Escalar o Monte Evereste porquê?

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Evereste

Subir o Evereste ou salvar uma vida? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Este ano, o número recorde de mortes na montanha mais alta do mundo sublinha a imoralidade de tentar chegar ao cume. Mas mesmo que se tenha a sorte de chegar ao topo sem passar por um alpinista a precisar de ajuda, ainda assim estará a escolher o seu objectivo pessoal em vez de salvar uma vida.

 

Em 1953, quando Edmund Hillary e Tenzing Norgay se tornaram as primeiras pessoas a alcançar o cume do Monte Evereste, eu tinha sete anos. Durante algum tempo, fiquei imerso nas histórias da escalada épica. Parecia uma conquista para toda a humanidade, como chegar ao Polo Sul. Questionava-me, ainda haveria fronteiras por alcançar quando eu crescesse?

Uma fotografia da vertente a sul do cume do Evereste trouxe-me de volta essas lembranças. Mas que diferente é este Evereste! O esplêndido isolamento do topo do mundo foi-se. Em vez disso, há uma longa fila de alpinistas à espera da sua vez para permanecerem brevemente no cume.

Não é difícil ver porquê. Como anuncia a empresa de expedição Seven Summit Treks: “Se deseja experimentar como é estar no ponto mais alto do planeta e tem um sólido suporte económico para compensar a sua velhice e o seu medo de riscos, pode inscrever-se no Serviço VVIP de Expedição ao Monte Evereste”. Você precisa do “forte suporte económico”, pois isso custará 130 000 dólares. Existem maneiras menos caras de escalar o Evereste, mas todas começam com a taxa de 11 000 dólares que o governo Nepalês cobra por uma autorização.

Não devemos opor-nos ao governo de um país de baixos rendimentos que procura ter lucros com alpinistas ricos estrangeiros. Mas mesmo com o melhor apoio que o dinheiro possa comprar, no ar rarefeito acima de 8000 metros, as pessoas morrem – 12 somente em 2019. Ainda há, pelo menos, 200 corpos na montanha, alguns em fendas, outros enterrados por avalanches. Outros ainda foram descritos como “marcos familiares na rota para o cume do Evereste”.

Costumava-se ter como certo que, se um alpinista estivesse em perigo, os outros ajudariam, mesmo que isso significasse abandonar os seus próprios planos. Isso já não é assim. Em 2006, foi relatado que David Sharp, que escolhera escalar o Evereste sem o apoio de um sherpa, congelou lentamente até à morte, enquanto cerca de 40 alpinistas passaram por ele a caminho do cume. Edmund Hillary achou aquilo “horrível”. Relatos posteriores sugeriram que a maioria dos 40 não se apercebeu de Sharp ou não percebeu que ele precisava de ajuda. Mas alguns alpinistas, como o australiano Brad Horn, têm sido bastante explícitos ao dizer que estão na montanha apenas para chegar ao topo, e não param para ajudar mais ninguém até atingirem esse objectivo.

Usei o exemplo de salvar uma criança a afogar-se num lago raso para explorar questões sobre a nossa obrigação de salvar a vida de estranhos. Quando pergunto aos meus alunos se eles entrariam num lago raso para salvar uma criança a afogar-se, mesmo que isso estragasse o seu par de sapatos favorito e mais caro, eles dizem-me que não se pode comparar a vida de uma criança com uma par de sapatos, por isso é claro que eles salvariam a criança. E se a única maneira de salvar uma criança de ser atropelada e morta por um comboio desgovernado é desviá-lo para os carris ao lado onde destruirá a sua posse mais preciosa, um Bugatti clássico, no qual gastou a maior parte das suas economias? Não importa, a maioria ainda diz: devemos salvar a criança.

Se isso está certo, então porque é que escalar o Evereste nos permite evitar salvar a vida de um colega alpinista? Será porque, como Horn diz ao defender a sua atitude, “Todos conhecem os riscos”? Isso pode ser verdade, mas, como Immanuel Kant argumentou, a nossa obrigação de ajudar estranhos é fundamentada no nosso próprio desejo de ser ajudado quando necessitarmos. Portanto, não podemos desejar, como lei universal, que as pessoas ignorem ao passar por estranhos necessitados. Seria necessário que Horn respondesse que, se precisasse ser salvo, seria justificável que os outros alpinistas o deixassem morrer ao dirigirem-se para o cume.

De qualquer forma, mesmo que se tenha a sorte de chegar ao topo do Evereste sem se passar por um alpinista a precisar de ajuda, ainda assim se está a escolher atingir o cume em vez de salvar uma vida. Isso porque o custo da subida seria suficiente para salvar a vida de várias pessoas, se fosse doado a uma instituição de caridade eficaz.

Eu gosto de fazer caminhadas e estar em lugares selvagens. Eu gosto de caminhadas que me levam a um cume, especialmente um que tenha uma vista. Por isso consigo entender a razão por que Hillary queria escalar o Monte Evereste. Mas tenho dificuldade em entender por que razão alguém veria isso como uma meta que valha a pena hoje. Não requer grande habilidade de montanhismo, e está muito longe de ser uma experiência numa região selvagem. Arnold Coster, um alpinista holandês que organiza escaladas no Evereste, diz que muitos dos seus clientes são mais como caçadores de troféus do que alpinistas. Tim Macartney-Snape, que escalou o Everest em 1984, diz que os alpinistas de hoje estão “mais interessados em falar sobre isso numa festa do que em estar realmente nas montanhas. É algo para aumentar o status.”

Se assim for, só podemos ter pena que o desejo de status nos leve a estabelecer metas que envolvam actividades inúteis ou até prejudiciais, em vez de metas que tenham valor independentemente do status, como ajudar os necessitados e tornar o mundo um lugar melhor.


Publicado por

Tradução de José Oliveira.

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