Os problemas do mundo arrasaram-me. Este livro fortaleceu-me.

Por Kelsey Piper (Vox)

Ajudar os outros fortalece-nos? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Em 2009, o filósofo Peter Singer publicou um livro chamado A Vida Que Podemos Salvar [Br. “Quanto Custa Salvar Uma Vida”], que continha uma reafirmação de um dos seus argumentos mais famosos: que se deve ajudar as pessoas, se isso não for excepcionalmente custoso para nós.

O seu argumento original, que apresentou num artigo publicado em 1972, é algo assim: Imagine que está a caminho de uma reunião importante, quando de repente vê uma criança a afogar-se num lago por onde está a passar. Poderia salvá-la, mas isso iria estragar o seu fato. Deveria, moralmente, salvar a criança?

Quase todo a gente diz que sim. Mas Singer afirma que o nosso mundo já apresenta oportunidades para salvar vidas que são tão simples e de baixo custo como a sua situação hipotética. Estas não estão bem à nossa frente; as crianças que morrem se as ignorarmos estão na sua maioria longe, nascidas em famílias que talvez nunca encontremos. Mas caso não lhe pareça que isso importa (e Singer pensa assim), não deveríamos então estar, digamos, a salvá-las?

É um argumento convincente, precisamente porque não é assim tão complicado. Singer é um utilitarista — uma escola de filosofia que defende que as acções devem ser avaliadas com base nas suas consequências e que se deve fazer o que quer que maximize a utilidade ou o bem-estar geral — mas este não espera que os seus leitores partilhem dessa visão do mundo. Em vez disso, argumenta, só precisam ser pessoas que prefiram salvar uma vida em vez de não o fazer.  

A experiência mental de Singer tem instigado as pessoas há décadas, mas A Vida Que Podemos Salvar foi mais do que instigante: levou as pessoas a agirem. O livro desempenhou um papel influente no nascimento do movimento do altruísmo eficaz, construído em torno do princípio de que as instituições de caridade devem ter uma abordagem rigorosa para fazer o maior bem possível. Inspirou doadores importantes a doar com mais eficácia. E inspirou milhares de pessoas a assumirem o compromisso da Vida Que Podemos Salvar, para darem o que puderem para salvar vidas noutros lugares.

Este ano, Singer e o seu editor lançaram A Vida Que Podemos Salvar gratuitamente tanto em e-book como em audiolivro. O seu relançamento nestes formatos (após uma actualização em 2019) parece uma boa ocasião para reflectir sobre a influência de longo alcance do livro. Poucos autores podem afirmar que semearam movimentos existentes. Singer, que também é autor do livro seminal Libertação Animal, de1975, que ajudou a lançar o movimento pelos direitos dos animais, pode agora dizer isso duplamente.

Revisitar A Vida Que Podemos Salvar propiciou mais do que apenas um curso para relembrar o argumento de Singer — a sensação era a de redescobrir princípios essenciais. Michael Schur, o criador do The Good Place e um dos maiores fãs do livro, escreve no prefácio da edição de 2019: “Na sua essência, o livro de Singer pede-nos que consideremos uma verdade muito simples: uma vida é uma vida, não importa onde viva. Um ser humano além não é menos valioso do que um ser humano aqui”.  

Pode ser intimidante e desmoralizante, admite Schur, ler um argumento de que devemos fazer muito mais pelas outras pessoas do que estamos a fazer. Mas este diz que há outra maneira de ver isso: leia o livro e “terá, às voltas na sua cabeça, o pensamento de que pode haver algo simples que podemos fazer para ajudar”.

A Vida Que Podemos Salvar, em resumo

Peter Singer é um filósofo australiano, professor de filosofia em Princeton e um dos maiores intelectuais públicos do nosso tempo. Ao longo dos anos, lutou pelos direitos dos animais, defendeu o utilitarismo e defendeu mais — e mais eficazes — doações. Também tem sido, às vezes, uma figura controversa na ética moderna, alienando muitos na comunidade dos deficientes com o que chamam de abordagem simplista e horripilante sobre a deficiência intelectual.

Desde o início dos anos 1970, uma das suas principais fixações tem sido fazer com que a população dos países ricos pense sobre os pobres do mundo. Fez isso inicialmente num ensaio em 1972 inspirado pela situação dos refugiados de guerra bengalis, onde expôs pela primeira vez o argumento da criança a afogar-se.

Embora esse ensaio apresentasse a ideia central de Singer, A Vida Que Podemos Salvar deu-lhe a sua expressão mais completa. Li o livro pela primeira vez em 2011, quando tinha 17 anos, e achei-o estimulante e objectivo: as pessoas estão a morrer, sabemos como mudar isso, só temos de doar dinheiro e dizer a todos que o façam também. E embora, como adulta, seja óbvio que muitos dos detalhes de como mudar o mundo são mais complicados do que isso, o núcleo simples permanece e fala alto e em bom som ao tipo de pessoa que se torna altruísta eficaz: o mundo poderia ser melhor, e podemos torná-lo melhor.

A Vida Que Podemos Salvar começa quase de forma idêntica àquele ensaio de 1972. Depois de apresentar a situação hipotética de abertura, Singer apresenta então algumas situações não hipotéticas: a história da morte de uma menina na China que foi atropelada por um carro, de um menino no Gana que morreu de sarampo. “Caso seja como a maioria das pessoas, provavelmente está agora a dizer para si mesmo: «Eu não teria passado por aquela criança sem fazer nada. Eu teria parado para ajudar». Talvez o tivesse feito; mas lembre-se que, como já vimos, 5,4 milhões de crianças menores de 5 anos morreram em 2017, sendo a maioria dessas mortes por causas evitáveis ​​ou tratáveis”. (Este excerto é da edição de 2019).  

O desafio básico praticamente não mudou desde 1972. O que mudou — radicalmente — é o quanto sabemos sobre o que pode ser feito pelos pobres do mundo. Existem agora mais instituições de caridade de saúde mundial que fazem um acompanhamento abrangente do seu trabalho, tornando mais simples do que nunca saber exactamente até onde vai o seu dinheiro. Existe o movimento do altruísmo eficaz — dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo que assumiram um compromisso ou através do seu dinheiro ou dos seus esforços para fazer o bem no mundo da forma mais eficaz possível. 

Isso significa que o livro — especialmente a edição de 2019, actualizado com novas estatísticas sobre a eficácia da caridade que tornam a sua mensagem ainda mais convincente — finalmente tem uma resposta forte face a algumas das principais objecções à caridade, nomeadamente que esta realmente não funciona. Muitas pessoas certamente concordam que se pudessem melhorar significativamente ou salvar uma vida por alguns milhares de dólares, deveriam fazê-lo, mas têm a sensação de que a caridade internacional é ineficiente, corrupta, imperialista ou, em última análise, contraproducente. E certamente parte dela é — mas a “caridade” não é um monólito, mas sim uma série de intervenções específicas, muitas delas conhecidas por funcionarem bem.

Correndo o risco de simplificar demais — e A Vida Que Podemos Salvar está continuamente a correr o risco de simplificar demais, porque o argumento central de que não devemos deixar as pessoas morrer se pudermos salvá-las é na verdade simples, e Singer prefere apresentá-lo dessa forma — a prevenção da malária salva vidas. Dar dinheiro às pessoas significa que estas não vão passar fome. Claro, existem más instituições de caridade, mas existem muitas que são boas, e sabemos mais do que nunca quais são estas últimas.

O que mais se destacou na minha releitura de A Vida Que Podemos Salvar é a sua teimosia. Ao longo das décadas, Singer viu dezenas de contra-argumentos: a versão do livro hoje, escreve Singer, “destila tudo o que aprendi ao longo dos anos sobre por que doamos ou não doamos e o que devemos fazer a esse propósito”. Secções inteiras são dedicadas a apresentar objecções que se possa ter, desde “isto é demasiado exigente” a “Eu, razoavelmente, preocupo-me mais com as pessoas na minha vizinhança do que com as pessoas distantes” e “se todos o levassem a sério isso não destruiria a economia global” — e descobre-se que, mesmo assim, a lógica central do livro mantém-se.

Se for muito exigente doar uma grande parte do seu dinheiro, argumenta Singer, então doe alguma parte do seu dinheiro. Certamente não é muito exigente doar qualquer parte do seu dinheiro, privilegiados como somos por vivermos na sociedade mais rica da história da humanidade. Se todos se preocupassem em acabar com a pobreza global, poderíamos fazê-lo confortavelmente sobrando ainda muito dinheiro, portanto, fazer isso não destruiria a economia global. E embora as pessoas se importem com aqueles que estão perto delas, parece essencialmente uma falta de escrúpulos deixar uma criança morrer de dor, longe, quando concorda que a teria salvo se esta estivesse a morrer de dor mais perto de si.

Às vezes, essa persistência pode tornar irritante A Vida Que Podemos Salvar. Mas, em última análise, torna o livro estimulante. Singer acredita que, se o seu público realmente pensar sobre isso, estes farão algo. Termino o livro esperando não o desapontar.

Retrospectiva uma década depois

Em apenas 10 anos, entre a primeira edição do livro em 2009 e a edição de aniversário de 2019, muita coisa mudou.

Em 2009, o livro disse aos leitores que, no ano mais recente para o qual havia dados disponíveis, 9,7 milhões de crianças morreram de forma evitável antes de atingirem o seu quinto aniversário.

Em 2019, 5,4 milhões de crianças morreram de forma evitável. Isso é um progresso considerável. Desde a década de 1970, a pobreza extrema diminuiu para mais da metade e, embora a amplitude exacta dos ganhos dependa de como os medimos, não há dúvida de que as pessoas têm vidas mais longas, com mais saúde e mais segurança do que nunca.

Ao mesmo tempo — e não sem relação — sabemos mais sobre como ajudá-las. A maior mudança entre a primeira edição e a segunda, disse-me Singer, foi que “ficámos a saber mais sobre o combate à pobreza global”.

Em 2009, Singer limitava-se principalmente a especular sobre qual das intervenções populares de ajuda da época era a mais promissora. O movimento para testar rigorosamente a resposta a essa pergunta estava apenas a começar. Provavelmente não deveríamos dar dinheiro directamente aos pobres do mundo, argumentou Singer na primeira edição do livro, em vez disso apelava a que doássemos a programas de saúde e educação para ajudá-los de forma mais eficaz. Desde então, foram disponibilizados dados que mudaram a sua opinião sobre as transferências directas de dinheiro. “A GiveDirectly mudou a minha atitude face a dar dinheiro aos pobres. Claramente tem efeitos positivos”, disse à DevEx .

O livro de Singer também inspirou mudanças reais no sector da caridade — muitas delas reflectidas na segunda edição. O bilionário do Facebook Dustin Moskovitz e a sua esposa, Cari Tuna, foram declaradamente influenciados pelos livros e, desde então, destinaram milhares de milhões [Br. bilhões] de dólares a instituições de caridade eficazes, por meio da GiveWell (apresentada na primeira edição do livro), a sua organização irmã, o Open Philanthropy Project, a incubadora de caridade eficaz Evidence Action, entre outras. (Nos últimos anos, fiz doações à GiveWell e à Evidence Action.)

Em muitos aspectos A Vida Que Podemos Salvar é uma evidente história de sucesso. Singer defendeu a ajuda às pessoas, e milhares de pessoas ouviram, mudando o mundo do desenvolvimento global e promovendo o crescimento de novas instituições de caridade que são ainda melhores a ajudar as pessoas.

Mas em 2020, essa história de sucesso deve ser — pelo menos ligeiramente — qualificada. O declínio da pobreza global, ano após ano, será revertido este ano porque o coronavírus causou perturbações económicas em todo o mundo.

Somando-se a isso, está o sentimento avassalador de exaustão que muitos de nós sentimos após um período tão difícil. Todos nós fizemos sacrifícios muito reais este ano pela nossa própria segurança, a segurança das nossas famílias e a segurança das outras pessoas. Parece quase injusto pedir algo mais. Além disso, pode haver uma questão de moral. Para aqueles que têm contribuído regularmente, foi encorajador participar num movimento para reduzir a pobreza global e a morte desnecessária, ano após ano, após ano. 2020 foi o oposto de encorajador. Em vez de melhorar, muitas coisas pioraram.

Mas a mensagem central de A Vida Que Podemos Salvar acaba por corresponder a algumas das lições de 2020. Quando se pode salvar a vida de alguém com passos que podem não ser fáceis, mas que não são excessivamente onerosos, devemos fazê-lo. Os desafios que enfrentamos podem parecer avassaladores, mas os passos que podemos dar são bastante concretos e simples. Se usar uma máscara salva vidas, deve-se usar uma máscara. Se doar 50 dólares, ou 100 dólares, ou 500 dólares, ou 10 porcento do seu rendimento — o que quer que razoavelmente se possa doar — às pessoas mais pobres do mundo salva vidas, devemos fazer isso caso tenhamos possibilidades. Não necessitamos de uma grande teoria de como resolver todo o problema para salvar uma vida. Podemos fazê-lo quando o mundo inteiro está do nosso lado e quando o mundo inteiro nos está a ignorar.  

Eis onde a teimosia de A Vida Que Podemos Salvar deixa de parecer uma limitação do livro e passa a ser sentida como a sua maior virtude. Em muitos aspectos, a pior coisa em 2020 foi o sentimento de impotência. E A Vida Que Podemos Salvar é um livro que persistentemente, repetidamente, ponto por ponto, refuta todas as nossas justificações para o sentimento de impotência. Existem problemas que parecem tão vastos e confusos que podemos querer acreditar que não podem ser os nossos problemas. Mas os desafios que os mais pobres do mundo enfrentam — doenças infecciosas, desnutrição, pobreza extrema — são fáceis de vencer se as organizações que os combatem tiverem os recursos de que precisam. E nós temos o poder de ajudar nessa luta.  

A Vida Que Podemos Salvar é intimidante porque argumenta que devemos ajudar as pessoas. Mas é fortalecedor porque argumenta que podemos ajudar as pessoas. No final de um ano moldado por forças que vão além do nosso controlo, essa epifania é uma dádiva.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Vox, a 11 de Dezembro de 2020.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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