As Gotas nas Ondas do Oceano

Onda de boas acções.fx

Como criar uma onda de boas acções? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Na primeira postagem, vimos que mesmo as atitudes com pequenas consequências podem fazer parte de grandes resultados através de, pelo menos, dois cenários.

Cumulativo: Quando cada ação pequena é parte de um resultado relevante. A maioria das ações, principalmente no caso do meio ambiente, geram esse tipo de consequência.

Desencadeamento: Quando é preciso acumular até uma certa quantidade que, então, desencadeia uma grande consequência. Nossos hábitos de consumo se encaixam nesse tipo de cenário.

Ademais, vimos que a existência de grandes agentes cujas ações têm grandes consequências não interferem na responsabilidade de agentes pequenos sobre as ações com pequenas consequências que estes últimos acumulam. Agora, é hora de trazer para a reflexão um outro tipo de consequências de nossas ações, a saber, a influência que o nosso comportamento pode ter nas ações de outros agentes. Isso, é claro, tem o potencial de aumentar as consequências indiretas das nossas ações. Na primeira postagem, foi usada a imagem da gota no oceano (as atitudes com pequenas consequências). Para ilustrar a situação desta postagem, vamos recorrer às gotas formando ondas no oceano.

Se a ação do pequeno agente individual não gerasse consequência, e as consequências das ações dos agentes desproporcionalmente grandes prejudicassem o pequeno agente, seria necessário (ou, pelo menos, do interesse do indivíduo) mudar as ações dos atores desproporcionalmente grandes. No entanto, vimos que a pequena ação individual gera consequências principalmente devido ao seu caráter cumulativo. Portanto, se a soma de ações individuais gera consequências grandes sentidas por todos, é necessário (ou, pelo menos, do interesse do indivíduo) mudar as ações do maior número de indivíduos possível, incluindo a dos atores desproporcionalmente grandes. A questão que se segue é como fazer isso.

As maneiras de um indivíduo influenciar ações de grandes agentes são, em sua maioria, através de instituições, como processos legais, promoção de novas leis, ou através da escolha de representantes políticos, protestos e similares. Porém, o foco aqui será o contágio a partir da atitude individual. Para vislumbrar a interação entre as nossas ações e o seu poder de influenciar outros agentes, vamos recorrer ao modelo de mudança por contágio progressivo de Cass Sustein. Nesse modelo, embasado por algumas provas empíricas, ações individuais têm o potencial de desencadear uma mudança coletiva.

A Mudança Social por Contágio Individual

Eis os principais fatores do modelo de mudança social por contágio individual:

a) A condição contextual é que haja uma maioria de pessoas que tenham preferências que condizem com aquelas defendidas pela mudança social mas que, por qualquer motivo, não exteriorizam as suas preferências nem agem de acordo com elas. Como elas não são expostas, é muito difícil identificá-las. Pode, inclusive, ser o caso que a pessoa que possui essa preferência latente não esteja totalmente consciente de que a possui. Imagine alguém que ama cachorros, mas adota uma dieta carnista. Ela estaria a um passo de reconhecer que deve ser vegetariana, mas precisa de alguma influência para isso.

b) O contágio social entre indivíduos é uma das maneiras através da qual essa motivação pode vir. Para tanto, é preciso que hajam alguns rebeldes ou empreendedores morais que não se conformam com o comportamento tido como norma. As atitudes desses empreendedores morais motivarão os outros a adotarem o mesmo comportamento que não é a norma. Para dar conta do espectro de atitudes nos indivíduos, Sustein classifica os agentes humanos em vista do seu limite de tolerância à norma antes de mudarem de comportamento. Os Zeros são aqueles que não aceitam seguir as normas que acham ser injustas. Os Uns têm uma aceitação bem baixa, Os Dois, já têm uma aceitação um pouco maior e assim por diante. Se tomarmos uma escala de zero a cem, os Noventas terão muita resistência em mudar o comportamento.

c) O efeito em cascata ocorre seguindo uma ordem de contágio. Os Zeros eram uma pequena quantidade de rebeldes, mas eles contagiam os Uns, que só precisavam ver essa pequena quantidade para se convencerem a mudar. Ao ver os Uns, os Dois se motivarão e assim por diante. Em cada estágio o efeito em cascata pode parar. Se a mudança não alcançar as pessoas com limites mais altos, não vai se tornar uma mudança social.

d) Em algum ponto difícil de determinar a mudança ganha momentum, é o chamado ponto de inflexão que desencadeia a mudança.

Se quisermos desenvolver a metáfora, é o acúmulo de gotas no oceano que, em algum momento, compõem uma onda de mudança social.

Existem muitas variáveis que interferem nessa estrutura básica. O contato entre as pessoas, por exemplo, aumenta as chances de o contágio acontecer. Por isso as mídias sociais potencializam esse processo mostrando (ou, até mesmo, gerando a falsa impressão) que várias pessoas adotam o novo comportamento. No exemplo de Sustein, o Facebook notificar que as pessoas do círculo de amizade de alguém votaram, aumentou o número de quem vota nos EUA.

É preciso sempre ter em mente que nada no modelo garante que as mudanças levem ao bem coletivo. Por isso é preciso estar sempre atento. Pode muito bem haver um efeito em cascata que leva a mudanças comportamentais que tornam a sociedade pior.

Aplicação do Modelo

Agora podemos retomar o contexto geral da reflexão. Se mantivermos uma abordagem apenas consequencialista, os dois cenários vistos na primeira postagem também se aplicarão. O valor indireto de uma ação ao influenciar os outros a fazer o mesmo vai depender de:

Cumulativo indireto: quantas pessoas ela convence,

ou

Desencadeamento indireto: o quanto ela contribui para o ponto de inflexão da mudança social positiva.

As mesmas questões se apresentam, mas podem ter uma resposta diferente devido ao novo contexto. Primeiro temos que pensar, mais uma vez, comparar a possibilidade de se influenciar agentes grandes ou pequenos. Para pensar sobre isso, seria preciso estimar a taxa de sucesso ao se convencer outros indivíduos e ao se convencer grandes agentes como as empresas. Por exemplo, se uma empresa polui o equivalente àquilo que poluem 1.000 indivíduos, mesmo se for 999 vezes mais difícil convencer empresas a ter a atitude correta, ainda assim uma análise de custo-benefício mostraria que devemos tentar.

No entanto, se analisarmos a maioria das situações veremos que não se trata de um dilema entre convencer um indivíduo ou tentar convencer um grande agente. Para caracterizar um dilema teríamos que pensar em uma situação em que mudar a sua atitude te impede de tentar fazer os grandes agentes mudarem. Por exemplo, se alguém com impacto social que faz campanha contra o aquecimento global decide deixar de viajar de avião e, assim, deixa de convencer muitas pessoas em outros locais. No entanto, essa parece ser a exceção. Na maioria dos casos, mudar a própria atitude tende a ter o valor adicional de motivar a mudança dos outros.

Também teríamos que pensar os casos em que a mudança de atitude convença grandes agentes a mudarem também. O caso padrão de Sustein, em que uma ação convence outro agente a fazer o mesmo, pode se aplicar também a agentes que, apesar de individuais, geram consequências maiores. No entanto, há casos peculiares interessantes. O boicote a um tipo de produto ou a uma empresa em vista de alguma ação errada que ela promove seria um caso intermediário interessante entre ações individuais e a tentativa de mudar os grandes agentes. Nesse caso, como em ‘desencadeamento’, será necessário contagiar muitos agentes individuais a fim de alterar o comportamento das empresas. Ou seja, chegamos ao

Cumulativo Desencadeamento Indireto: Em que o acúmulo de consequências pequenas faz mudar de comportamento um agente que gera grandes consequências.

Incerteza

O modelo do contágio social deixa claro que, mesmo nos casos mais simples, é sempre muito difícil saber quando é que uma ação vai contaminar os outros e, ainda mais, se essa contaminação será fundamental para se atingir o ponto de inflexão ou, pelo menos, não deixar a mudança cessar. Mesmo assim, o potencial de uma ação no contexto da mudança social por contágio parece ser grande o suficiente para que sempre ajamos de acordo, independentemente da incerteza. Isso porque as possibilidades de contágios são grandes. Dos Uns aos Noventa e noves, sempre haverão pessoas no grupo seguinte que precisam da ação de alguém com a tolerância um pouco menor para mudar de atitude. Quanto mais baixo na escala mais difícil vai ser de encontrar alguém do nível seguinte, mas, por outro lado, maior será a importância caso influencie as pessoas certas. Portanto, sempre que você ficar com receio de agir do jeito que acha que é certo, pense que a sua inação pode ser a diferença negativa que acaba freando a escalada do movimento de uma mudança positiva.

Também é difícil prever qual tipo de ação, dentre as muitas possibilidades, ressoará com as outras pessoas a ponto de gerar uma onda. Essa incerteza, parece ser um incentivo para atuar nas mais diversas áreas. Como não temos acesso às preferências latentes das pessoas, mesmo se achamos que fazer x não terá nenhum apelo, e que fazer y terá mais apelo, podemos estar enganados. Portanto, convém fazer x e y. Mesmo assim, é preciso sempre ter em mente que nem toda mudança é positiva. E, como somos falíveis e cheios de vieses, nem toda mudança que acreditamos ser socialmente positiva o será. Portanto, o argumento acima não implica que se deve agir contra as convenções sempre que você achar que deve fazê-lo.

É preciso notar a diferença no tipo de dúvida. A dúvida sobre se a mudança vai influenciar os outros é que não parece valer como motivação para não se realizar a ação. Por outro lado, a dúvida sobre se as consequências da mudança serão mesmo boas deve servir sim como motivação para não se fazer isso. Por exemplo, alguém que acredita que as pessoas são demasiado hedonistas para abandonarem prazeres individuais em vista de um bem coletivo, acreditará que elas jamais abandonarão costumes como tomar um banho longo e quente. Apesar disso, essa pessoa devia abandonar esse costume uma vez que ela não tem acesso sobre as preferências latentes das pessoas para confirmar as suas crenças. Por outro lado, se ela tem dúvidas se a energia nuclear é mesmo mais segura do que outras fontes de energia, convém pesquisar e pensar bastante antes de mudar de atitude.

Conclusão

No final das contas, os cenários ‘cumulativo’ e do ‘desencadeamento’ se aplicam também às consequências indiretas das nossas ações quando aplicadas ao modelo de mudança social por contágio progressivo. Em vista desse potencial, a gama de consequências que temos que considerar ao avaliar o resultado de nossas ações aumenta bastante. Ainda que nesse caso haja ainda mais incerteza, o potencial de mudança é promissor o bastante para justificar que façamos ou deixemos de fazer certas ações que julgamos que todos deveriam fazer ou deixar de fazer.


Celso Vieira

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