Empatia Radical

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Quem merece empatia? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Um tema do nosso trabalho é tentar ajudar as populações que muitos acham que não merecem ajuda sequer. Vimos grandes oportunidades de melhorar o bem-estar de animais da pecuária industrial, porque pouquíssimos outros estão a tentar fazê-lo. Ao trabalhar em reforma da imigração, vimos grandes debates sobre como a imigração afeta os salários das pessoas já residentes nos EUA e muito menos discussão de como isso afeta os imigrantes. Até nosso interesse em saúde e desenvolvimento global é bastante incomum: muitos americanos podem concordar que os dólares doados fazem mais no exterior, mas preferem doar internamente, porque priorizam fortemente as pessoas do seu próprio país, por comparação com as pessoas do resto do mundo.1

A pergunta: “Quem merece empatia e preocupação moral?” é central para nós. Pensamos que é uma das questões mais importantes em geral e para doar de modo eficaz. Infelizmente, não pensamos que se possa confiar na sabedoria e intuição convencionais sobre o assunto: a história tem muitos casos em que populações inteiras foram ignoradas, maltratadas e privadas de direitos básicos por razões que se encaixavam na sabedoria convencional da época, mas hoje são indefensáveis. Em vez disso, aspiramos à empatia radical: trabalhar arduamente para estender a empatia a todos aqueles a quem deveria ser estendida, mesmo quando é incomum ou parece estranho fazê-lo.

Para esclarecer a escolha de terminologia:

  • “Radical” no sentido oposto a “tradicional” ou “convencional”. Não significa necessariamente “extrema” ou “totalmente inclusiva”: não estendemos a empatia a tudo e a todos (isto nos deixaria essencialmente sem  base para tomar decisões sobre moralidade). Refere-se a trabalhar arduamente com o intuito de fazer as melhores escolhas que pudermos, sem nos ancorarmos à convenção.
  • “Empatia” destina-se a captar a ideia de que poderíamos imaginar-nos na posição do outro, e reconhecer o outro como tendo experiências que merecem consideração. Não se destina a referir-se a sentir literalmente o que outro sente e, portanto, é distinto da “empatia” criticada em Against Empathy [“Contra a Empatia”] (um livro que reconhece os múltiplos significados do termo e que se centra explicitamente em um).

1 – A sabedoria e intuição convencionais não são suficientemente boas

Em The Expanding Circle [“O Círculo em Expansão”], Peter Singer discute como, ao longo da história, “O círculo do altruísmo se alargou da família e da tribo para a nação e a raça… para todos os seres humanos” (e acrescenta que “O processo não deve parar por aí”).2 Segundo os padrões atuais, os primeiros casos que ele descreve são impressionantes:

Inicialmente, a distinção vizinho/forasteiro se aplicava mesmo entre os cidadãos de cidades-estado gregas vizinhas; portanto, há uma lápide do século V a.C onde se lê:

Este memorial é colocado sobre o corpo de um homem muito bom. Pythion, de Megara, que matou sete homens e quebrou sete pontas de lança em seus corpos… Este homem, que salvou três regimentos atenienses… não tendo trazido tristeza a ninguém entre todos os homens que habitavam na terra, desceu ao submundo agraciado aos olhos de todos.

Isso é bastante consistente com o modo cômico em que Aristófanes trata a fome dos inimigos dos atenienses que eram gregos, fome esta resultante da devastação que os próprios atenienses infligiram. Platão, no entanto, sugeriu um avanço sobre esta moralidade: argumentou que os gregos, na guerra, não deveriam escravizar outros gregos, arrasar suas terras ou destruir suas casas; deveriam fazer tais coisas somente a não-gregos. Esses exemplos poderiam ser multiplicados quase indefinidamente. Os antigos reis assírios gravaram em pedra, orgulhosamente, como haviam torturado seus inimigos não assírios e coberto os vales e montanhas com seus cadáveres. Os romanos olharam para os bárbaros como seres que poderiam ser capturados como animais para serem escravos ou para entreter as multidões matando-se uns aos outros no Coliseu. Nos tempos modernos, os europeus pararam de se tratar dessa maneira, mas há menos de duzentos anos, alguns ainda consideravam os africanos como excluídos dos limites da ética e, portanto, um recurso que deveria ser capturado e posto a trabalhar de forma útil. Da mesma forma, os aborígenes australianos foram, para muitos dos colonizadores iniciais da Inglaterra, uma espécie de praga, para serem caçados e mortos sempre que mostravam ser um incômodo.3

O fim da citação transita para falhas da moralidade mais recentes e familiares. Nos últimos séculos, o racismo extremo, o sexismo e outras formas de intolerância — incluindo a escravidão — foram praticadas de forma explícita e sem desculpas e muitas vezes amplamente aceites pelas pessoas mais respeitadas na sociedade.

Do ponto de vista atual, estes parecem comportamentos extraordinariamente vergonhosos, e as pessoas que precocemente os rejeitaram — como os precursores do abolicionismo e do feminismo — parecem ter feito uma quantidade extraordinária de bem. Mas à época, observar a sabedoria e intuição convencionais não ajudaria necessariamente a evitar comportamentos vergonhosos ou a procurar os que seriam úteis.

As normas de hoje parecem superiores em alguns aspectos. Por exemplo, o racismo é muito mais raramente defendido explicitamente (o que não quer dizer que raramente seja praticado). No entanto, pensamos que as normas atuais ainda são fundamentalmente inadequadas para a questão de quem merece empatia e preocupação moral. Um sinal disso é o discurso nos EUA em torno dos imigrantes, que tende a evitar o racismo explícito, mas muitas vezes abraça o nacionalismo — para excluir ou minimizar os direitos e preocupações de pessoas que não são cidadãos americanos (e ainda mais no caso das pessoas que não estão nos EUA, mas gostariam de estar).

1.1 – Intelecto vs. emoção

Às vezes, ouço a opinião segundo a qual as atrocidades morais tendem a surgir do ato de pensar sobre a moralidade de forma abstrata, perdendo-se assim a visão da base emocional para a empatia e distanciando-nos das pessoas afetadas pelas nossas ações.

Acho que isso é verdade em alguns casos, mas significativamente falso em outros. As pessoas vivendo vidas pacíficas em geral chocam-se facilmente com a violência, mas parece que essa sensação pode ser superada de maneira perturbadoramente rápida com a experiência. Há amplos exemplos ao longo da história em que um grande número de pessoas “convencionais” casualmente, e até mesmo com satisfação, praticaram diretamente crueldade e violência sobre aqueles cujos direitos não reconheciam.4 Hoje, observando o descuido com que os trabalhadores da pecuária industrial lidam com animais (como mostrado neste vídeo tenebroso), suspeito que as pessoas comeriam muito menos carne se tivessem que, elas mesmas,  matar os animais. Não acho que o essencial é se as pessoas veem e sentem as conseqüências de suas ações. Mais importante é se elas reconhecem aqueles afetados por suas ações como seres afins, merecedores de consideração moral.

No lado oposto, parece haver pelo menos algum precedente em usar o raciocínio lógico para chegar a conclusões morais que parecem surpreendentemente proféticas em retrospectiva. Por exemplo, veja a Wikipédia sobre Jeremy Bentham, que é conhecido por basear sua moral na lógica direta e quantitativa do utilitarismo:

Defendeu a liberdade individual e econômica, a separação da igreja e do Estado, a liberdade de expressão, a igualdade de direitos das mulheres, o direito ao divórcio e a descriminalização dos atos homossexuais. [Nota da minha autoria: ele viveu de 1747 a 1832, muito antes de a maioria dessas opiniões serem comuns.] Apelou à abolição da escravidão, à abolição da pena de morte e à abolição do castigo físico, inclusive o das crianças. Também se tornou conhecido nos últimos anos como um dos primeiros defensores dos direitos dos animais.

2 – Aspiração à empatia radical

Quem merece empatia e preocupação moral? Na medida em que respondermos a esta questão de forma errada, corremos o risco de fazer escolhas atrozes. Se conseguirmos responder-lhe corretamente até um grau incomum, poderemos ser capazes de fazer o bem em proporções enormes.

Infelizmente, não pensamos ser necessariamente fácil acertar e estamos longe da convicção de que o estamos fazendo. Mas aqui estão alguns princípios que tentamos seguir ao fazer nossa melhor tentativa:

Reconhecer a nossa incerteza. Por exemplo, estamos bastante incertos sobre como encaixar os animais na nossa estrutura moral. Minhas próprias reflexões e raciocínio sobre a filosofia da mente pareciam apontar, até agora, contra a ideia que, por exemplo, as galinhas merecem preocupação moral. E minhas intuições valorizam os seres humanos de forma astronômicamente maior. No entanto, não acho que minhas reflexões ou minhas intuições sejam altamente confiáveis, especialmente porque muitas pessoas ponderadas discordam. E se as galinhas realmente merecem uma preocupação moral, a quantidade e extensão dos seus maus tratos são assustadores. Tendo em mente a diversificação da visão de mundo, não quero que deixemos passar as oportunidades potencialmente consideráveis ​​de melhorar o seu bem-estar.

Penso que a incerteza que temos sobre este ponto merece a alocação de recursos significativos no bem-estar dos animais da pecuária industrial, bem como trabalhar para evitar, de modo geral, a linguagem que implique que somente humanos sejam moralmente relevantes.5

Dito isto, não me sinto inseguro acerca de todas as nossas escolhas incomuns. Estou confiante de que as diferenças na geografia, na nacionalidade e na raça não devem afetar a preocupação moral, e nossas doações devem refletir isso.

Ser extremamente cuidadoso ao descartar demasiado rápido argumentos “estranhos” sobre este tópico. Um número relativamente pequeno de pessoas argumentam que insetos e, até mesmo, alguns algoritmos executados em computadores atuais, merecem uma preocupação moral. É fácil e intuitivo rir desses pontos de vista, já que parecem tão estranhos de antemão e têm implicações tão radicais. Mas, como argumentado acima, penso que devemos ser altamente desconfiados face aos nossos instintos ao descartar pontos de vista incomuns sobre quem merece uma preocupação moral. E o risco pode certamente ser alto se esses pontos de vista se revelarem mais razoáveis ​​do que parecem de início.

Até agora, permaneço cético de que os insetos ou quaisquer algoritmos ativos nos computadores atuais, sejam fortes candidatos para merecer uma preocupação moral. Mas acho que é importante manter uma mente aberta.

Explorar a ideia de suportar análises mais profundas. Luke Muehlhauser está atualmente explorando o estado atual de pesquisa e argumentação sobre a questão de quem merece uma preocupação moral (ao qual ele chama de questão da paciência moral). É possível que, se identificarmos lacunas na literatura e oportunidades para nos tornarmos mais informados, recomendemos o financiamento de novos trabalhos. No futuro próximo, o trabalho nesse sentido poderá afetar nossas prioridades dentro do bem-estar dos animais da pecuária industrial por exemplo, poderia afetar a forma como priorizamos o trabalho centrado na melhoria do tratamento de peixes. Idealmente, nossos pontos de vista sobre a paciência moral seriam fundamentados por uma extensa literatura com base, tanto quanto possível, em reflexão profunda, investigação empírica e argumentação de princípios.

Não nos limitarmos às “questões de fronteira”. Problemas amplamente reconhecidos ainda causam grandes danos. Em nosso trabalho, muitas vezes nos encontramos centrados em metas não convencionais para doações de caridade, tais como o bem-estar dos animais da pecuária industrial e riscos potenciais da inteligência artificial avançada. Isso porque muitas vezes descobrimos que oportunidades de fazer quantidades desmesuradas de bem são em áreas que foram, em nossa opinião, relativamente negligenciadas por outros. No entanto, nosso objetivo é fazer o maior bem que podermos e não procurar e apoiar aquelas causas mais “radicais” em nossa sociedade atual. Quando vemos grandes oportunidades para desempenhar um papel a enfrentar danos em áreas mais amplamente reconhecidas por exemplo, no sistema de justiça criminal dos EUA nós as aproveitamos.

 

Notas de rodapé

1. Por exemplo, de acordo com dados de Giving USA, apenas aproximadamente 4% da doação dos EUA em 2015 se centrou em ajuda internacional. (Reportado por Charity Navigator aqui .)
2. Página 120.
3. Páginas 112-113.
4. Muitos exemplos estão disponíveis no primeiro capítulo de Os Anjos Bons da Nossa Natureza (Pt aqui).
5. Como nota lateral, muitas vezes é complicado evitar tal linguagem. Geralmente, usamos o termo “pessoas” quando queremos referir-nos a seres que merecem uma preocupação moral, sem  julgar previamente se tais seres são humanos e também sem causar muita distração para leitores casuais. Um termo mais preciso é “Pacientes morais“.


Texto de Holden Karnofsky originalmente publicado no site do Open Philanthropy Project, em 16 de fevereiro de 2017.

Tradução de Ronaldo Batista e revisão de José Oliveira.

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