A poluição do ar é muito pior do que pensávamos

Por David Roberts (Vox)

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O ar que respiramos mata, isso é o fim dos combustíveis fósseis? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

No final da década de 1960, os Estados Unidos assistiram regularmente ao aparecimento de smog sufocante sobre a cidade de Nova York e Los Angeles, ao derrame de 100 000 barris de petróleo na costa de Santa Bárbara, Califórnia e, talvez mais celebremente, aos incêndios a lavrar na superfície do Rio Cuyahoga em Ohio. Essas imagens sombrias geraram o movimento ambientalista moderno, o primeiro Dia da Terra e uma década de legislação e regulamentação ambiental extraordinárias (muitas delas sob a governação do presidente republicano Richard Nixon).

Dos anos 70 até ao início do século XXI, a luta contra os combustíveis fósseis foi uma luta contra a poluição, especialmente a poluição do ar. 

Nas décadas seguintes, a atenção desviou-se para o aquecimento global e os combustíveis fósseis foram maioritariamente recontextualizados como um problema climático. E isso faz sentido, dadas as enormes implicações das mudanças climáticas para o bem-estar humano a longo termo.

Mas há uma ironia envolvida: o argumento da poluição do ar contra os combustíveis fósseis ainda é o melhor argumento! 

De facto, mesmo com a atenção voltada para as mudanças climáticas, o argumento da poluição do ar tem-se tornado cada vez mais forte, à medida que a ciência sobre a poluição do ar tem avançado a largos passos. Neste momento, os investigadores têm muito maior capacidade de identificar os efeitos directos e indirectos da poluição do ar, e as notícias têm sido uniformemente más.

As provas são, neste momento, suficientemente claras para que se possa afirmar de forma inequívoca: Valeria a pena libertarmo-nos dos combustíveis fósseis mesmo que o aquecimento global não existisse. Especialmente agora que a energia limpa ficou tão barata, os benefícios da qualidade do ar, por si só, são suficientes para compensar a transição energética.

Esta conclusão foi reafirmada pela última investigação sobre a qualidade do ar, apresentada numa audiência recente do House Committee on Oversight and Reform por Drew Shindell, professor de ciências da terra na Universidade Duke (e um dos principais autores de ambos os relatórios recentes do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas]).

O depoimento de Shindell revela que os efeitos da poluição do ar são quase duas vezes piores do que as estimativas anteriores. Isto é bombástico — num mundo sensato seria notícia de primeira página por todo o país.

“A comunidade científica da qualidade do ar tem colocado esta hipótese há pelo menos uma década, mas os avanços da investigação permitiram-nos quantificar e confirmar esta noção, repetidamente”, diz Rebecca Saari, uma especialista em qualidade do ar que lecciona engenharia civil e ambiental na Universidade de Waterloo. “Os «co-benefícios» da qualidade do ar são geralmente tão valiosos que excedem o custo da acção climática, muitas vezes mais.”

Vamos examinar mais de perto as provas desta extraordinária afirmação e, de seguida, iremos considerar as suas implicações políticas.

A ciência continua a demonstrar que a poluição do ar é mais prejudicial do que se acreditava anteriormente

Recentemente, escrevi sobre um novo plano ambicioso e detalhado para descarbonizar substancialmente a economia dos EUA até 2035 (principalmente por meio da electrificação) e disse que isso traria “benefícios sociais e de saúde transformadores”.

Shindell e a sua equipa na Duke tentaram quantificar esses benefícios, recorrendo à ciência mais recente. Começaram com o modelo climático usado pelo Goddard Institute da NASA e actualizaram-no “para representar a poluição do ar em resolução relativamente alta”, afirmou Shindell no seu depoimento, “tornando este modelo adequado para estudar simultaneamente o impacto do clima e o da qualidade do ar”.

Usando este modelo multifuncional, a equipa de Shindell traçou um caminho de 2020 a 2070 que reduziria as emissões de gases com efeito estufa dos EUA, de acordo com o compromisso mundial de ficar abaixo dos 2° C, e tentou quantificar a qualidade do ar e os benefícios climáticos.

(Nota: embora o modelo e as técnicas tenham sido submetidos a uma revisão ​​por pares, os cálculos numéricos mais recentes de Shindell estão actualmente a ser revistos pelos pares. Este inclui uma extensa documentação da sua metodologia num apêndice do seu depoimento.)

Os números são impressionantes. Shindell afirmou no depoimento: “Nos próximos 50 anos, manter o caminho dos 2°C evitaria cerca de 4,5 milhões de mortes prematuras, cerca de 3,5 milhões de hospitalizações e atendimentos de emergência e aproximadamente 300 milhões de dias de trabalho perdidos nos EUA”.

Tudo o que se evitar de mortes, doenças e perda de produtividade representa uma grande poupança:

As mortes evitadas estão avaliadas em mais de 37 biliões [Br. 37 trilhões] de dólares. Os gastos evitados com saúde devido à redução de hospitalizações e visitas às emergências ultrapassam 37 mil milhões [Br. 37 bilhões] de dólares e o aumento da produtividade do trabalho é avaliado em mais de 75 mil milhões [Br. 75 bilhões] de dólares. Em média, isso equivale a mais de 700 mil milhões [Br. 700 bilhões] de dólares por ano em benefícios para os EUA apenas com as melhorias na saúde e no trabalho, muito mais do que o custo da transição energética.

É importante ressaltar que podemos ter acesso a muitos dos benefícios a curto termo. Neste momento, a poluição do ar leva a quase 250 000 mortes prematuras, por ano, nos Estados Unidos. Numa década, uma descarbonização intensa poderia reduzir esse custo em 40%; em 20 anos, poderia salvar cerca de 1,4 milhões de vidas americanas que, de outra forma, iriam perder-se devido à qualidade do ar.

Das potenciais mortes anuais evitadas, o Representante Robin Kelly de Illinois comentou nessa audiência: “Isso é um número enorme. É quase três vezes o número de vidas que perdemos em acidentes de carro todos os anos. É o dobro do número de mortes causadas por opióides nos últimos anos. E é ainda mais do que o número de americanos que perdemos por ano devido à diabetes.”

Se os números são chocantes, é porque a ciência se tem desenvolvido rapidamente. Primeiro, diz Shindell, “tem havido um grande aumento de trabalho nos países em desenvolvimento, em particular na China”, que produziu conjuntos de dados maiores e um quadro mais amplo e completo dos efeitos concretos da exposição à poluição do ar.

Em segundo lugar, enquanto os cientistas costumavam concentrar-se quase exclusivamente nos efeitos da poluição para os quais há um processo biológico comprovado e reconhecido, a recente produção de enormes conjuntos de dados (por exemplo, toda a população de mais de 60 milhões de doentes do Medicare) permitiu-lhes descobrir novas correlações estatísticas.

Com conjuntos de dados gigantes, “podemos controlar o estatuto socioeconómico, a temperatura, a hipertensão e outras condições existentes” e outras variáveis, diz Shindell. “Podemos demonstrar de forma convincente que a correlação é de facto causal, porque podemos descartar essencialmente todas as outras possibilidades”.

Por exemplo, neste momento os cientistas sabem que a exposição ao smog (partículas minúsculas e microscópicas) prejudica os cérebros pré-natais e jovens. Mesmo que ainda não compreendam completamente os mecanismos biológicos, sabem que reduz o controlo dos impulsos e que degrada o desempenho académico. Da mesma forma, sabem que afecta os rins, o baço e até o sistema nervoso.

“Os processos reconhecidos, coisas como derrames, infecções do trato respiratório inferior e doença pulmonar obstrutiva crónica, parecem captar apenas cerca de metade do total”, diz Shindell. “Quando olhamos para os [novos] estudos, ficamos a saber que a poluição do ar parece afectar quase todos os órgãos do corpo humano.”

Um estudo recente das academias nacionais de vários países, incluindo os EUA, afirma-o desta forma:

As provas científicas são inequívocas: a poluição do ar pode prejudicar a saúde ao longo de toda a vida. Causa doenças, invalidez e morte e prejudica a qualidade de vida de todos. Danifica os pulmões, o coração, o cérebro, a pele e outros órgãos; aumenta o risco de doenças e de incapacidades, afectando praticamente todos os sistemas do corpo humano.

“Cerca de duas vezes mais pessoas morrem no total do que apenas pelos processos que conhecemos”, diz Shindell. “Temos subestimado desde o início”.

Em conjunto com estes cálculos actualizados dos impactos da poluição do ar, a equipa de Shindell desenvolveu uma nova maneira de avaliar os impactos do calor intenso na saúde em todo o país, de modo a quantificar um dos efeitos melhor compreendidos das mudanças climáticas. Combinando-os num modelo, Shindell depôs, “descobrimos que os impactos praticamente duplicaram face àqueles que seriam obtidos usando provas mais antigas”.

Embora isso possa parecer um grande salto, é provavelmente uma estimativa conservadora. Tanto na poluição do ar como nas mudanças climáticas, o estudo omitiu muitos efeitos que “estão claramente presentes, mas ainda não podem ser quantificados de forma confiável”. Os números verdadeiros são quase de certeza mais altos.

As implicações desta nova investigação sobre a qualidade do ar são de longo alcance. Embora se considerasse que os benefícios do Clean Air Act já superavam os custos, estes podem ser o dobro da estimativa anterior. Os custos dos recuos de Trump face aos padrões de economia de combustível de Obama e do Clean Power Plan vão até ao dobro da estimativa anterior.

Não é por acaso que a Agência de Protecção Ambiental de Trump está a tentar excluir a consideração dos co-benefícios (frequentemente o maior tipo de benefícios) na sua regulamentação da qualidade do ar. Não é por acaso que está a tentar excluir a consideração de estudos com participantes anónimos, uma categoria que engloba todas as investigações mais recentes nas quais Shindell e outros se baseiam. O lobby dos combustíveis fósseis, que neste momento inclui todo o poder executivo, há muito tempo que compreendeu que a ciência não está a seguir o seu caminho. Estas mudanças na regulamentação são a sua última tentativa desesperada de cegar o governo face a novas investigações.

Uma nova investigação sobre poluição do ar deve quebrar o impasse da política climática

As mudanças climáticas têm sido frequentemente definidas como um problema sem solução para a coordenação internacional, uma questão de sacrifício partilhado, com cada país incentivado a ser um “parasita”, colhendo os benefícios sem assumir nenhum dos custos.

Mas as investigações mais recentes sobre a poluição do ar, juntamente com a diminuição do custo da energia limpa, devem tornar discutível essa dinâmica. 

É verdade que a mudança climática só pode ser evitada com a cooperação de todo o planeta; se os EUA reduzirem as suas emissões para zero líquido, mas os outros países do mundo (especialmente a China e a Índia) continuarem na sua trajectória actual, isso não irá fazer quase nenhuma diferença na temperatura. Os benefícios para a saúde do calor intenso evitado não se irão manifestar.

No entanto — e este é o facto crucial — os benefícios da qualidade do ar irão manifestar-se, não importa o que o resto do mundo faça. A equipa de Shindell apresentou uma versão do seu cenário em que os EUA cumpriam o processo dos 2 °C, mas que o resto do mundo continuava com as políticas actuais. “Descobrimos que a acção dos EUA, por si só, iria trazer-nos mais de dois terços dos benefícios à saúde de uma acção mundial nos próximos 15 anos”, afirmou Shindell, “com cerca de metade do total em todo o período de 50 anos analisado”.

Os benefícios da qualidade do ar chegam muito mais cedo do que os benefícios do clima. São, pelo menos nas próximas décadas, muito maiores. Podem ser assegurados sem a cooperação de outros países. E, ao gerar uma média de 700 mil milhões [Br. 700 bilhões] de dólares por ano em custos evitados com saúde e mão de obra, por si só, podem pagar a transição energética e ainda irá sobrar. Quer haja mudanças climáticas ou não, vale a pena descartar os combustíveis fósseis.

E se isto é verdade nos Estados Unidos — que, afinal, tem um ar relativamente limpo — é dez vezes mais verdadeiro em países como a China e a Índia, onde a qualidade do ar permanece péssima. Um estudo da Comissão Lancet em 2017 descobriu que, em 2015, a poluição do ar matou 1,81 milhões de pessoas na Índia e 1,58 milhões na China.

A investigação de Shindell revela que esses cálculos podem ser manifestamente baixos. (Este, a dada altura, espera fazer um modelo semelhante sobre a China). O verdadeiro número de vítimas pode ser quase o dobro disso, razão pela qual nos últimos anos ambos os países tiveram manifestações em massa contra a poluição que deixaram os seus governos em dificuldades.

“A poluição do ar continua a ser o principal factor de risco para a saúde ambiental, contribuindo para a morte prematura em todo o mundo, conforme demonstrado repetidamente pelos estudos da Carga Global da Doença”, diz Saari. “Os custos com a saúde e a perda de produtividade dos trabalhadores são impactos económicos directos da poluição do ar, tão grandes que podem exceder os custos da política climática.”

Shindell terminou com um apelo ao Congresso, afirmando no seu depoimento que seria “inadmissível perceber que estes benefícios poderiam ser obtidos e não tentar obtê-los”.

A poluição do ar deve ser vista como uma crise dos direitos civis a nível global 

O nível extraordinário de sofrimento que a humanidade está a experienciar neste momento com a poluição do ar não é necessário para a modernização; poderia ser reduzido, a um custo bem abaixo dos benefícios sociais líquidos, com as tecnologias de energia limpa disponíveis.

Se não forem necessários, então os milhões de vidas perdidas ou degradadas todos os anos devido aos combustíveis fósseis são uma escolha. E quando o sofrimento nesta escala, que é brutalmente injusto, se torna uma escolha, entra no mesmo terreno ético da guerra, da escravatura e do genocídio. Os efeitos são mais distribuídos a nível temporal e geográfico, assim como a tomada de decisões e a culpabilidade moral, mas o impacto cumulativo sobre o bem-estar humano — na nossa longevidade, saúde, aprendizagem e felicidade — é um impacto comparável e também vale a pena combatê-lo.

Os legisladores dos EUA têm a oportunidade de arrancar com uma transição energética que poderia salvar 1,4 milhões de vidas americanas nos próximos 20 anos, especialmente entre os mais vulneráveis, ao mesmo tempo que criaria empregos e pouparia o dinheiro dos consumidores. Como diz Shindell, seria inadmissível não agir nesse sentido.


Publicado originalmente por David Roberts na Vox, a 12 de Agosto de 2020

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira. 

 

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