Amamos a nossa família do modo errado?

Por Celso Vieira

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Amamos a nossa família de modo errado? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Introdução

Véspera de natal, segundo o costume, é aquela época de reforçar os laços com aqueles que amamos e, além disso, a proximidade com a passagem de ano traz o momento oportuno de se renovar as esperanças. Na prática, as coisas costumam ser menos ideais. As festas de fim de ano por vezes trazem, no turbilhão de emoções, um certo desconforto diante dos sinais tão claros do uso questionável que fazemos do excesso de recursos que nos estão disponíveis. Testemunhar crianças, jovens e adultos desembrulhando presentes caríssimos faz pensar se há algo de errado no modo como demonstramos o nosso amor pelos nossos.

Se adotarmos um ponto de vista imparcial, fica fácil encontrar uma série de argumentos sobre a falta de justificação para privilegiarmos, em um grau tão alto, o bem-estar dos nossos enquanto negligenciamos o sofrimento daqueles que estão fora desse grupo. Mas a minha proposta será outra. O objetivo desse texto será de avançar argumentos prudencialistas que questionam o modo exagerado como agimos para assegurar o bem-estar dos nossos. Em outras palavras, mesmo se pensarmos que o bem-estar dos nossos possui um valor desmesuradamente mais alto do que o bem-estar dos outros, parece que o modo como privilegiamos os nossos está errado.

Um caso típico

O caso típico da situação que eu quero explorar pode ser colocado no seguinte cenário. Damião e Janira acabaram de ter o primeiro filho. Essa experiência muda de maneira drástica a sua postura diante da vida. A cada decisão, eles tomam como maior conselheiro o peso da responsabilidade de ter alguém cujo futuro depende deles. Em vista disso, eles passam a economizar uma quantia maior dos seus rendimentos. Ademais, ao pensarem sobre a sua carreira profissional, suas preferências pessoais ficam em segundo plano e eles passam a privilegiar ocupações que possam lhes propiciar um rendimento maior. Afinal de contas, isso vai se traduzir em uma herança maior e um futuro melhor para os seus dependentes.

Qualquer variação próxima a esse cenário descreve uma opção prudencialista. O prudencialismo consiste em pautar as suas escolhas seguindo um princípio de precaução contra efeitos negativos futuros. É uma questão empírica determinar o quanto dessa narrativa é verdadeira. Apesar de ser muito utilizada, há grandes chances de que essa narrativa reflita apenas a nossa tentativa de justificar escolhas mais egoístas sem termos que abrir mão da boa imagem que temos de nós mesmos. Esse é um dos motivos pelo qual há quem prefira chamar o prudencialismo de egoísmo. Assim se engloba uma outra dimensão que parece ser característica desse tipo de comportamento. A motivação das escolhas não parece se restringir à necessidade de se evitar os efeitos negativos. Essa motivação também se aplica à maximização dos efeitos positivos, como no caso do presente exagerado de natal descrito acima. De qualquer maneira, como o prudencialismo é mais circunscrito, e mais defensável, que o egoísmo, o argumento vai se dirigir a ele. Assim, se a crítica funcionar, funcionará ainda mais contra o egoísmo.

Críticas externas

Mesmo posições que são críticas ao prudencialismo parecem assumir e endossar a visão ilustrada pelo cenário acima. O que os críticos questionam não é a plausibilidade interna do prudencialismo, mas sim o seu âmbito reduzido. Assim, estamos certos ao fazer o que fazemos para privilegiar os nossos. O erro estaria em nos limitarmos apenas aos nossos. Por exemplo, no argumento da expansão do círculo, encontrado em fontes antigas e contemporâneas, se assume que devemos tomar a preocupação que temos relativamente aos nossos familiares e amigos e ampliá-la para considerar também aqueles que estão mais afastados, sejam concidadãos, estrangeiros e, também, os animais.

Tipos de bens

O argumento pode ser colocado em termos de uma analogia. Imagine que você fica sabendo que vai morrer em poucos dias e que tem duas opções sobre a herança para deixar para o seu filho:

a) um bilhete premiado de loteria ou

b) um traço comportamental positivo.

O argumento da curva

A diferença, portanto, é que em um caso você dá dinheiro e, no outro, dá um modo de agir. As duas opções têm propriedades distintas. O dinheiro, sem a habilidade de administrá-lo, obedece a uma rota decrescente, ou seja, é um recurso cujo uso o diminui. O traço comportamental positivo, por sua vez, obedece a uma rota crescente. Usar esse tipo de recurso o reforça.

O argumento do exagero

E se imaginássemos que essas duas situações eram quantias inesgotáveis? A vantagem ainda parece ser do traço comportamental. Uma quantia inesgotável de dinheiro pode ser problemática na medida em que pode dar recursos para a pessoa satisfazer desejos que a prejudicam. É claro que o excesso de recursos pode possibilitar a essa pessoa a procura de ajuda para que possa corrigir o seu comportamento. Porém, nesse caso, o que ele está fazendo é justamente adquirir os traços positivos. Assim, há uma assimetria na relação pois, o bem do dinheiro parece depender dos traços positivos enquanto que os traços positivos não dependem do dinheiro. Pode se pensar ainda que um traço comportamental positivo em excesso também pode acabar sendo prejudicial. Pensemos em um altruísta tão extremo que acaba prejudicando a si e à sua família. Porém, nesse caso, não se trataria de um traço positivo, mas sim de algum tipo de distúrbio. Afinal de contas, haveria um desvio em ele não se importar consigo e com os seus. Ter o altruísmo como recurso ilimitado parece criar as condições ideais para se tentar fazer o maior bem: altruísmo eficaz.

Quais traços?

É claro que para o argumento fazer sentido na prática, será preciso definir quais são esses tais ‘traços comportamentais positivos’. Isso é uma questão empírica. Hoje em dia, o campo da psicologia positiva se ocupa de tentar determinar quais são os traços que parecem ter uma maior influência no bem-estar das pessoas. Grosso modo, parece que quando nos preocupamos com os outros (ou seja, quando temos uma atitude altruísta) e quando nos comprometemos com metas morais, isso tem uma relação positiva com um aumento no bem-estar reportado.

Agora podemos retirar o aspecto trágico do cenário acima. Imagine que, como a maioria dos pais, você não está à beira da morte. Antes de qualquer coisa, mesmo do ponto de vista egoísta, o que você deseja deixar para o seu filho no cenário acima deve ser também o que você deveria almejar para si. Já observarmos a questão do ponto de vista prudencialista, o que se segue é: que bens, em termos de traços comportamentais, e, especificamente, traços altruístas, parecem ser uma das melhores coisas que podemos oferecer para aqueles que amamos? E daí a questão empírica que se segue é: será possível transmitir esses traços e, caso a resposta seja afirmativa, como fazê-lo?

Aprendizagem por exposição

Mais uma vez, é a psicologia que se ocupa de responder a essa questão complexa. O campo que nos interessa agora é aquele que investiga a educação de caráter, principalmente a formação de comportamento pro-social. Em uma meta-revisão dos estudos na área, Berkowitz et al. concluíram que 88% dos estudos analisados geraram resultados positivos na educação do caráter. As quatro atividades mais recorrentes nesses programas foram: 1) pais e professores servindo de modelo para a promoção dos traços em questão; 2) oportunidades para as crianças e jovens se envolverem em atividades pro-sociais; 3) promover uma comunidade de apoio pessoal e relações sociais positivas; 4) fornecer um ambiente seguro. As duas primeiras, sendo as mais ativas, se resumem a dar o exemplo e a incentivar para que se siga o exemplo. Agora temos as informações necessárias para concluirmos o argumento.

Conclusão

Nesse fim de ano, se você for visitar a família na sua cidade natal e caso se depare com algum casal que conhece há muito tempo, convém estar preparado. Diante de uma pergunta sobre quais são as novidades, ambos podem muito bem olhar para a barriga dela, e, em seguida, revelar que, como vão ter um filho, decidiram economizar menos e doar mais, e/ ou abandonar o emprego que gerava um maior rendimento para se dedicarem a uma área que tem mais chances de gerar uma influência positiva no mundo. A sua reação não deve ser olhá-los como se fossem excêntricos. Afinal de contas, a opção prudencialista, e até mesmo a egoísta, diante da perspectiva de constituir uma família parece ser menos a acumulação monetária e mais a dedicação a um conjunto de comportamentos pro-sociais, inclusive ajudar aqueles fora do seu círculo pessoal.

Desejo um fim de ano bem reflexivo a todos! Rituais são importantes e o sentimento de união especial também. Refletir criticamente sobre eles não diminui, mas antes potencializa o seu valor.


Texto de Celso Vieira.

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