Quão importante será o tipo de instituição de caridade que escolhemos?

Por Stefan Schubert e Lucius Caviola (Psychology Today)

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Caridade, precisa de ser eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Algumas instituições de caridade são mais eficazes do que outras. Conseguem fazer mais coisas boas – por exemplo, salvar mais vidas, se é isso que pretendem – do que outras instituições de caridade com a mesma quantidade de dinheiro. Como doador, você obtém mais benefícios se doar para as instituições de caridade mais eficazes.

Mas quão grandes serão essas diferenças de eficácia? Quanto mais eficazes serão as instituições de caridade mais eficazes em comparação com a instituição de caridade típica? O que você acha? As instituições de caridade mais eficazes serão talvez 10% mais eficazes do que a instituição de caridade típica? Ou 50% mais eficazes? Ou três vezes mais eficazes? Ou a diferença será ainda maior?

Existem várias razões pelas quais esta questão é importante. Se a diferença na eficácia for pequena, então não importará muito para qual instituição de caridade você doa. Todas elas teriam níveis de impacto bastante semelhantes de qualquer maneira. Portanto, não seria muito importante investir recursos para encontrar as instituições de caridade mais eficazes. Mas se a diferença na eficácia for grande, então é muito importante identificar as instituições de caridade mais eficazes e fazer doações para elas.

Da mesma forma, a diferença na eficácia pode nos informar sobre o que se passa no setor da caridade. Se as instituições de caridade mais eficazes são muito mais eficazes do que a instituição de caridade típica, então a maioria das instituições de caridade poderia fazer muito mais bem do que estão fazendo atualmente. Isso significaria que a maioria da caridade deveria ser repensada. Mas se as instituições de caridade mais eficazes são um pouco mais eficazes do que a instituição de caridade típica, então não temos motivos para inferir isso. Então, a instituição de caridade típica parece muito melhor.

Especialistas vs. crenças leigas

Em um artigo recente publicado na Judgment and Decision Making, decidimos estudar as crenças sobre as diferenças na eficácia da caridade, juntamente com nossos co-autores Elliot Teperman, David Moss, Spencer Greenberg e Nadira Faber. Especificamente, perguntamos aos participantes o quão mais eficazes serão as instituições de caridade mais eficazes na ajuda os pobres do mundo, em comparação com a instituição de caridade média desse tipo. Apresentamos esta pergunta a três grupos: leigos, altruístas eficazes (que estão comprometidos em doar para as instituições de caridade mais eficazes) e especialistas em instituições de caridade contra a pobreza mundial. Encontramos diferenças marcantes. Os leigos pensavam que as instituições de caridade mais eficazes são cerca de 1,5 a 2x mais eficazes do que a instituição de caridade média (estimativa média; este resultado foi replicado usando formulações ligeiramente diferentes da pergunta). Em vez disso, altruístas eficazes estimaram que a diferença é 50x. E os especialistas acham que a diferença não é inferior a 100x. Esta estimativa de especialista está de acordo com estudos de diferenças na eficácia de diferentes intervenções (por exemplo, diferentes tratamentos médicos) para ajudar os pobres em todo o mundo, conforme medido em anos de vida ajustados à deficiência salvos por 1.000 dólares (ver gráfico).

(gráf) Caridade-eficaz

Custo-eficácia de intervenções de saúde global na ordem de anos de vida ajustados à deficiência salvos por 1.000 dólares. (Fonte: 80,000 Hours)

 

Portanto, a maioria das pessoas pensa que as diferenças de eficácia entre as instituições de caridade que ajudam os pobres do mundo são pequenas, mas, na verdade, são muito grandes, de acordo com as nossas melhores estimativas de especialistas. (E se compararmos as instituições de caridade que trabalham em causas diferentes — incluindo instituições de caridade que beneficiam pessoas no mundo desenvolvido — então as diferenças em eficácia são provavelmente ainda maiores). Isto significa que as pessoas subestimam a importância de priorizar as instituições de caridade mais eficazes. Os especialistas acreditam que doar para a instituição de caridade média, em vez da instituição de caridade mais eficaz, faz com que você perca desde um terço a metade do impacto que poderia ter. Mas, na verdade, pode fazer você perder pelo menos 99% do seu impacto.

O efeito da informação

À luz desses resultados, é natural perguntar se as pessoas mudam seu comportamento quando são informadas sobre as grandes diferenças de eficácia. As pessoas geralmente não sentem muita motivação para doar para as instituições de caridade mais eficazes. E frequentemente elas não fazem muita pesquisa para encontrar as instituições de caridade mais eficazes. Será que isso poderia mudar se elas ficassem sabendo quão grande é a diferença de eficácia entre a instituição de caridade mais eficaz e a média? Em outras palavras, será que a subestimação da diferença entre caridades eficazes e médias é parte da explicação do motivo para as pessoas doarem ineficazmente (como costumam fazer)?  

No último estudo desse artigo, examinamos essa questão. Apresentamos aos participantes duas opções hipotéticas de doação. Ou poderiam doar 100 dólares para uma instituição de caridade altamente eficaz ou poderiam doar  60 dólares para essa instituição de caridade e 40 dólares para uma instituição de caridade menos eficaz. Descobrimos que as pessoas estavam mais inclinadas a doar a totalidade dos 100 dólares para a instituição de caridade altamente eficaz quando foram informadas de que a diferença de eficácia entre as instituições de caridade era 100x, em comparação com quando foram informadas de que a diferença era 1,5x, ou quando não foi dada nenhuma informação sobre a diferença. Visto que doar a totalidade do valor para uma instituição de caridade altamente eficaz é a opção mais eficaz, isso significa que sim, informar os participantes sobre a verdadeira diferença na eficácia (conforme estimada por especialistas) realmente os levou para uma direção mais eficaz.

No entanto, é de referir que muitos continuaram a dividir suas doações entre as duas instituições de caridade, mesmo quando informados sobre a verdadeira diferença de eficácia. Como pesquisas anteriores mostraram, as pessoas parecem ter uma forte preferência por dividir suas doações. Assim, embora a subestimação das diferenças de eficácia entre as instituições de caridade seja provavelmente uma razão pela qual elas doam ineficazmente, não é a única razão, e dissipar esse equívoco só poderá fazer uma certa diferença. Como mostramos em outro lugar, existem muitos obstáculos para a doação eficaz.

O mercado ineficiente da caridade

Então, por que serão tão grandes as diferenças de eficácia entre as instituições de caridade? Isso ocorre porque o “mercado” das instituições de caridade não é eficiente, ao contrário do mercado de ações e ao contrário do mercado de bens de consumo. Já vimos que as pessoas não consideram prioritário doar de forma eficaz. Isso significa que instituições de caridade ineficazes não são incentivadas a melhorar. Há pouca pressão do mercado para que haja eficácia. Como resultado, a maioria das instituições de caridade é muito menos eficaz do que poderia ser. Apenas um pequeno número de instituições de caridade se preocupa com a eficácia e supera fortemente as restantes.

A situação é muito diferente da do mercado de bens de consumo. Os consumidores normalmente sentem enorme motivação para obter a melhor relação custo-benefício. E estão dispostos a investir tempo para encontrar as melhores opções. Portanto, empresas ineficazes são altamente incentivadas a melhorar. Se não o fizerem, elas vão à falência. É por isso que a diferença de eficácia entre as empresas não é assim tão grande. Mas, como não existe um mecanismo equivalente no “mercado” da caridade, as instituições de caridade ineficazes continuam em sua forma usual.

Uma lição a retirar disso é que quando você procura produtos e serviços que oferecem a melhor relação custo-benefício, você não está apenas ajudando a si mesmo. Você também está ajudando todos os outros consumidores, forçando as empresas a fornecer produtos melhores e mais baratos. Embora os efeitos das decisões de qualquer consumidor individual sejam minúsculos, os efeitos agregados são vastos. Graças a isso, os consumidores geralmente encontrarão produtos razoavelmente bons, mesmo que não invistam muito tempo para encontrá-los — já que a maioria dos produtos no mercado é bastante boa (embora varie de acordo com a indústria).

Por outro lado, o fato de que a maioria dos doadores não estar muito interessada na eficácia torna mais difícil para outros doadores doar de forma eficaz. Devido à falta de interesse na eficácia, as instituições de caridade não são pressionadas a se tornarem mais eficazes. Como resultado, os doadores desinformados não são ajudados pelas forças do mercado como são os consumidores desinformados. Eles correm um grande risco de escolher uma instituição de caridade ineficaz, uma vez que existem muitas instituições de caridade ineficazes por aí.

O interesse crescente na caridade eficaz

No entanto, nos últimos anos, houve um aumento do interesse na caridade eficaz. O movimento crescente de altruístas eficazes criou organizações de pesquisa que identificam as instituições de caridade mais eficazes. Por exemplo, a GiveWell recomenda instituições de caridade eficazes que ajudam os pobres do mundo, e a Animal Charity Evaluators recomenda instituições de caridade eficazes que promovem o bem-estar animal. Essas organizações tornam a vida muito mais fácil às pessoas que desejam doar para instituições de caridades eficazes. 

Se essa abordagem à caridade se tornasse mais popular, o mercado de caridade começaria a se tornar mais semelhante ao mercado de bens de consumo. A instituição de caridade média se tornaria gradualmente mais eficaz, em resposta à procura dos doadores por eficácia. E então a diferença de eficácia entre as instituições de caridade começaria a diminuir.

Mas, por enquanto, essa diferença em eficácia é maior do que a maioria das pessoas pensa.

Referências

Jonathan Berman, Alexandra Barasch; Emma Levine and Deborah Small, “Impediments to Effective Altruism: The Role of Subjective Preferences in Charitable Giving,” Psychological Science, 29 (5) (2018): 834-844.

Lucius Caviola, Stefan Schubert, and Jason Nemirow, “The Many Obstacles to Effective Giving,” Judgment and Decision Making, 15 (2) (2020): 162–166.

Lucius Caviola, Stefan Schubert, Elliot Teperman, David Moss, Spencer Greenberg, and Nadira Faber, “Donors Vastly Underestimate Differences in Charities’ Effectiveness,” Judgment and Decision Making, 15 (4) (2020): 509-516.

William MacAskill, Doing Good Better: Effective Altruism and a Radical New Way to Make a Difference (London: Guardian Books, 2015).


Publicado originalmente por Stefan Schubert e Lucius Caviola na Psychology Today, a 14 de Setembrode 2020.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira. 

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