Será que este é o século mais importante da história da humanidade?

Por Kelsey Piper (Vox)

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Este é o século mais importante de sempre? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

O século XXI é o século mais importante da história da humanidade.

Pelo menos é o que diz um certo número de pensadores. O argumento deles é bastante simples: essencialmente, é que existem enormes desafios que temos de superar este século para termos sequer um futuro, tornando este no século com as maiores consequências de todos até agora. Além disso, uma solução para esses desafios provavelmente significaria um futuro mais distante da destruição eminente — o que também torna este século mais crucial do que os séculos futuros.

Não vai há muito tempo — em 1945, com o primeiro uso de armas nucleares em tempos de guerra — a humanidade desenvolveu a capacidade de se destruir a si mesma. Desde então, apenas aperfeiçoamos essa capacidade. Actualmente, existem dezenas de milhares de armas nucleares e estamos a avançar a grande velocidade em direcção a outras maneiras que ameaçam a nossa civilização — desde as mudanças climáticas, à engenharia de pandemias, à inteligência artificial e a outras tecnologias futuras ainda mais especulativas.

“A menos que a nossa espécie se organize, só iremos conseguir sobreviver uns quantos séculos”, argumenta Toby Ord, filósofo de Oxford. Não é que seja garantido que qualquer uma dessas coisas nos destrua — mas, se cada ano tivermos um pouco de sorte em não haver uma guerra nuclear, um pouco de sorte em não haver uma pandemia global, um pouco de sorte em não haver um incidente perigoso de outro tipo. Eventualmente, a nossa sorte irá acabar.

Isso, de acordo com esta visão, faz deste um momento crucial na história — a época que se situa entre o momento em que inventámos maneiras de nos destruirmos e o momento em que (esperemos) inventamos alguma forma de estrutura ou governo que leve a que possamos resolver esses problemas de uma forma coordenada e sistemática, sem estarmos dependentes da sorte.

Esse argumento tem sido influente na promissora disciplina académica que estuda os riscos existenciais. Mas também tem os seus críticos. Um deles é o colega de Ord em Oxford, Will MacAskill, que argumentou recentemente que afinal provavelmente não estamos a viver na era mais importante da história.

A sua afirmação central é a seguinte: em quase todos os séculos de toda a história da humanidade, as pessoas que pensam que estão no século mais importante da história da humanidade, estarão erradas. Há 50 000 anos de história humana atrás de nós, e potencialmente mais centenas de milhares à nossa frente. Claro, agora podemos estar a enfrentar grandes crises, mas a ideia de que são as maiores crises que alguma vez enfrentaremos é, à partida, extremamente implausível.

Pode não parecer que isto tenha implicações importantes, mas tem. Se este é um século particularmente crítico, então centrarmo-nos nos desafios imediatamente diante de nós é a melhor coisa a fazer para o benefício do futuro a longo termo — por exemplo, gastar todos os nossos recursos nos esforços para enfrentar as maiores ameaças no horizonte. Se este não é um século crítico, então faz mais sentido centrarmo-nos em como podemos formar as gerações futuras — talvez estabelecendo novas instituições duradouras, financiando a investigação filosófica e ética e trabalhando para a educação das gerações futuras.

O argumento que defende a importância crítica deste século

“Vivemos num momento crucial da história”, argumentou o famoso filósofo britânico Derek Parfit no seu livro de 2011, On What Matters. “Dadas as descobertas científicas e tecnológicas dos últimos dois séculos, o mundo nunca mudou tão rapidamente. Em breve teremos poderes ainda maiores para transformar, não apenas o que está à nossa volta, mas a nós mesmos e aos nossos sucessores. Se nos próximos séculos agirmos com sabedoria, a humanidade sobreviverá ao seu período mais perigoso e decisivo.”

Existem três argumentos principais, identificados por MacAskill, de que estamos a viver um momento crítico na história da humanidade. O primeiro é o que apresentamos acima: chamemos-lhe o argumento do “tempo dos perigos”.

Antes, era impossível que a espécie humana se extinguisse a si mesma completamente. Os especialistas discordam sobre o quão desastrosa seria uma guerra nuclear, mas basta dizer que provavelmente isso já não é impossível — e fica mais fácil a cada ano que passa. Uma pandemia global comparável à de 1918 pode ser catastrófica para o mundo de hoje, e não há razão para pensar que a pandemia de 1918 seja a pior que pode acontecer. E pandemias criadas em laboratório podem ser ainda piores.

Outras formas de risco para a humanidade estão mais distantes. As alterações climáticas não tornarão a Terra inabitável, mas certamente podem torná-la mais frágil, menos resistente, menos coordenada globalmente e mais vulnerável a novas formas de abalar o ecossistema ou o ambiente geopolítico. Investigadores de inteligência artificial discordam se a tecnologia de IA transformadora será desenvolvida em dez anos ou em 200, mas muitos concordam que, quando chegar, a menos que seja concebida cuidadosamente, será catastrófica.

“Actualmente, estamos num momento muito especial para os padrões da história da humanidade, em que as nossas acções podem destruir o mundo, ou pelo menos é muito plausível que possam”, argumenta Ord. Para ser claro, ele não tem a certeza de que esse período tão especial tenha exactamente um século; poderá, disse-me ele, durar facilmente várias centenas de anos. Mas não pode durar para sempre. Se sobrevivermos todos os anos apenas por sorte, virá um ano em que teremos azar. Por esse motivo, os investigadores dos riscos existenciais esperam que possamos acabar inteiramente com a situação global que produz tais riscos, em vez de apenas tentarmos sobreviver aos perigos que surgem ano após ano. Se o fizéssemos, isso teria um efeito enorme e decisivo no futuro.

Esta é uma linha de argumentação relevante para a importância deste século. Mas não é a única. Uma outra linha de argumentação? A visão de “fixar valores”. No geral, a visão de fixar valores argumenta que existem algumas maneiras, através das quais, num futuro próximo, poderemos fixar um percurso específico que afectará os seres humanos num futuro mais distante. E, se fizermos isso, precisamos de garantir que não deixamos de fora o potencial para o progresso moral futuro.

Alguns investigadores acreditam que o desenvolvimento de tecnologias mais avançadas envolverá abdicar de muitas das questões mais importantes sobre os valores humanos — colocando essas questões, efectivamente, fora do controlo humano. Se programarmos o primeiro sistema avançado de computação para partilhar dos nossos valores, é isso que fará, mesmo se depois decidirmos que queremos algo diferente.

A maioria dos investigadores preocupados com “fixar valores” estão a pensar na inteligência artificial. Mas há uma forma mais geral do argumento. MacAskill resume-a como “o ponto mais crucial no tempo é quando desenvolvermos técnicas de engenharia das motivações e dos valores da geração seguinte (tais como através de IA, mas talvez também através de outras tecnologias, como a engenharia genética ou tecnologia avançada de lavagem cerebral).” Ou, se uma ditadura suficientemente autoritária e poderosa surgir, a criação de novas tecnologias pode significar que as gerações futuras sejam impotentes para a derrubar ou reformular.

Tudo isso soa como algo definitivamente no reino da ficção científica. Mas a ficção científica de 2019 pode ser os verdadeiros problemas sociais de 2100 — um século é muito tempo.

Há uma última linha de argumentação sobre o que torna este momento incomum. Durante a maior parte da história, o mundo inteiro não se conseguia coordenar em torno de um plano de acção — mesmo se este gerasse acordo. As tecnologias de comunicação global mudaram isso. Durante a maior parte da história, o crescimento económico foi lento ou inexistente. Agora, há um crescimento económico rápido e transformador, e algumas pessoas pensam que é impossível sustentar isso até ao futuro distante. Tudo isso faz deste um momento incomum — e talvez um momento em que as pessoas determinadas a mudar o mundo estejam excepcionalmente capacitadas para o fazer.

Por que é que temos muita concorrência para o século mais importante

Bom, estes são os argumentos a favor de que este é o momento mais importante da história. Mas quais são os argumentos contra?

O argumento de MacAskill é o seguinte. A história humana pode estender-se por milhares de milhões [Br. biliões] de anos e já se estendeu por dezenas ou centenas de milhares (dependendo de quando é que se começa a contar as civilizações como parte relevante da história humana). Então, argumenta ele, se estamos a tentar descobrir quando é o século mais crítico da história, devemos pensar em todos esses milhares de milhões [Br. biliões] de anos potenciais.

“De todos esses anos, há apenas um momento que é o mais influente. De acordo com [a hipótese], esse momento é… agora mesmo. Se isso for verdade, isso pareceria uma coincidência extraordinária, o que nos deveria fazer suspeitar de qualquer raciocínio que nos tenha levado a essa conclusão”, diz ele.

Esta é outra maneira de pensar sobre isso: os poucos parágrafos acima defendem que esta é uma era de importância única. Mas pode-se facilmente imaginar um artigo da Vox em 1750 a defender que o século seguinte seria uma era de importância única — afinal de contas, no final desse século, a América seria independente, o comércio internacional de escravos terminaria, a Revolução Francesa e a era Napoleónica a avançar para abalar catastroficamente a Europa. Um século depois disso, uma série de revoluções democráticas em toda a Europa levou a que muitos dos autocratas da época pensassem nesse como o momento mais importante de toda a história.

Um artigo da Vox na época do colapso do Império Romano teria muito boas razões para falar sobre a era mais importante da história da humanidade. E o que dizer das eras em que as principais religiões do mundo foram fundadas?

E isso foi antes de sequer começarmos a pensar no futuro distante. Talvez a Vox em 3400 defenda, através de qualquer canal de comunicação popular em 3400, que a decisão de como colonizar a galáxia de Andrómeda é o momento mais importante da história da humanidade.

Claro, temos alguns argumentos muito bons para a importância da nossa época. Mas… não tem toda a gente? Os argumentos para o século XXI são realmente muito mais fortes do que os argumentos para o século I ou para os séculos que aí vêm?

Sob essa visão, com certeza, temos pela frente alguns desafios sérios. Mas é um erro pensar que estamos num momento único da história. Existem todos os motivos para pensar que os desafios a enfrentar nos séculos futuros serão igualmente significativos.

Por que importa o quanto este século importa

É fácil ver este debate como excessivamente abstracto. O que importa se estamos no século mais importante da história ou apenas num século muito importante que, estatisticamente falando, provavelmente será superado por outro daqui a milhões de anos?

Certamente há algo pertinente nessa observação. Os filósofos que debatem este assunto discordam relativamente pouco. Concordam que há algumas provas de que este século é excepcionalmente importante (embora discordem sobre se serão provas suficientes para superar a improbabilidade inerente). Quase todos querem muito mais recursos dedicados ao combate contra os riscos existenciais, ou coisas que nos possam destruir nos próximos séculos. Quase todos pensam que uma das grandes falhas morais da nossa geração é o nosso fracasso em garantir que haverá uma próxima geração.

Mas também não é apenas um argumento filosófico abstracto. Se este é o momento crucial da história da humanidade, fundações que existirão por séculos não são uma prioridade. Se for melhor deixar os maiores problemas da humanidade para os nossos netos e para os seus netos, não parecerá muito estranho tentar estabelecer instituições humanas duradouras com o poder de influenciar gerações sucessivas. Se este for o momento crítico, o saldo dos nossos esforços provavelmente deve ser gasto menos em questões de prioridades a longo termo e mais em acções — como esforços políticos para reverter o curso de actividades humanas perigosas e investigação sobre como mitigar os perigos imediatos de ameaças actuais.

Algumas pessoas que estudam o futuro distante acham que precisamos principalmente de intervenções direccionadas para beneficiar o futuro distante. Uma intervenção direccionada é algo como impedir um asteróide de atingir a Terra. Outros preferem maneiras muito amplas de ajudar o futuro distante, como tornar a população mais altruísta, instruída ou solidária, acreditando que, quaisquer que sejam os problemas que lhes surjam, essas coisas provavelmente ajudarão. A questão de saber se este século é único — ou pelo menos altamente incomum — pode afectar se parecem ser melhores as intervenções direccionadas ou as amplas.

Em resumo, o modo como pensamos sobre as ameaças deste século pode afectar significativamente a maneira como lidamos com as ameaças deste século. E já que — aqui, todos os investigadores concordam — há muitos desafios à nossa frente, queremos ter certeza de que estamos a enfrentá-los correctamente.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Vox, a 26 de Setembro de 2019.

Tradução de Luís Campos. Revisão de José Oliveira.

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