Dois momentos do Altruísmo Eficaz

Por Celso Vieira

Longo-termismo

Ajudar o presente ou o futuro? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Epígrafe

Imagine que você tem dois filhos. Jorge tem uma doença grave que o faz precisar de tratamento médico frequente. Ana tem uma inteligência acima da média. Diante disso, você contempla duas opções. Ir para uma cidade que oferecerá uma melhor qualidade de vida para Jorge mas que não tem um sistema de educação capaz de permitir que Ana desenvolva o seu talento. Ou então, você pode ir para uma cidade onde Ana terá o máximo de assistência para desenvolver suas capacidades ao passo que Jorge não terá boas condições para viver bem.

Diante desse dilema, se você pensa no presente, a melhor escolha é privilegiar Jorge. Se você pensa no futuro, incluindo o fato que o sucesso de Ana será necessário para a sobrevivência confortável de Jorge após a sua morte, a escolha parece pender para privilegiar Ana. Nesse caso, pode inclusive acontecer que a Ana venha a ter tanto sucesso que ela constitua uma numerosa família e que todos sejam muito felizes. Ao mesmo tempo, pode ocorrer que Jorge seja ignorado.

Essa analogia, dentro de suas limitações, ilustra os estágios diferentes do Altruísmo Eficaz que pretendo discutir na sequência.

Introdução

O Altruísmo Eficaz (AE) se manteve, desde as origens, bem sólido no princípio que o guia: fazer o maior bem possível.

É um bom princípio que, à primeira vista, não parece conduzir a nenhum problema. No entanto, como é sempre o caso em investigações éticas, ele tanto leva a conclusões que vão contra as nossas práticas comuns quanto implica em assunções não explícitas que podem levar a vários modos de aplicação diferentes. A proposta aqui será a de investigar como essas assunções estão na base de dois momentos distintos no AE.

 

1.º Momento

Mensurabilismo

Para gerar o maior bem possível o altruísmo eficaz, em um primeiro momento, assumiu o que podemos chamar de mensurabilismo. A proposta foi de identificar as maiores causas de sofrimento no mundo. Em seguida, identificar quais dessas causas têm uma solução mais simples e são mais passíveis de serem escalonadas mas que, ainda assim, são negligenciadas.

A diferença em relação ao modo normal de como se escolhe uma intervenção ou instituição para contribuir seria partir de uma posição neutra. A escolha de qual intervenção, em qual lugar e em qual população seria guiada por uma análise quantitativa e científica rigorosa e não por preferência pessoais. Assim, avaliadoras de projetos humanitários como a Givewell e centros científicos de pesquisa sobre a pobreza como a Evidence Action, serviram de base para recolher informações.

Nesse modo de operar foram identificados problemas presentes no estado de mundo atual como a desnutrição, malária, contaminações com vermes, doenças tropicais negligenciadas e coisas parecidas. A maioria delas relacionadas com a situação de pobreza extrema e intervenções no campo da saúde.

Projetos que aplicam soluções simples e que tinham espaço para crescer foram identificados. Por exemplo, a SCI (Schistosomiasis Control Initiative) no combate a doenças provocadas por parasitas aquáticos, a AMF (The Against Malaria Foundation) distribuindo mosquiteiros anti-malária e os comprimidos anti-vermes da DWI (Deworm The World Iniciative). Por poucos dólares todas estas soluções podem melhorar em muito a vida de um grande número de pessoas.

Quem recebe

Note que o favorecer os menos privilegiados não é um princípio, mas apenas um resultado de se tentar gerar o maior bem. Devemos ajudar quem está na pior situação, não porque estão na pior, mas porque é assim que se gera o maior bem. Por exemplo, em um mundo com poucas pessoas em condições muito ruins, e em que fosse extremamente difícil de ajudá-los, não seria o caso que esses fossem os beneficiários da ajuda.

Quem doa

Do ponto de vista de quem doa, o movimento ganhou muita exposição na mídia ao retratar jovens que dedicavam sua vida a fazer o maior bem de maneira radical. A manchete mais explorada ficou conhecida como o ‘ganhar para doar’. Aqui, a defesa seria que o melhor meio de fazer o maior bem seria encontrar um emprego que lhe pague o máximo e doar o máximo do seu salário para uma das causas acima.

Críticas ao mensurabilismo

As principais críticas ao movimento foram que o critério quantitativo acaba selecionando causas que são fáceis de mensurar, mas que, não seriam necessariamente as que causam maior impacto. Relacionado a isso veio a crítica de que o AE negligencia a necessidade de mudanças sistêmicas. Essas seriam a verdadeira causa dos males dos quais as intervenções propostas tratariam apenas os sintomas.

Transição

Um modo de ver a crítica ao mensurabilismo é o fato de ignorar que os tratamentos de sintomas permanecerão sendo requeridos ao longo do tempo ao passo que a mudança sistêmica pode corrigir o problema de uma vez por todas. Isso se aplica ao princípio de fazer o maior bem. Por exemplo, se o tratamento de males acaba com o sofrimento de n pessoas em uma geração, uma mudança que acabe com os males em questão por, digamos, três gerações, vai acabar com o sofrimento de 3n pessoas.

(É claro que pode ser o caso de que tratar os males em uma geração tenha repercussões nas gerações subsequentes. Por exemplo, Jeffrey Sachs teria provado que a correlação entre a presença da malária e a pobreza seria uma questão de causa e consequência. Por outro lado, nem sempre isso acontece com intervenções similares. Em um exemplo recente, parece que a transferência incondicional de dinheiro acaba com muito do sofrimento presente, mas falha em gerar mudanças duradouras.)

Mas o importante aqui é que o AE parece ter aceitado a crítica sem abrir mão de sua postura mensurabilista. O que eles fizeram foi considerar no cálculo de bem-estar não apenas algumas gerações futuras mas TODAS elas.

 

2.º Momento

Longo-termismo

O segundo momento do altruísmo eficaz é auto-denominado de longo-termismo. Como foi adiantado, ele se caracteriza por considerar não só o estado atual da humanidade, ou tampouco algumas gerações futuras, mas sim pensar no longo-termo com um prazo quase ilimitado. Ao se considerar esse âmbito face aos beneficiários os resultados de aumentar o maior bem mudam muito.

Uma primeira diferença seria que a pergunta deixaria de ser ‘o que é que causa mais sofrimento agora?’, e passaria a ser ‘o que é que causará mais sofrimento devido às condições em que o mundo se encontra agora?’. Porém, algo peculiar ocorre quando se inclui não só algumas gerações adiante, mas sim um número ilimitado. O foco deixa de ser o sofrimento e passa a ser a extinção, já que nesse cenário, quanto mais prolongada for a existência dos seres humanos maior será a soma do bem.

Essa mudança conduz a um tipo de intervenção muito diferente do mensurabilismo. Atualmente, o tipo de intervenções mais citadas pelas figuras intelectuais mais influentes do movimento, como Toby Ord e William Macaskill, são o risco de epidemias, a mudança climática e os problemas e promessas da bio-engenharia e da inteligência artificial. Essas também passaram a ser o foco de pesquisa das organizações ligadas ao movimento como o Future of Humanity Institute (Instituto para o Futuro da Humanidade) ou o Center for Effective Altruism (Centro para Altruísmo Eficaz).

A GiveWell, mais uma vez, foi importante nessa mudança. Eles mantiveram a avaliação de ONGs, mas passaram a investir mais dinheiro em uma nova organização, a Open Philantropy, cuja proposta é se dedicar a encontrar e implementar mudanças para melhorar a humanidade. As causas que eles se concentram, grosso modo, são as mesmas que as citadas acima.

Doadores e beneficiários

A postura em relação aos doadores acompanhou a mudança. A 80,000 Hours deixou de aconselhar o ‘ganhar para doar’ como uma das melhores opções. O maior incentivo agora é recrutar jovens talentosos para se dedicarem às áreas indicadas acima. No caso dos beneficiários, a mudança é ainda mais significativa. Afinal de contas, a diferença não se trata apenas de serem indivíduos localizados no futuro. Além disso, uma vez que o foco é a preservação da espécie humana, também deixou de ser o caso que o alvo sejam aqueles que estão em piores condições.

Críticas

Acho que a principal crítica a esse tipo de postura é que ela dá margem para que os interesses dos que estão em piores condições agora, mais uma vez, acabem negligenciados. Para fazer que os interesses deles contem no longo-termismo seria necessário que o sofrimento deles apresentasse uma das ameaças pela extinção da civilização humana. Outra opção, menos pessimista, é que ao dar-lhes oportunidades podemos encontrar indivíduos que terão ideias que poderão salvar o mundo das ameaças identificadas acima. De qualquer maneira, ainda me parece que a posição inicial do movimento continua sendo uma opção forte. Felizmente, organizações como a The Life You Can Save mantêm-se fiéis a essas ideias.

Conclusão

Neste momento as duas posições coexistem no movimento. Elas não são contraditórias, mas optar por uma retira foco da outra, como aconteceu no caso da GiveWell x Open Philantropy ou da Giving What We Can (que perdeu protagonismo). Se fosse para sugerir, eu defenderia uma solução prudencial. Deve se manter os preceitos originais de que todo ser humano em condições de o fazer, deve doar para causas causas facilmente identificáveis que melhorem a vida daqueles que estão sofrendo no presente e futuro próximo. Isso se aplicaria inclusive aos que optarem por se dedicar a impedir as causas que podem levar à extinção da humanidade.

*Sofrimento animal

Para fazer um mapeamento completo, durante o segundo momento do AE seria preciso citar uma outra bifurcação. Uma parte significativa dos AEs não considera apenas o sofrimento humano, mas também todo tipo de sofrimento de qualquer tipo de ser senciente. A partir disso, cresceu o número de projetos que mudam o modo como tratamos os animais. Infelizmente tratar disso alongaria demais a discussão, mas aqui no site temos vários textos que abordam o tema.

Finalmente

A questão é complexa. Eu gostaria de pensar e discutir mais sobre ela. A analogia de Ana e Jorge acima pode ajudar nessa tarefa. Meu problema maior com o longo-termismo é que ele parece permitir que se encontre um modo sustentável de sociedade e, no entanto, ainda permitir que grandes injustiças sejam cometidas contra uma parcela da população mundial. É o caso de Jorge ficar negligenciado no futuro enquanto Ana se preocupa com a sua família. Gerações futuras devem ser consideradas, mas algum tipo de prioritarismo deve garantir que uma parcela significativa dos recursos seja utilizada para evitar o sofrimento dessa parte significativa da humanidade que está sendo negligenciada neste momento. Acredito que a progressão para um futuro melhor deve passar por essa via.


Texto de Celso Vieira.

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