Ética populacional

Por Celso Vieira

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Demasiadas pessoas no mundo? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Ética populacional é o estudo das questões éticas tomando por unidade não o indivíduo mas sim uma ou mais populações. Essa abordagem se justifica pelo fato de que, muitas vezes, a mudança da perspectiva individual para a populacional leva a questões, problemas e conclusões diferentes. Por exemplo, é uma perspectiva populacional que justifica que certas vacinas sejam obrigatórias. Isso porque um hospedeiro para uma doença apresenta um risco para toda a população, incluindo as gerações futuras.

As questões que se apresentam na perspectiva da ética populacional têm grande importância prática no caso de decisões de larga escala, seja para políticas públicas e, principalmente, ao se considerar problemas relativos a gerações futuras. Atualmente, o exemplo mais relevante parece ser a questão do aquecimento global. Além disso, também a questão da pobreza em um nível nacional ou global pode ser abordada do ponto de vista populacional. Todos essas questões figuram na lista de interesses do Altruísmo Eficaz. Na sequência, vamos apresentar as duas abordagens centrais da ética populacional relativas ao bem-estar de uma população.

Utilitarismo total e o paradoxo da mera adição

Uma opção de lidar com a ética populacional é pensar a partir de uma soma simples do bem-estar total da população. Assim, o bem-estar de uma população é a soma do bem-estar de cada indivíduo. No entanto, isso leva ao paradoxo da ‘mera adição’ (identificado por Parfit e também conhecido como a conclusão repugnante). O problema é que uma soma de milhares de pessoas com um nível de bem-estar medíocre (minimamente positivo) gera um resultado total maior do que a soma de um número consideravelmente menor de pessoas com um nível de bem-estar alto. No entanto, intuitivamente não vemos como positivo um cenário composto por milhares de vidas que quase não valem a pena ser vividas.

Vamos a um exemplo baseado em dados reais. O IDH (índice de desenvolvimento humano) da Noruega é 0.953 enquanto o da Indonésia é de 0.694. Porém, como a Indonésia é bem mais populosa do que a Noruega (~265 milhões vs. ~5.2 milhões), se segue que ao somarmos cada indivíduo a Indonésia produz mais bem-estar do que a Noruega (183.91 vs. 4.95). No entanto, é contraintuitivo que um mundo superpopuloso com vidas medíocres seja melhor do que um mundo pouco populoso com vidas plenas.

Se não quisermos abandonar o bem-estar total temos duas alternativas. Há filósofos como Huemer que aceitam a conclusão repugnante e defendem que nossa intuição está errada nesse caso. Porém, é difícil de aceitar que um futuro com o máximo de pessoas com vidas medíocres seja algo que devamos ensejar.

Uma segunda alternativa é negar que se trata de uma mera adição. O que foi chamado de maneira vaga de vidas medíocres e o seu oposto positivo (as vidas plenas) seriam duas coisas diferentes, de modo que não importa o quanto de vidas medíocres se some, nunca se comparará a uma vida plena. É claro que o passo seguinte é apresentar um bom critério de definição dessas unidades diferentes, mas isso está além da proposta desse texto.

Utilitarismo médio

Outra maneira popular de se evitar a conclusão repugnante é lidar com o a média obtida pelo bem-estar de cada um. Trata-se do utilitarismo médio, e é basicamente o que o IDH mede (sem o passo fictício da multiplicação por cada indivíduo adicionado acima). Porém, essa abordagem também traz problemas. Isso porque dessa perspectiva faz sentido eliminar as pessoas com menos bem-estar para elevar a média. Poderia se evitar isso apelando para princípios que proíbem eliminar vidas, como a santidade da vida. Porém, o lado positivo também se mostra problemático.

Se você tem uma população com a média de bem-estar bem baixa e adiciona um indivíduo com um nível imensamente maior do que os outros ele vai influenciar a média do bem-estar de toda a população. Porém, nós não consideramos que se o Bill Gates mudar para a Indonésia (por si só) melhoraria a vida das outras pessoas. É para evitar isso que os economistas desenvolveram o IDHD (índice de desenvolvimento humano corrigindo a desigualdade), onde a variável da desigualdade de uma população é adicionada.

Uma solução plural

Houve tentativas de encontrar uma posição que una o utilitarismo total com o utilitarismo de média, porém, nenhuma se provou satisfatória.

O utilitarismo total lida bem com o negativo, vidas miseráveis nunca influenciarão positivamente no bem-estar da população. Por outro lado, essa posição não se dá bem com o minimamente positivo pelo fato de que somar uma grande quantidade de indivíduos geraria um cenário em que milhares de vidas um pouco melhores do que o miserável seria positivo. Já o utilitarismo de média escapa do problema dessa soma de vidas quase miseráveis ao tomar como unidade a média do bem-estar e não indivíduos. Porém, ele não lida bem com o negativo, pois um número restrito de vidas miseráveis não vai interferir na média. Por isso também o utilitarismo de média lida mal com a desigualdade, pois valoriza um cenário em que as vidas boas têm maior importância para o bem-estar da população. Por fim, há o problema do grande número de pessoas que, nesse caso, também reduz a média do bem-estar.

Assim, a questão de como devemos pensar a ética populacional (principalmente relacionada às futuras gerações) permanece em aberto.

Cenários conectados

Há também um cenário ainda carente de exploração na reflexão filosófica da ética populacional. É o caso em que o bem-estar das populações estaria conectado. Para começar a pensar a questão podemos vislumbrar alguns cenários a partir do caso básico de uma sociedade com duas populações: A contém os indivíduos que vivem bem e B os que vivem mal. Assim, podemos ter:

Conexão positiva: Nesse caso, se A melhora, B melhora.

Conexão inversamente proporcional: Se B piora, A melhora. Se há uma tendência de aumento de desigualdade, essa seria a relação.

Conexão inversamente proporcional 2: Se B melhora, A piora. É o caso em que os critérios para se medir o bem-estar tenham que ser retirados de uns e redistribuídos a outros.

Temos também casos mais complexos:

Conexões dependentes da quantidade:

Se A melhora, B melhora, mas se B melhora muito até ficar igual a A, A piora.

Se A melhora, B melhora, mas chega um ponto em que A e B pioram. Esse seria um cenário em que a melhoria de bem-estar de todos é ecologicamente insustentável.

É fácil ver que esses tipos de interações parecem ocorrer em vários contextos no mundo atual. Uma reflexão mais pormenorizada das propriedades dessas relações, suas consequências e o que deve ser almejado e evitado, com certeza, seria muito importante para qualquer um interessado em pensar e planejar o melhor futuro possível para a humanidade e outras populações de seres sencientes. Para tanto, a perspectiva populacional é incontornável. Infelizmente esse ainda é um trabalho a ser feito. Atualmente não há ninguém que leve isso mais a sério do que a comunidade do altruísmo eficaz. Destacava, por exemplo, o trabalho da professora Greaves do Global Priorities Institute.


Texto de Celso Vieira.

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