O “altruísmo eficaz” poderá maximizar o impacto de cada dólar na caridade?

The Economist

 

Um movimento social em crescimento está a tentar trazer rigor científico à filantropia

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O altruísmo eficaz poderá maximizar o dinheiro da caridade? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Aqueles que doam a instituições de caridade raramente fazem o tipo de cálculo de custo-benefício que os investidores, por exemplo, considerariam obrigatório. Por isso, as instituições de caridade atraem doações com fotografias de crianças de sorriso desdentado, em vez de registos de cálculos que mostrem como realmente gastam o seu dinheiro. Falar ao coração, no entanto, pouco contribui para dissipar as dúvidas dos economistas cépticos sobre a eficácia da caridade. Quem sabe se doar a um abrigo para pessoas que vivem na rua é dinheiro melhor empregue do que doar a uma escola?

No entanto, os avanços na ciência social, particularmente na economia do desenvolvimento, significam que os doadores agora podem ter uma ideia razoavelmente boa daquilo que poderá render cada dólar. Os benfeitores com motivações empíricas, membros do recente movimento de “altruísmo eficaz”, argumentam que é finalmente possível pôr em prática um “axioma fundamental” do utilitarismo, invocado pela primeira vez em 1776 por Jeremy Bentham, um filósofo britânico: “a felicidade do maior número é a medida do certo e do errado”.

A larga maioria das contribuições para a caridade não vem de grandes fundações, mas sim de indivíduos. Dados da Fundação Giving USA, uma organização sem fins lucrativos, mostram que dos 390 mil milhões [Br. 390 bilhões] de dólares que os americanos doaram à caridade em 2016, 280 mil milhões [Br. 280 bilhões] vieram de doadores individuais. Destes, cerca de 120 mil milhões [Br. 120 bilhões] de dólares foram para organizações religiosas e 60 mil milhões [Br. 60 bilhões] para instituições de ensino (principalmente universidades).

Nem todo esse dinheiro foi doado com a intenção de maximizar o bem-estar humano. Tomemos, por exemplo, a Fundação Make-A-Wish, que ajuda crianças afectadas por doenças potencialmente fatais, concedendo “desejos”, tais como conhecer celebridades ou visitar parques temáticos. Cumprir o desejo típico custa à fundação à volta de 10 mil dólares — reconfortante para o destinatário, mas de pouca ajuda na melhoria da saúde em geral. No entanto, algumas instituições de caridade, especialmente aquelas activas nos países pobres, podem produzir grandes benefícios públicos por quantias de dinheiro relativamente pequenas. Uma estimativa descobriu que a cirurgia que previne a cegueira induzida pelo tracoma, uma doença infecciosa, custa apenas 100 dólares por operação.

William MacAskill, um filósofo da Universidade de Oxford, argumenta que a promoção de instituições de caridade ineficientes pode realmente fazer mais mal do que bem. A competição por doações é intensa. Uma pesquisa do Center for Effective Altruism, um grupo de reflexão por si co-fundado, considera que cada dólar angariado por uma instituição de caridade significa meio dólar a menos para as outras. O Sr. MacAskill também se preocupa com o “licenciamento moral”. Um estudo descobriu que as pessoas tendem a tratar as doações à caridade como a compra de indulgências medievais — poderão acreditar que têm o direito de agir imoralmente caso façam algo que considerem altruísta.

No entanto, medir a eficiência de uma instituição de caridade não é simples. A avaliadora mais citada do altruísmo eficaz é a GiveWell, um grupo sem fins lucrativos sediado em São Francisco, fundado em 2007 por Holden Karnofsky e Elie Hassenfeld, dois ex-analistas de fundos de investimento. Tradicionalmente, as instituições de caridade costumavam ser classificadas de acordo com as suas despesas gerais. Em vez disso, a GiveWell calcula o padrão de retorno económico do investimento nas instituições de caridade, tal como é medido por factores como o custo por vida salva (ver gráfico). As instituições de caridade que classifica como melhores não têm todas nomes familiares.

GiveWell-Gráfico

Arte digital José Oliveira (a partir do gráfico do Economist)

Toby Ord, outro filósofo de Oxford, argumenta que as pessoas dos países ricos que estejam interessadas em maximizar o bem-estar humano, devem concentrar a sua caridade no estrangeiro. Um doador que queira, por exemplo, melhorar os resultados educacionais, faria melhor em doar, não a escolas americanas, mas a instituições de caridade que tentam melhorar a dieta de crianças em países mais pobres. Uma meta-análise preliminar da GiveWell descobriu que, num país pobre, garantir que as crianças tenham iodo suficiente nas suas dietas, pode levar a um aumento de quatro pontos no QI médio.

Uma das instituições de caridade classificada pela GiveWell como sendo das melhores é a Against Malaria Foundation (AMF), que distribui nos países pobres mosquiteiros tratados medicamente. A malária ainda mata cerca de 400 000 por ano, principalmente na África Subsariana. Ainda não há cura para esta doença transmitida por mosquitos. Mas é relativamente fácil evitar a sua disseminação. A AMF estima que comprar e distribuir uma rede mosquiteira tratada custa 5 dólares. De acordo com a análise da GiveWell, esses benefícios para a saúde na África Subsariana são equivalentes à vida de uma criança salva por cada 2 mil dólares gastos.

A abordagem da GiveWell quanto à avaliação tem as suas limitações. É difícil fazer comparações, como entre coisas idênticas, face à eficácia de diferentes instituições de caridade com objectivos diferentes. Uma abordagem alternativa é simplesmente dar dinheiro às pessoas pobres. A proliferação de programas de pagamento por via telefónica tornou isso mais fácil do que nunca. A GiveDirectly, uma instituição de caridade fundada por um grupo de economistas do desenvolvimento em 2008, providencia transferências directas para pessoas no Quénia e no Uganda. O Sr. Hassenfeld compara a organização a um índice — serve como padrão de referência com o qual as outras instituições de caridade podem ser comparadas. A GiveWell considera que, para que uma instituição de caridade seja mais eficiente em termos de custos do que a GiveDirectly, deveria fornecer bens ou serviços que as pessoas não pudessem comprar por conta própria.

Inevitavelmente, até mesmo os altruístas eficazes têm que aceitar um grau de incerteza sobre o impacto da sua doação. A questão é em que medida? A GiveWell é relativamente conservadora quando se trata de recomendar instituições de caridade, registando apenas nove organizações na sua lista das “melhores instituições de caridade”. O Open Philanthropy Project, um grupo de pesquisa formado a partir da GiveWell, está mais disposto a apoiar empreendimentos com apenas uma pequena hipótese de sucesso, desde que os benefícios potenciais sejam suficientemente grandes. Um exemplo extremo é a recomendação de que os doadores financiem pesquisas sobre o uso seguro da inteligência artificial (IA). A crescente importância económica da IA, e o facto de ser tão mal compreendida, levou muitos altruístas a acreditar que esta poderá tornar-se em breve numa das maiores ameaças à sociedade.

É difícil avaliar como tem crescido o movimento de altruísmo eficaz. Mas tem tido alguns apoios sérios. A Good Ventures, um grupo sem fins lucrativos fundado por Dustin Moskovitz, co-fundador do Facebook, e a sua esposa, Cari Tuna, fazem doações baseadas quase exclusivamente nas recomendações do Open Philanthropy Project. Não aceitam doações externas, mas dedicam-se a gastar a fortuna de Moskovitz e Tuna, que a Forbes estima ser 15 mil milhões [Br. 15 bilhões] de dólares. No ano passado, a Good Ventures distribuiu mais de 300 milhões de dólares em doações.

Os altruístas eficazes temem que o seu movimento possa, de facto, ter um apelo muito limitado. Autómatos que maximizem o princípio da utilidade podem ver o sentido de comprar mosquiteiros na Internet para estranhos distantes. Os seres humanos podem achar que, por exemplo, ser voluntário na distribuição local de refeições é mais satisfatório emocionalmente. Ari Kagan, pesquisador do Center for Advanced Hindsight, um grupo de reflexão da Duke University, salienta que muitas pessoas acham repugnante a ideia de aplicar o raciocínio quantitativo ao altruísmo — assim como cobrar aos membros da família por uma refeição. Pesquisas mostram que, embora o movimento de altruísmo eficaz tenha crescido rapidamente, tal aconteceu principalmente dentro de um grupo limitado de pessoas — isto é, jovens brancos com formação em ciência e filosofia.

O altruísmo eficaz pode ser difícil de promover, mesmo para os de espírito mais racional. As pessoas típicas do Vale do Silício estão mais inclinadas a adoptar esta filosofia do que aquelas que trabalham em Wall Street, por exemplo. O Sr. Hassenfeld acredita que isso se deve em parte ao facto de que os programadores que enriquecem, tendem a fazê-lo ainda jovens e, portanto, têm uma mente mais aberta em relação à caridade. Os banqueiros, em contraste, começam realmente a ganhar dinheiro apenas na faixa dos 40 anos, numa altura em que já poderão ter formado os seus hábitos de caridade. Com muitos potenciais doadores, diz o Sr. Hassenfeld, “é fácil conseguir um acordo intelectual, mas é mais difícil conseguir acção.” Como os utilitaristas há muito descobriram, e o próprio Bentham lamentou, “a mais rara de todas as qualidades humanas é a consistência.”


Texto publicado originalmente no The Economist a 2 de Junho de 2018.

Tradução de José Oliveira e revisão de Daniel de Bortoli.  

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