Estas são as instituições de caridade onde seu dinheiro vai fazer o maior bem

Por Dylan Matthews (Vox)

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Caridade, como fazer o maior bem? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Você pode salvar vidas com suas doações. Veja aqui como.

Fazer doações à caridade é ótimo — inclusive na Giving Tuesday [Terça-feira das doações], 27 de novembro! — não apenas para os beneficiários, mas também para os próprios doadores.

No entanto, saber decidir qual é a melhor instituição de caridade pode ser intimidante, especialmente quando existem milhares de causas dignas entre as quais se pode escolher. Aqui estão algumas dicas simples que podem ajudar.

1) Verifique quem faz recomendações de instituições de caridade

Obviamente, é possível pesquisar por conta própria as opções de caridade, mas é provavelmente melhor delegar esse trabalho para uma instituição cuidadosa e metodologicamente rigorosa como a GiveWell (a Charity Navigator e a Guidestar também podem ser recursos úteis, mas elas não tentam hierarquizar as instituições de caridade nem avaliar quais fazem o maior bem pelo menor custo).

A GiveWell atualmente lista oito das melhores instituições de caridade:

  • Malaria Consortium, que ajuda a distribuir medicamentos preventivos antimalária para crianças (um programa conhecido como “quimioprevenção sazonal da malária”).
  • Schistosomiasis Control Initiative (SCI), Deworm the World Initiative da Evidence Action, END Fund e Sightsavers, que trabalham em programas de desparasitação para prevenir infecções parasitárias.
  • Helen Keller International, que presta assistência técnica, defende e financia programas de suplementação de vitamina A na África Subsaariana que reduzem a mortalidade infantil.
  • Against Malaria Foundation, que compra e distribui redes mosquiteiras tratadas com inseticida, principalmente na África subsaariana, mas também em Papua Nova Guiné.
  • A GiveDirectly, que distribui diretamente doações para pessoas pobres no Quênia e em Uganda, para que gastem como lhes pareça melhor.

A GiveWell escolheu essas instituições de caridade com base no benefício esperado com doações adicionais, e não necessariamente considerando a qualidade geral das organizações. Em outras palavras, essas são instituições que podem usar recursos adicionais, ao invés de deixá-los guardados.

A GiveWell pondera seriamente esse fator. Em 2013, revogou sua recomendação da Against Malaria Foundation, alegando que essa instituição não tinha gasto o suficiente do dinheiro que já tinha angariado. Em 2014, a GiveWell considerou que Against Malaria Foundation tinha novamente espaço para mais financiamento e voltou a adicioná-la à sua lista de recomendações. Portanto, pode contar que a Against Malaria Foundation e as outras instituições de caridade recomendadas gastem sua doação de forma eficaz e razoavelmente rápida.

O grupo também leva a sério pesquisas que tenham resultados negativos. Em 2017, recomendou a No Lean Season da Evidence Action, que oferece empréstimos sem juros para agricultores no Bangladesh durante a “época de escassez” entre o plantio do arroz e sua colheita; os empréstimos estão condicionados ao deslocamento temporário de um membro da família para uma cidade ou outra área para trabalho de curto prazo. Mas um estudo aleatório controlado subsequente descobriu que o programa não estimulava as pessoas a migrar nem aumentava seu rendimento, então a GiveWell e a Evidence Action concordaram que essa deveria deixar de ser considerada uma das melhores instituições de caridade; a Evidence Action parou de solicitar fundos para esse programa.

A GiveWell recomenda que, se quiser maximizar o impacto da sua doação, doe através da GiveWell para que essa distribua o dinheiro a seu critério; a GiveWell obtém informações regulares sobre quais instituições de caridade altamente eficazes precisam de mais dinheiro e quais não precisam, e pode direcionar as doações de maneira mais eficaz do que um doador individual. Mas caso não prefira doar através da GiveWell, doar diretamente para qualquer uma das oito instituições listadas anteriormente é excelente.

2) Escolha instituições de caridade com estratégias baseadas em pesquisas

As recomendações da GiveWell baseiam-se fortemente nas avaliações feitas por organizações de caridade e na literatura científica existente sobre o tipo de intervenção que as instituições de caridade estão tentando realizar.

Por exemplo, suas recomendações à SCI, à Sightsavers, ao END Fund e à Deworm the World são baseadas em pesquisas que sugerem que proporcionar às crianças tratamentos de desparasitação poderia melhorar resultados na educação e na economia, dentre outros.

Pesquisas do Poverty Action Lab do MIT sugerem que distribuir gratuitamente redes mosquiteiras tratadas com inseticidas — como faz a Against Malaria Foundation — é muito mais eficaz do que cobrar mesmo pequenas quantias por elas.

Embora o dinheiro certamente tenha seus limites, centenas de estudos descobriram que as transferências de dinheiro que a GiveDirectly distribui têm efeitos amplamente positivos.

3) Faça doações para o exterior

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As mulheres em Dedza, no Malawi, carregam redes mosquiteiras antimalária. Against Malaria Foundation

É realmente difícil expressar adequadamente quanto os países desenvolvidos, como os EUA, são mais ricos do que os países em desenvolvimento, como o Quênia, Uganda e outros países beneficiados pelas instituições de caridade mais eficazes da GiveWell. A extrema pobreza ainda existe — no sentido de ainda existir pessoas que vivem com 2 dólares por dia ou menos — mas é algo, comparativamente, bastante raro e difícil de atingir de maneira eficaz. Os americanos mais pobres também têm acesso a sistemas de saúde e educação muito superiores aos dos países em desenvolvimento. Doar a instituições de caridade no próprio país é admirável, é claro, mas se quiser obter o melhor retorno possível em termos de salvar vidas, reduzir o impacto de doenças ou melhorar o bem-estar geral, vai querer doar no exterior.

Na verdade, a GiveWell investigou várias instituições de caridade dos EUA, como o programa Nurse-Family Partnership para bebês, o grupo de escolas públicas independentes KIPP e o programa de treinamento profissional HOPE . Descobriu que todas eram altamente eficazes, mas muito mais custosas do que as melhores instituições de caridade estrangeiras. O KIPP e a Nurse-Family Partnership custam mais de 10.000 dólares por criança atendida, enquanto programas de desparasitação como o SCI e o Deworm the World geralmente custam entre 0,25 e 1 dólar por criança tratada.

Por outro lado, poderá considerar doar a seres não-humanos. Instituições de caridade para animais, particularmente aquelas envolvidas em campanhas que pressionam empresas a melhorar o tratamento de animais da pecuária, especialmente frangos, podem melhorar o bem-estar animal de maneira eficaz. As avaliações das instituições desta área são muito mais recentes e menos rigorosas metodologicamente do que as da GiveWell, mas a Animal Charity Evaluators nomeou quatro organizações para doações à causa animal que podem ser eficazes:

  • Animal Equality, que realiza investigações secretas na pecuária industrial, campanhas face às corporações para mudar práticas da indústria de alimentos e esforços de lobby para aprovar leis de proteção animal.
  • The Humane League, especializada em campanhas face às corporações para melhorar as práticas na pecuária, conseguiu grandes vitórias na eliminação do abate de filhotes de frangos e ao fazer com que empresas de serviços alimentícios como a Kroger e a Sodexo usassem somente ovos produzidos sem gaiolas, e agora está pressionando por melhores práticas quanto aos frangos de abate.
  • The Good Food Institute, que promove, como alternativa aos alimentos de origem animal, alimentos à base de plantas e de carne cultivada.
  • Albert Schweitzer Foundation, que realiza campanhas face às corporações na Alemanha e na Polônia e destaca-se pela defesa de peixes de aquicultura, bem como galinhas e mamíferos.

4) Considere as meta-instituições de caridade

Outra opção é doar a grupos como a GiveWell, Innovations for Poverty Action, The Life You Can SaveGiving What We Can e 80,000 Hours, que avaliam abordagens de desenvolvimento e instituições de caridade, além de incentivarem doações eficazes. Suponha que cada dólar doado à Giving What We Can — que incentiva as pessoas ao compromisso de doar pelo menos 10% de seu rendimento até se aposentarem — resulta em 1,20 dólares em doações para a Against Malaria Foundation. Nesse caso, deve doar à Giving What We Can até que o efeito marginal das doações à Against Malaria Foundation seja de 1 dólar ou menos.

“Se podem transformar um dólar de doações em substancialmente mais do que um dólar de doações adicionais para instituições de caridade eficazes, não será esse o melhor uso do meu dinheiro?” pergunta Jeff Kaufman, um programador que, com sua esposa, a extraordinária ativista e organizadora do altruísmo eficaz, Julia Wise, doa cerca de metade de seu rendimento para instituições e meta-instituições de caridade eficazes.

5) Salvar vidas não é tudo

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Dois Schistosoma mansoni, um dos parasitas causadores da esquistossomose (que a SCI combate). A esquistossomose não costuma ser fatal, mas pode prejudicar permanentemente o desenvolvimento e o crescimento das crianças. Stephen Davies / Uniformed Services University of the Health Sciences

Se você se preocupa apenas em reduzir a mortalidade precoce e dar às pessoas mais anos de vida, deve fazer todas as suas doações à Against Malaria Foundation, ao Malaria Consortium, ou à Helen Keller International. A malária é uma doença freqüentemente fatal, e intervenções custo-eficazes para reduzir a infecção da malária são uma ótima maneira de salvar vidas. De maneira similar, a suplementação com vitamina A, como faz a Helen Keller International, é uma maneira eficaz de reduzir a mortalidade infantil.

Mas o resto das instituições de caridade que a GiveWell recomenda não se concentra principalmente na redução da mortalidade. A qualidade de vida também é importante. As infecções parasitárias dificultam o desenvolvimento e a educação das crianças, o que pode ter consequências negativas que duram décadas. Aumentar o acesso ao dinheiro pode não prolongar a vida de um beneficiário da GiveDirectly, mas torna sua vida consideravelmente mais agradável.

6) Não doe para uma instituição de caridade grande

Notará que todas as instituições de caridade que a GiveWell recomenda são bastante pequenas e que alguns grandes nomes estão ausentes. Isso não é um acidente. Em geral, as avaliadoras da eficácia de instituição caridade são céticas em relação às grandes organizações de ajuda humanitária, por vários motivos.

As grandes organizações tendem a ser menos transparentes em relação ao destino do seu dinheiro e também mais propensas a direcionar dinheiro para esforços de socorro a desastres, que geralmente são menos custo-eficazes do que programas de saúde pública. “De modo geral, nossa impressão é que sua doação para essas organizações é muito difícil de rastrear, mas provavelmente complementará uma agenda de programas extremamente diversificada, impulsionada em grande parte por governos e outros grandes financiadores”, escreve Holden Karnofsky, co-fundador da GiveWell.

7) Considere simplesmente doar dinheiro diretamente para pessoas pobres

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A GiveDirectly usa o sistema M-PESA para transferências móveis de dinheiro. GiveDirectly

Uma das principais instituições de caridade que eu apoio é a GiveDirectly, que é a única causa fora da saúde pública a obter a classificação máxima da GiveWell e que, até onde saiba, é a única instituição de caridade dedicada a transferências incondicionais de dinheiro. Dôo a eles em parte porque há um grande número de pesquisas sobre os benefícios das transferências de dinheiro, o que acho bastante convincente.

Mas dôo para a GiveDirectly principalmente porque não julgo ser capaz de saber o que é que as pessoas mais pobres do mundo mais precisam. Tive muita sorte de nunca passar pelo tipo de extrema pobreza que bilhões [Pt. milhares de milhões] de pessoas em todo o mundo têm de suportar. Eu não faço a menor ideia de como gastaria uma transferência em dinheiro da GiveDirectly se vivesse com menos de 2 dólares por dia em Uganda. Compraria uma rede mosquiteira para a cama? Talvez! Ou talvez comprasse um telhado de ferro. Ou então mensalidades da escola para meus entes queridos. Ou gado.

Mas sabe quem conhece bem as necessidades das pessoas pobres em Uganda? Pessoas pobres em Uganda. Elas sabem muito bem do que eles precisam. Será que às vezes podem julgar mal suas prioridades de gastos? Certamente; isso acontece com todos nós. E as redes mosquiteiras e os tratamentos de desparasitação parecem ser pouco comprados relativamente à sua real necessidade. Mas, geralmente, só deve doar algo que não seja dinheiro se tiver certeza de que conhece melhor as necessidades dos beneficiários do que eles mesmos. Com a exceção das redes mosquiteiras — que realmente parecem ser subutilizadas quando colocadas à venda em vez de doadas de graça — não tenho confiança de que seja esse o caso. Por isso dôo dinheiro.

Como Jishnu Das, do Banco Mundial, uma vez disse: “‘Será que doar dinheiro funciona bem’ é uma questão bem definida somente se estiver disposto a dizer que ‘bem’ é algo que NÓS, doadores, queremos definir para famílias que nunca conhecemos e cujas condições de vida provavelmente nunca experimentamos por um dia, muito menos por uma vida inteira.” Se não está disposto a dizer isso, então deve considerar doar dinheiro.

8) Doe o que puder (embora se puder fazê-lo, comprometer-se a doar 10% do seu rendimento seria excelente)

Um dos problemas mais difíceis da filantropia é decidir quanto doar.

Algumas pessoas argumentam que a resposta correta é nada, a menos que esteja perto do fim da sua vida: segundo essa visão, não deve doar nada à caridade durante sua carreira e, em vez disso, deve economizar tanto dinheiro quanto possível e doar quando morrer (minha colega Kelsey Piper explica por que isso provavelmente não é uma boa abordagem).

Outra abordagem é “ganhar para doar”: ter um emprego bem remunerado, normalmente no setor financeiro ou de tecnologia, e doar uma grande parcela, como 40% a 50% de seus ganhos.

Escrevi sobre pessoas que fazem isso em 2013, e sei que muitas das pessoas que analisei ainda ganham para doar; para eles, pelo menos, essa é uma opção sustentável. É uma opção de carreira realmente boa se gosta de trabalhar em finanças e tecnologia, mas francamente não é a melhor opção para a maioria das pessoas, e há muitos trabalhos incríveis — em pesquisa científica, no setor privado, na caridade direta, em instituições sem fins lucrativos ou no governo — onde a pessoa típica pode fazer um bem maior do que poderia usando sua carreira como um mecanismo através do qual gerar dinheiro de doação.

Por isso sugiro um percurso mais moderado. Assumi o compromisso da Giving What We Can, em que os membros se comprometem a doar 10% de seu rendimento anual a instituições de caridade altamente eficazes. Esse é um número totalmente razoável, comparável ao dízimo de muitas religiões, que exige um sacrifício relativamente pequeno em relação ao que fazem as pessoas que ganham para doar.

Mesmo que 10% seja demais para si, não se desespere. Doar 1 dólar é melhor do que doar 0 dólares. Talvez o mais importante seja simplesmente entrar no ritmo de fazer doações, para torná-las um hábito. Eu uso o depósito direto nos meus cheques do salário para fazer a maior parte das minhas contribuições à caridade, para que o processo seja extremamente automático e seja difícil que evite fazê-lo. Passar de não doar a doar um pouco, regularmente, é um grande passo positivo.

Inscreva-se no boletim Future Perfect. Duas vezes por semana, receberá um conjunto de ideias e soluções para enfrentar nossos maiores desafios: melhorar a saúde pública, reduzir o sofrimento humano e animal, diminuir os riscos catastróficos e, para simplificar, tornar-se melhor a fazer o bem.


Texto de Dylan Matthews publicado originalmente na Vox, atualizado a 25 de dezembro de 2018.

Tradução de Daniel de Bortoli e revisão de José Oliveira.

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