As Vidas Que Salvamos

 Por Peter Singer (The Life You Can Save)

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Quantas vidas salvamos? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Leif Tuxen e Catherine Low)

Há uma década, escrevi A Vida Que Podemos Salvar: agir agora para pôr fim à pobreza no mundo [Br. Quanto Custa Salvar uma Vida]. Este mês, uma edição totalmente revista comemorativa do décimo aniversário foi publicada e está disponível, gratuitamente, na sua versão digital e áudio. Os capítulos do audiolivro são lidos por celebridades, que incluem Paul Simon, Kristen Bell, Stephen Fry, Natalia Vodianova, Shabana Azmi e Nicholas D’Agosto. Fazer a revisão do livro levou-me a reflectir sobre o impacto que este teve, enquanto que a pesquisa envolvida na sua actualização fez com que me concentrasse naquilo que mudou nos últimos dez anos.

O livro argumenta que, para pessoas da classe média que vivem em países ricos, cumprir as regras morais tradicionais que se opõe a mentir, roubar, mutilar ou matar, não é o suficiente. Viver eticamente no mundo interligado de hoje envolve ajudar pessoas que, sem culpa alguma, estão a sofrer de maneiras que poderíamos prevenir ou aliviar facilmente.

O livro influenciou muitos leitores a mudar as suas vidas. Entre eles estava Cari Tuna que, com o seu marido, Dustin Moskovitz, co-fundador do Facebook e da Asana, criou uma fundação à qual doaram milhares de milhões [Br. bilhões] de dólares com o intuito de fazer o maior bem possível. Forneceram financiamento à GiveWell, permitindo que esta expandisse a sua equipa de pesquisadores que avaliam rigorosamente instituições de caridade para encontrar aquelas que salvam ou melhoram o maior número de vidas por cada dólar.

Charlie Bresler estava no auge da sua carreira no sector das vendas quando se deparou com uma cópia do The Life You Can Save [Pt. A Vida Que Podemos Salvar / Br. Quanto Custa Uma Vida]. A leitura despertou uma profunda insatisfação com um trabalho que, apesar de todas as suas recompensas financeiras, não estava de acordo com os seus valores fundamentais. Naquela época, o livro deu origem a uma organização, também chamada The Life You Can Save, mas não tinha funcionários a trabalhar a tempo inteiro e não estava a realizar grande coisa.  

Charlie entrou em conctato comigo com uma oferta: estava disposto a assumir a tarefa de transformar a organização em algo que pudesse efectivamente difundir as ideias contidas no livro. O que tornou a oferta boa demais para se recusar foi que ele não queria ser pago pelo seu tempo – na verdade, Charlie e a sua esposa, Diana, têm sido doadores substanciais para a The Life You Can Save. Como resultado, a organização agora está a direccionar muitos doadores e milhões de dólares para as organizações sem fins lucrativos mais eficazes.

O que aconteceu com a pobreza extrema na década desde a publicação da primeira edição? Para responder a essa pergunta, questionemos primeiro o que é a pobreza extrema. Conforme a definição do Banco Mundial, viver em pobreza extrema é não ter rendimento suficiente para atender às suas necessidades básicas e às dos seus familiares dependentes. A edição de 2009 do meu livro refere-se a 1,4 mil milhões [Br. 1,4 bilhão] de pessoas a viver abaixo dessa linha. A boa notícia é que, apesar do crescimento contínuo da população mundial, esse número desceu quase para metade, para 736 milhões.

Essa descida encorajadora na pobreza extrema está a par de um número, talvez ainda mais significativo. Todos os anos, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) publica a sua estimativa do número de crianças que morrem antes do seu quinto aniversário. A maioria dessas mortes está relacionada com a pobreza extrema e as suas consequências, incluindo a desnutrição, falta de água potável e saneamento, doenças como a malária e a ausência de cuidados mínimos de saúde. Na primeira edição, a estimativa de mortes de crianças mais actualizada era de 9,7 milhões. Agora, desceu para 5,4 milhões.

Para colocar em perspectiva esse sucesso extraordinário, suponha que um Airbus A380, com uma criança em cada assento, está prestes a cair, matando todos a bordo. Mas de alguma forma, com grande destreza, o piloto consegue aterrar o avião em segurança. Uma história destas estaria em toda a comunicação social, e o piloto seria considerado um herói.

Agora, imagine que os pilotos de 21 aviões A380 completamente cheios informam os controladores aéreos que provavelmente se vão despenhar. À medida que as notícias se espalham rapidamente, as pessoas percebem que mais de 10 000 crianças podem morrer. Todos nós estaríamos colados às últimas notícias, esperando que pelo menos algumas crianças fossem salvas. Que sensação de alívio teríamos se, de alguma maneira, todas fossem salvas!  

Bom, esse é aproximadamente o número de crianças – 11 780, para ser exacto – cujas vidas foram salvas e são salvas todos os dias pela redução da mortalidade infantil nos últimos dez anos.

Nem todo esse ganho é resultado da ajuda internacional. A maior parte foi provocado pelo crescimento económico, especialmente na China e no sul da Ásia. Mas a ajuda internacional, quando é bem pensada, cuidadosamente implementada e, o mais importante, testada e verificada no terreno de forma independente, desempenha um papel importante. Com um custo extraordinariamente baixo, pode salvar vidas, prevenir ou curar a cegueira, melhorar a nutrição, dar educação às crianças e permitir que as pessoas iniciem pequenos negócios.

Para saber como poderá ajudar as pessoas que vivem em pobreza extrema, receba agora a sua edição gratuita do livro The Life You Can Save em https://www.thelifeyoucansave.org/the-book/.  


Publicado por Peter Singer no blog da The Life You Can Save, a 12 de Dezembro de 2019.

Tradução de José Oliveira.

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