O homem que quer salvar a humanidade de um inverno nuclear

Por Kelsey Piper (Vox)

Comer depois da catastrofe.fx

Num Inverno Nuclear o que iríamos comer? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Acredita-se que há setenta mil anos, a humanidade quase se extinguiu.

Uma erupção supervulcânica, chamada Toba, espalhou uma espessa camada de cinzas por grande parte do mundo e escureceu o sol numa totalidade de seis anos. Morreram plantações agrícolas por todo o mundo e, pela maioria das estimativas, apenas alguns milhares de seres humanos sobreviveram — alguns investigadores acreditam que ficaram apenas 40 “pares reprodutores” de sobreviventes.

A possibilidade de um evento desse tipo acontecer novamente tira horas de sono a David Denkenberger. Denkenberger é professor assistente de engenharia mecânica na Universidade de Alaska Fairbanks, e aquilo que pensa sobre cenários apocalípticos levou-o a um projecto pessoal quixotesco: descobrir como se garante que ninguém morre à fome no seguimento de uma catástrofe natural como o Toba ou uma catástrofe criada pelo homem, como um inverno nuclear.

Pode parecer uma fixação estranha, mas é um problema real sobre o qual muito poucas pessoas pensam. O mundo não tem muitos alimentos armazenados na eventualidade de um desastre em grande escala. Em nosso favor pode alegar-se que esses desastres são bastante raros. Toba foi um deles. Outro foi o asteróide que se acredita ter matado os dinossauros. E há desastres provocados pelo homem — por exemplo o risco de um “inverno nuclear” no seguimento de uma guerra termonuclear.

Nenhum destes desastres é provável. Mas cada um deles seria catastrófico se acontecesse e Denkenberger argumenta que, se começarmos a agir agora, poderemos torná-los menos catastróficos. Com o objectivo de fazer exactamente isso, criou uma organização — Alliance to Feed the Earth in Disasters (ALLFED) [Aliança para Alimentar a Terra em Desastres].

Teve a ideia em 2011 ao ler um artigo chamado “Fungi and Sustainability” [Fungos e Sustentabilidade], que concluía que, se os seres humanos se extinguissem, os cogumelos voltariam a dominar o mundo. “Eu pensei: por que é que não comemos, precisamente, os cogumelos e evitamos a extinção?” recorda Denkenberger.

Ao longo de muito tempo, pensar em catástrofes tem sido o domínio, principalmente, de grupos marginais e sobrevivencialistas individuais. Há muito pouca literatura académica sobre coisas que possam exterminar a humanidade e como prevenir tais desastres ou como lhes sobreviver. “Existem mais artigos académicos sobre escaravelhos do estrume do que sobre o destino do Homo sapiens”, escreveu no ano passado um investigador de riscos existenciais.

Mas isso está a mudar lentamente. O destino da civilização humana é um assunto importante de pesquisa e investigação científica — e se tivermos suficiente pouca sorte, poderá ser vital.

Como alimentar o mundo num desastre

A ALLFED é uma organização sem fins lucrativos de oito pessoas com uma simples declaração de missão: ajudar a melhorar o estado de preparação de governos, ONGs, empresas e organismos internacionais, para alimentar o mundo inteiro no seguimento de uma catástrofe. O grupo concentra-se tanto na investigação como na comunicação: descobrir como produzir alimentos sem o sol e disseminar essa informação para ajudar a humanidade em caso de desastre.

Quando Denkenberger mergulhou pela primeira vez na investigação existente sobre sobrevivência no seguimento desse tipo de catástrofes, o que descobriu não foi encorajador. A maioria das investigações existentes toma como certo a morte de milhares de milhões [Br. biliões] de pessoas.

Mas Denkenberger argumenta que a tecnologia avançou o suficiente para que não haja razão para tal pessimismo. Os cogumelos acabaram por não ser uma grande solução — são demasiado caros e de crescimento lento — mas existem várias alternativas. Insectos, por exemplo — crescem rapidamente, comem coisas que nós não podemos e são comestíveis (embora não agradem à sensibilidade culinária dos americanos).

Algas são outra solução. Podem crescer bem com menos luz solar. O súbito arrefecimento de um mundo sem sol mudaria a forma como se movem as correntes nos oceanos e, embora seja difícil de modelar, poderá até produzir um oceano rico em nutrientes adequado para o cultivo de alimentos com pouca luz.

Depois existem bactérias que transformam produtos biológicos, como folhas e relva, que não podemos comer, em açúcares e proteínas que podemos, e bactérias que fazem a mesma coisa, mas que se alimentam do metano do gás natural. (As empresas que trabalham nisso preferem muito mais o termo “proteínas unicelulares”, diz-me Denkenberger e, definitivamente, soa mais apetitoso).

Num livro, Feeding Everyone No Matter What [Alimentar Toda a Gente Não Importa o Que Aconteça], Denkenberger e o co-autor Joshua M. Pearce exploram o estado destas opções. Não soam apetitosas — mas o importante é que possam tornar-se possíveis. Se a humanidade se empenhar em produzir calorias suficientes sem o sol, provavelmente conseguiremos fazê-lo, e investigações adicionais podem conseguir obter o que ainda fique a faltar.

Estes não são, na sua maioria, sistemas que se possam montar no nosso quintal. “Muitos esforços, como os dos sobrevivencialistas” — uma subcultura de pessoas que se preparam para o colapso da civilização — “têm-se concentrado mais na sobrevivência individual e familiar”, destaca Denkenberger. Mas hoje, a produção de alimentos é muito mais eficiente por se centrar em fábricas e isso continuaria a ser assim no seguimento de uma catástrofe. Portanto, a equipa do ALLFED concentra-se mais em como converter indústrias químicas e fábricas para cultivar alimentos, do que na forma como poderiam fazê-lo famílias e indivíduos.

“Algumas destas ideias podem ser usadas numa escala doméstica”, disse Denkenberger, mas “é uma espécie de plano B, caso não consigamos a cooperação em grande escala necessária para reformar uma fábrica”.

Alimentar o mundo também garantiria a nossa resiliência contra uma catástrofe de maneiras mais indirectas. Por exemplo, haveria menos probabilidade dos países entrarem em guerra e seria mais provável os governos aguentarem-se caso houvesse um acesso confiável a alimentos no meio de uma crise, enquanto guerras e conflitos internos podem ser mais prováveis no caso de escassez de alimentos.

Planear para o pior caso pode ser útil em situações que não são tão más como o pior caso, como uma seca que produz o que Denkenberger chama de “défice de 10%”. Uma diminuição de 10% na produção agrícola global ainda deixaria comida suficiente para todos mas, na prática, os preços dos alimentos provavelmente subiriam e centenas de milhares morreriam à fome. Um plano B também poderia ser útil nessas situações.

A ALLFED é uma organização relativamente nova, por isso, neste momento, estão apenas a investigar as opções mais acessíveis numa dúzia de áreas diferentes e relevantes para alimentar o mundo numa catástrofe. Será que biorreactores produtores de etanol podem ser usados para transformar biocombustíveis em açúcar que as pessoas possam comer? Será que as proteínas unicelulares podem ser cultivadas em folhas de plástico? Será muito caro adaptar fábricas de produtos químicos?

Claro, tudo isso levanta a questão: porque não investir todo esse esforço na prevenção dessas catástrofes, cujas consequências seriam sem dúvida enormes, mesmo que muito poucas pessoas morressem à fome? Denkenberger certamente concorda que nos devemos concentrar nisso. Mas, às vezes, vale a pena prepararmo-nos até mesmo para algo que preferíamos muito mais evitar.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Vox, a 25 de Julho de 2019.

Tradução de Luis Campos. Revisão de José Oliveira.

 

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