Algumas considerações cruciais sobre o Sofrimento de Animais Selvagens

Por Ozy Brennan (Wild-Animal Suffering Research)

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E o sofrimento dos animais selvagens? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Uma “consideração crucial” — um termo inventado por Nick Bostrom — é um elemento de prova que muda radicalmente o valor da busca de uma determinada intervenção ou área de interesse. Por exemplo, se um determinado tipo de tecnologia é cientificamente impossível, afinal não será muito eficaz procurar desenvolvê-la; se os animais não forem pacientes morais, então não faz sentido advogar contra a pecuária industrial. Como se sabe tão pouco sobre a melhor maneira de buscar o bem-estar dos animais selvagens, há muitas considerações cruciais, e ter opiniões diferentes sobre elas pode mudar radicalmente as intervenções que se apoia e quão custo-eficazes elas serão. Este é um resumo de algumas considerações cruciais sobre as quais os altruístas eficazes discordam bastante, mas não se tenta advogar por qualquer visão particular ou resolvê-las. (Isso levaria muito mais do que um único post de blog.)

Apoiamos os direitos dos animais, o bem-estar animal ou a responsabilidade humana pelos animais domésticos?

Entre a comunidade de ativismo animal, existem várias filosofias diferentes sobre como devemos tratar os animais. Defensores dos direitos dos animais, como Tom Regan, argumentam que os animais têm o direito de viver livres da exploração, do tipo da pesquisa médica ou da agricultura. Os defensores do bem-estar animal, como Peter Singer, argumentam que muitas das formas como tratamos os animais causam-lhes grande sofrimento e nos proporcionam benefícios relativamente triviais. Como é errado causar sofrimento a determinado ser, exceto para evitar um sofrimento maior, devemos parar de maltratar os animais. Outros ainda argumentam que temos um dever específico para com os animais domésticos, porque os domesticamos e o modo como os animais são usados na pecuária está negligenciando essa responsabilidade. Discutirei as implicações dessas visões para o bem-estar dos animais selvagens em posts posteriores, mas basta dizer que todas as três visões têm implicações diferentes sobre como devemos tratar os animais selvagens.

Que ética populacional subscrevemos?

A ética populacional é o estudo ético de questões relacionadas com a criação de seres e causar o fim da existência de seres. A ética populacional examina questões como:

  • É melhor criar um pequeno número de pessoas muito felizes ou um grande número de pessoas ligeiramente felizes?
  • É errado deixar de criar um ser feliz ou criar um ser previsivelmente infeliz?
  • É possível fazer mal a pessoas que ainda não existem (por exemplo, poluindo a Terra)?
  • Não criar um ser é diferente de matá-lo? Se sim, porquê?

Muitas das maneiras pelas quais os seres humanos afetam a natureza, afetam também o número de animais que existem, não apenas o bem-estar dos animais que existem. Por exemplo, às vezes os seres humanos destroem os habitats que sustentam muitos animais e os substituem por habitats que não suportam muitos animais. Às vezes os seres humanos tentam reduzir as populações de certas espécies, como ratos e veados. Muitas das potenciais intervenções no sofrimento de animais selvagens, como a contracepção na vida selvagem, impedem muitos animais de existirem. Infelizmente, para os defensores do bem-estar de animais selvagens, no entanto, não há consenso filosófico sobre a ética populacional, e a maioria dos sistemas de ética populacional viola algumas de nossas intuições morais.

Os invertebrados são pacientes morais?

Existe uma magnitude muito maior de invertebrados do que de vertebrados no mundo. Mesmo que os invertebrados tivessem um pequeno peso moral, os efeitos de nossas ações sobre estes são muito importantes. Infelizmente, os invertebrados geralmente têm milhares de descendentes. Para manter uma população estável, podem sobreviver apenas dois de seus descendentes para se reproduzir; prevendo-se que os restantes vivam vidas curtas potencialmente cheias de dores terríveis. Como há tantos invertebrados e muitos deles são tão pequenos, é difícil melhorar suas vidas de qualquer outra forma que não seja impedi-los de existir.

A biodiversidade é importante?

Muitas pessoas argumentam que proteger a biodiversidade melhora o bem-estar humano. Os serviços prestados pelos ecossistemas intactos – desde a madeira até à regulação do clima, da formação do solo aos benefícios espirituais – foram avaliados em dezenas de trilhões de dólares por ano [Pt. dezenas de biliões]. Muitas pessoas também acreditam que a biodiversidade é intrinsecamente valiosa por si mesma. Certas intervenções propostas para promover o bem-estar dos animais selvagens, como a destruição de habitats, reduzem o nível de biodiversidade. Pesquisas futuras podem descobrir que outras formas promissoras de promover o bem-estar dos animais selvagens têm um efeito sobre a biodiversidade, e se nos preocupamos com a biodiversidade (instrumental ou intrinsecamente) isso afetará nossa tomada de decisão sobre as intervenções.

Quão imprevisível é a natureza?

A natureza é complicada e muitas decisões têm conseqüências inesperadas. Já vimos isso quando interagimos com a natureza para benefício humano. Após alguns anos de inesperado mau tempo, uma pescaria que se acreditava ser pescada de forma sustentável pode entrar em colapso. O escoamento de fertilizantes das fazendas pode causar o crescimento de mais algas, o que aumenta a densidade dos moluscos, que são um hospedeiro intermediário para uma espécie de parasitas de rã, o que causa maiores cargas de parasitas nas rãs. Se a natureza é suficientemente imprevisível, pode ser muito difícil chegar a uma intervenção que, com toda a certeza, tenha um efeito positivo. Por outro lado, os seres humanos fazem muitas previsões precisas sobre a natureza: se não pudéssemos fazê-lo, seria impossível saber que a destruição do habitat torna as espécies mais propensas a ficarem em perigo, ou que a mudança climática prejudica os ecossistemas. Pode ser possível fazer previsões suficientemente confiáveis sobre como nossas ações também afetam o bem-estar dos animais selvagens.

Quão comum é o estresse crônico na natureza?

O estresse crônico acontece quando um animal experimenta um fator de estresse, como baixo status social ou fome, por um longo período de tempo; nos seres humanos está ligado não apenas à ansiedade e à depressão, mas a condições de saúde física, como doenças cardíacas. Os especialistas discordam bastante sobre o quão comum é o estresse crônico na natureza. Alguns especialistas, como Oscar Horta, argumentam que a predação e outros fatores de estresse tornam o estresse crônico muito comum. Outros especialistas, como Robert Sapolsky, afirmam que o estresse crônico é basicamente desconhecido na natureza. Ainda outros especialistas, como Rudy Boonstra, dizem que o estresse crônico aparece apenas em certas espécies nas quais é adaptativo. Se a maioria dos animais selvagens experimenta uma grande quantidade de estresse crônico, é mais provável que suas vidas não valham a pena serem vividas. Por outro lado, se os animais selvagens experimentam muito menos estresse crônico do que os seres humanos, suas vidas podem ser mais agradáveis do que as nossas.

Quão ruim é morrer?

Muitas mortes na natureza são bastante horripilantes, variando entre animais que são comidos vivos por predadores a cupins [Pt. térmitas] que vomitam suas entranhas face a predadores. Mas quão dolorosas são essas mortes? É possível que a morte por fome, por exemplo, seja menos dolorosa do que poderíamos ingenuamente acreditar. Por outro lado, se a morte é extraordinariamente dolorosa, a morte em si pode fazer com que a vida de um animal não valha a pena ser vivida, exceto se, fora isso, o animal fosse muito feliz. Isso é particularmente verdadeiro para espécies de vida curta, que têm menos experiências positivas para compensar o custo de uma morte horrível.

Como contabilizar a alavancagem?

Muitas instituições de caridade buscam influenciar o modo como outras instituições de caridade, doadores privados ou o governo, gastam dinheiro ou outros recursos; a avaliadora de instituições de caridade, GiveWell, chama isso de alavancagem. Várias das intervenções mais promissoras no sofrimento de animais selvagens – incluindo o incentivo ao uso da contracepção na vida selvagem, difundir a preocupação com os animais selvagens e cultivar o campo da biologia do bem-estar – são intervenções de alta alavancagem. Dependendo de como se contabiliza o custo de oportunidade, essas intervenções podem ser muito custo-eficazes ou não muito custo-eficazes.


Texto publicado originalmente por Ozy Brennan no blog da Wild-Animal Suffering Research, a 3 de maio de 2018

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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