Doar com o Coração e a Cabeça

Por Peter Singer e Lucius Caviola (Project Syndicate)

Doar com a cabeça E o coração? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

As instituições de caridade mais eficazes do mundo fazem um bem muito maior, por cada dólar gasto, do que as instituições de caridade típicas, mas muitas vezes não têm a atracção emocional que motiva os doadores a doar. A investigação psicológica aponta para uma possível solução.

Em todo o mundo, as pessoas doam centenas de milhares de milhões de dólares a instituições de caridade. Só nos Estados Unidos, as doações à caridade totalizaram cerca de 450 mil milhões [Br. bilhões] de dólares no ano passado. À medida que 2020 se aproxima do fim, talvez esteja a pensar, ou os membros da sua família, em doar a instituições de caridade. Mas existem, literalmente, milhões de instituições de caridade. Qual deve escolher?

Se for como a maioria das pessoas, deseja apoiar instituições de caridade que significam algo para si – que lhe falem ao coração. Talvez seja uma instituição de caridade que ajuda crianças na sua comunidade, ou um centro de acolhimento local para sem-abrigos onde fez voluntariado, ou talvez um museu que o apaixone, ou um local de culto ao qual deseja demonstrar apoio. Nos EUA, 94% das doações vão para instituições de caridade que se concentram em questões locais ou nacionais.

Doar a uma instituição de caridade que lhe fala ao coração é provavelmente melhor do que não doar. São poucas as instituições de caridade absolutamente fraudulentas. O maior problema é que ao guiar-se pelo seu coração irá ignorar investigações sobre quais são as instituições de caridade mais eficazes. Algumas instituições de caridade irão fazer centenas de vezes um bem maior com a sua doação – ao salvar ou ao melhorar muitas mais vidas – do que as instituições de caridade típicas.

Normalmente, as instituições de caridade mais eficazes ajudam as pessoas mais pobres nos países menos desenvolvidos do mundo. Por exemplo, a avaliadora de instituições de caridade, GiveWell, calcula que o Malaria Consortium, uma das principais instituições de caridade que trabalha em países de baixos rendimentos propensos à malária, pode fornecer quatro meses de medicamentos preventivos a crianças de 3 a 59 meses de idade por menos de 7 dólares por criança. Em média, isto salva uma vida por cada 3000 a 5000 dólares gastos

Em contraste, uma das instituições de caridade que trabalha nos EUA que a GiveWell considera promissora, o Knowledge is Power Program, gasta 9000 a 20 000 dólares para melhorar o desempenho académico de um aluno por um ano. Melhorar o desempenho académico por um ano pode ser importante, mas quando isso custa três ou quatro vezes mais do que salvar uma vida, obviamente não se está a dar um valor comparável à sua doação.

Dadas as grandes diferenças de eficácia, a instituição de caridade que apoia é muito importante. Os especialistas calculam que, mesmo no campo da ajuda às pessoas mais pobres do mundo, as instituições de caridade mais eficazes fazem 100 vezes maior bem por uma determinada quantia do que as de custo-eficácia médio. Caso estejam certos, doar 100 dólares às instituições de caridade mais eficazes que ajudam pessoas em pobreza extrema pode alcançar um bem maior do que doar 9000 dólares a uma instituição de caridade típica que tenta fazer a mesma coisa.

Essa maneira de pensar é uma forma de altruísmo eficaz. Os altruístas eficazes defendem que, quando doamos, devemos tentar obter o melhor valor pelo nosso dinheiro, tal como fazemos quando vamos às compras para nós mesmos.

Faria uma grande diferença e resolveria muitos problemas globais se todos doassem a instituições de caridade com base na eficácia. Mas não é realista esperar que isso aconteça em breve, porque para a maioria das pessoas, doar é algo profundamente emocional. E, infelizmente, as nossas emoções não aumentam proporcionalmente com o número de pessoas que podemos ajudar. 

Ajudar 100 pessoas não dá uma sensação 100 vezes melhor do que ajudar uma pessoa. E ajudar alguém do outro lado do mundo não dá uma sensação tão boa como ajudar alguém que está perto – principalmente quando podemos identificar a pessoa que estamos a ajudar, como uma criança doente que nos mostram numa fotografia. Dados estes obstáculos, o que podemos fazer para tornar as doações eficazes mais apelativas?

Uma nova plataforma de doação oferece uma solução. GivingMultiplier.org [Multiplicador de Doações] incentiva-nos a dividir as nossas doações. Uma parte vai para a sua instituição de caridade favorita – aquela com a qual pessoalmente se preocupa mais. A outra parte vai para uma instituição de caridade altamente eficaz, recomendada por especialistas. E para multiplicar o seu impacto, o Giving Multiplier complementa ambas as suas doações. Os fundos extra são fornecidos por filantropos que desejam incentivar mais pessoas a doar com eficácia.

Por que é que esta estratégia simples funciona? Um de nós, Lucius Caviola – que trabalha com Joshua Greene, professor de Psicologia da Universidade de Harvard – percebeu que as pessoas se sentem quase tão bem com a sua doação quando doam à sua instituição de caridade favorita 50 dólares em vez de 100 dólares. Portanto, os doadores não perderiam muito ao doar apenas metade à sua instituição de caridade favorita, o que lhes permite doar a outra metade a uma instituição de caridade altamente eficaz – algo que as pessoas consideram significativo.

Portanto, Caviola e Greene criaram o Giving Multiplier como um meio de permitir que os doadores experimentem a sensação positiva de apoiar a instituição de caridade com a qual mais se preocupam, ao mesmo tempo que doam a uma instituição de caridade altamente eficaz. Se, além disso, alguém complementa as suas doações para aumentar o seu impacto, a sensação é ainda melhor.

Não devemos esperar que se tornem altruístas eficazes todos aqueles que doam exclusivamente com base em provas do bem que uma instituição de caridade faz com as doações que recebe. Para a maioria das pessoas, doar continua a ser principalmente um acto emocional. Mas é realista esperar que muitas pessoas se tornem altruístas eficazes a tempo parcial, doando em parte com base nos seus sentimentos e em parte com base no que é mais eficaz. Se apenas um quarto de todos os doadores aplicasse esta estratégia, milhões de vidas seriam salvas e melhoradas – sem que os doadores tivessem de abandonar as instituições de caridade que mais lhes falam ao coração.


Publicado originalmente por Peter Singer e Lucius Caviola no Project Syndicate, a 7 de Dezembro de 2020.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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