade concordam com o que parece ser a nossa reação intuitiva de que uma distribuição desigual de bens seja, em si, problemática. Diferentemente dessa tendência, o Altruísmo Eficaz, em geral, não vê a desigualdade como um problema em si. Isso quer dizer que é preciso haver algum motivo além desse para que seja justificável apoiar alguma intervenção cujo foco direto seja reduzir a desigualdade. Na sequência, examinaremos alguns casos que podem servir para justificar que a desigualdade receba a atenção do movimento AE sem que seja necessário mudar a posição segundo a qual a desigualdade não é um problema em si.

A desigualdade

Considere um cenário em que há duas populações isoladas. Em uma não há desigualdade enquanto que a outra é desigual. A primeira, é claro, parece melhor do que a segunda. Mas agora acrescente o detalhe de que as pessoas em pior situação na população desigual vivem em condições melhores do que as pessoas da população sem desigualdade. Se pudéssemos escolher, parece intuitivo preferir morar na sociedade desigual, já que mesmo se fôssemos parte do estrato mais baixo da tal sociedade, ainda assim viveríamos em condições melhores. Esse tipo de experimento mental favorece a visão de que o maior problema não é a desigualdade. Como em todo tipo de experimento mental, temos aqui uma representação simplificada da questão em análise a fim de conseguirmos acessar apenas o seu ponto fundamental. No entanto, como em qualquer tipo de experimento em laboratório, essa simplificação vem com o risco de distorcer o fenômeno que se busca compreender.

Uma das simplificações advém de pensar as duas populações de modo separado, assunto tratado na postagem sobre a ética populacional. Para ver que a interação é inevitável, basta nos focarmos apenas na sociedade desigual e dividi-la entre os que têm mais e os que têm menos. Nesse caso, é claro que haverá uma interação entre esses dois grupos e que isso afetará sua vida em conjunto. Para entrever possibilidades de efeitos dessa interação, vou seguir as duas principais abordagens do Altruísmo Eficaz atualmente. Temos duas grandes áreas de atuação AE: tentar diminuir o máximo de sofrimento desnecessário no mundo de hoje, na qual temos o combate aos males gerado pela pobreza ou a desconsideração do sofrimento de outras espécies, e a tentativa de reduzir os riscos existenciais, em que se tenta prevenir catástrofes futuras e ainda garantir uma vida sem sofrimento para as gerações futuras.

A desigualdade não é necessariamente um problema em ambos os casos. Pode se conceber uma sociedade que tenha grande variação de rendimento entre os indivíduos, mas que não hajam pobres, no sentido absoluto de que ninguém sofre os males advindos da pobreza. Além disso, a princípio também é concebível uma sociedade com grande estratificação social que exista por um longuíssimo tempo. No entanto, como veremos, na prática parece haver objeções importantes a essas concepções.

Efeitos da desigualdade na saúde dos indivíduos

O caso óbvio de que uma sociedade desigual afeta a saúde dos indivíduos que nela participam é a questão da exclusividade de acesso a certos bens ou serviços. Isso acontece quando os menos privilegiados não têm acesso aos tratamentos disponíveis por questões financeiras, ou de isolamento e, até, preconceito. Assim, casos como a diarreia que são banais para uma criança com acesso a cuidados básicos de saúde, tornam-se a causa da morte de um número enorme dentre as crianças sem acesso a esses cuidados de saúde. Isso acontece atualmente e, apesar de ser injusto e inaceitável, não se aplica ao caso da sociedade desigual sem pobres concebido acima. Para resolver esse tipo de problema basta garantir acesso aos tratamentos de saúde, sem, necessariamente, acabar com a desigualdade. De modo que um tal caso não basta para justificar um combate direto à desigualdade.

No entanto, o fato é que mesmo em países com acesso universal aos tratamentos de saúde também há uma escala em que as pessoas mais pobres sofrem mais problemas de saúde. Isso é comprovado por uma fonte crescente de evidências apontando para os efeitos maléficos para a saúde gerado pela percepção da desigualdade e não pela falta de acesso a um determinado tratamento. Isso acontece porque uma parcela significativa dos problemas de saúde associados à pobreza tem mais relação com ‘se sentir pobre’ do que com ‘ser pobre’, ou, para ser mais específico, com o estresse provocado naquela parcela de uma população que tem o status socioeconômico inferior.

Em um excelente compêndio, Sapolsky divide três tipos de problemas identificados:

Inflamação crônica: Inflamar é um recurso útil para o corpo no esforço de conter e reparar alguns danos. Entretanto, se a inflamação é crônica ela gera defeitos moleculares por todo o organismo, causando doenças de aterosclerose e Alzheimer. Os malefícios foram identificados inclusive em sociedades hierárquicas sem sistema monetário, como Tung mostra no caso dos macacos-rhesus. Além disso, se ela ocorre na infância, as chances dessas crianças terem problemas cardiovasculares aumenta significativamente.

Envelhecimento prematuro do DNA: Telômeros, as extremidades do DNA, ajudam a manter nossos cromossomos estáveis. Um meio pelo qual nosso corpo se renova, é através da duplicação do DNA. A cada duplicação, os telômeros diminuem. Quanto mais curtos eles ficam, mais frágeis e instáveis serão os cromossomos produzidos. Quando ficam muito encurtados, as células não podem mais duplicar e perdem suas funções. Isso faz com que a condição dos telômeros sirvam como uma ótima medição de envelhecimento. A partir disso, Epel e Blackburn demonstraram que pessoas vivendo em condição de estresse apresentam aceleramento no encurtamento dos telômeros. Depois disso, uma série de estudos comprovou que o fenômeno se repete com pessoas que vivem na pobreza, sofrem de depressão, racismo, entre outros.

No cérebro: O estresse, incluindo o provocado pela pobreza, leva ao aumento da produção de glucocorticoides. Isso reduz as funções do hipocampo, região associada à aprendizagem e à memória. Já na amídala, região responsável pelo medo e ansiedade, há um aumento no funcionamento. Além disso, as conexões entre os neurônios se enfraquecem. Isso afeta o córtex pré-frontal que é necessário para o planejamento de longo termo e controle dos impulsos. Tudo isso provoca um mau funcionamento na tomada de decisões. Criam-se agentes com dificuldade de aprendizagem, operando com medo e fazendo escolhas impulsivas.

A consequência desses casos pode implicar que, havendo desigualdade, mesmo que todos tenham acesso aos mesmos recursos de saúde, ainda assim haverá danos à saúde dos que têm um status socioeconômico inferior. As evidências vêm de fontes variadas que não nos permitem distinguir entre casos de estresse justificado (quando os pobres realmente vivem em risco cotidiano) contra casos de estresse percebido (em que não há risco real). De qualquer maneira, as evidências bastam para que se trabalhe para resolver o problema e, assim, ainda que a desigualdade não seja um problema em si, ela parece ser uma área de intervenção potencial para projetos altruístas.

Efeitos da desigualdade na resiliência das sociedades

Agora é hora de examinar se há alguma justificativa para se lidar com o problema da desigualdade do ponto de vista do futuro distante e dos riscos catastróficos. É claro que é possível derivar um caso a partir das evidências acima. Afinal de contas, se a desigualdade produz problemas de saúde sérios a uma parte significativa da população, fica difícil vislumbrar um bom futuro para a humanidade em que esses problemas não sejam tratados. No entanto, o ponto fica ainda mais forte se obtivermos um caso direto em que a presença da desigualdade (ou de um certo grau de desigualdade) ameace a resiliência de uma civilização.

Um modelo disponível para pensar populações que interagem é aquele utilizado pelos biólogos. Lotka teve sucesso ao propôr o modelo predador-caça de competição para prever o equilíbrio oscilatório entre diferentes espécies partilhando um mesmo habitat. O que acontece é uma relação inversa entre as populações. O aumento da população de predadores leva à redução da população dos caçados e, por sua vez, a redução da população dos caçados leva a uma subsequente redução da população dos predadores. Motesharrei et al. partiram dessa situação simples a fim de criar uma versão mais complexa que se aplique à situação das populações humanas contemporâneas. Para tanto, eles incluíram mais duas variantes no modelo de interação: o desgaste ecológico que dá conta do uso dos recursos e a estratificação econômica que simula a tendência de a parte privilegiada da população acumular recursos que acabam aumentando as suas vantagens. Nessa condição, as simulações de computador mostraram que o aumento na desigualdade era o principal fator a levar uma população ao colapso. Além disso, ao aplicar esse modelo a civilizações passadas como o império romano os resultados foram próximos do que a história documenta.

As evidências de modelos e simulações virtuais tampouco são conclusivas. Mesmo assim, nas duas principais perspectivas adotadas pelo Altruísmo Eficaz encontramos bons argumentos para inserir a desigualdade como uma área de intervenção promissora.

Intervenção

Ambos os âmbitos parecem pedir intervenções sistêmicas, seja na área da saúde, economia e/ ou da organização social intra e inter-populações. No entanto, eu gostaria de concluir a partir de um âmbito alternativo de intervenção que pode ter um papel, pelo menos, complementar na solução do problema. Em uma postagem anterior vimos que considerar os medidores de felicidade diretamente na avaliação das intervenções pode gerar resultados diferentes e complementares para se pensar o Altruísmo Eficaz.

As pesquisas em felicidade são consistentes com os casos acima, principalmente aquele que aponta para o fardo psicológico gerado por se ter um status socioeconômico inferior. Isso porque os moradores de países, regiões ou vizinhanças desiguais mas desenvolvidas tendem a reportar um nível de felicidade inferior aos moradores que vivem em condições piores mas em regiões menos desiguais. Na verdade, isso é uma das hipóteses mais aceitas para se resolver o paradoxo de Easterlin. O paradoxo vem da constatação de que o desenvolvimento econômico de sociedades não é acompanhado por uma melhoria na felicidade subjetiva dos seus indivíduos. A razão seria que, apesar da melhoria para todos, se houver também um aumento na desigualdade as pessoas não se sentiriam melhores. A felicidade, sem dúvida, tem um caráter relacional, e, como vimos, as consequências da desigualdade levam a problemas graves de saúde. De repente, tratar a todos com o devido respeito, e principalmente as pessoas com status socioeconômico inferior, torna-se um dever com consequências muito mais importantes do que à primeira vista parece.

Na postagem sobre a felicidade, vimos ainda que no caso de distúrbios mentais como depressão e ansiedade, as intervenções de terapias cognitivo-comportamentais apresentam resultados promissores. Uma vez que a desigualdade não parece ser um problema em si, uma possibilidade que se abre é que algum treinamento de resiliência mental pode ter efeito positivo para diminuir o aspecto relacional da felicidade, o estresse e os subsequentes problemas de saúde causados por eles. O império Romano serve como exemplo de uma sociedade que foi levada ao colapso devido ao crescimento da desigualdade. O estoicismo foi uma escola filosófica popular em todos os estratos sociais do império, tendo sido praticada tanto por imperadores como Marco Aurélio quanto por escravos como Epiteto. Como filosofia prática, o estoicismo oferecia várias estratégias para se formar agentes resilientes. Não impressiona que essas estratégias tenham se tornado populares nos dias de hoje, já que o aumento na desigualdade é documentado. Talvez, haja nesse comportamento uma faísca da eficácia, até certo ponto, de intervenções que cultivem a resiliência mental.


Texto de Celso Vieira.

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