Objecções ao altruísmo eficaz

Por EA Forum

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Quais as objecções ao Altruísmo Eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Será que o altruísmo eficaz consiste apenas em ganhar dinheiro e doá-lo à caridade?

No passado, a comunidade cometeu o erro de se associar demasiado com “ganhar para dar”. A maioria de nós ainda pensa que esta é uma boa estratégia para algumas pessoas, particularmente aqueles que pessoalmente se adequem a carreiras altamente remuneradas. Mas doar à caridade não é a única maneira de ter um grande impacto. Muitas pessoas podem fazer ainda melhor usando as suas carreiras para ajudar os outros mais directamente. Muitas pessoas na comunidade fazem as duas coisas.

Mas continuamos a acreditar que doar às instituições de caridade certas é uma forma de poder fazer uma enorme diferença. É também uma forma em que há provas relativamente fortes disponíveis, porque havia investigação já existente para se desenvolver.

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Será que o altruísmo eficaz é o mesmo que o utilitarismo? E se eu não for um utilitarista?

Os utilitaristas normalmente são entusiastas do altruísmo eficaz. Mas muitos altruístas eficazes não são utilitaristas e preocupam-se intrinsecamente com outras coisas para além do bem-estar, tais como a violação de direitos, a liberdade, a desigualdade, a virtude pessoal e muito mais. Na prática, a maioria das pessoas dá algum peso a uma série de diferentes teorias éticas.

A única posição ética necessária para o altruísmo eficaz é acreditar que ajudar os outros é importante. Ao contrário do utilitarismo, o altruísmo eficaz não implica necessariamente que fazer tudo o que é possível para ajudar os outros é obrigatório, e não defende a violação dos direitos das pessoas, mesmo que isso levasse às melhores consequências.

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Será que o altruísmo eficaz negligencia as mudanças sistémicas?

Algumas pessoas pensam que o altruísmo eficaz está demasiado preocupado com soluções do tipo “paliativo”, como intervenções de saúde directas sem questionar seriamente as causas sistémicas mais vastas de questões globais importantes. Muitas pessoas acreditam que o capitalismo desenfreado, a desigualdade de riqueza, a cultura de consumo, ou a sobrepopulação, contribuem significativamente para a quantidade de sofrimento no mundo, e que as tentativas de tornar o mundo melhor que não abordam estas causas de raiz são insignificantes ou estão equivocadas.

É certamente verdade que inicialmente o altruísmo eficaz se concentrava em abordagens “comprovadamente” eficazes, tais como a multiplicação de tratamentos de saúde rigorosamente testados. Estas fornecem uma boa base de referência contra a qual podemos avaliar outras abordagens, mais especulativas. Contudo, à medida que nos tornamos mais competentes na avaliação daquilo que funciona e daquilo que não funciona, muitos na comunidade estão a mudar para abordagens que envolvem mudanças sistémicas.

É importante lembrar que as opiniões estão fortemente divididas sobre se os sistemas como a globalização do comércio ou as economias de mercado são negativas ou positivas em termos líquidos. Também não é claro se podemos alterar substancialmente esses sistemas de forma a que não tenham consequências imprevistas muito más.

Esta diferença de opinião reflecte-se no seio da própria comunidade. O altruísmo eficaz implica ter a mente aberta — devemos tentar evitar ser dogmáticos ou demasiado apegados a uma ideologia particular. Devemos avaliar todas as alegações sobre como fazer a diferença com base nas provas disponíveis. Se houver algo que possamos fazer que pareça causar uma grande diferença positiva líquida, então devemos tentar alcançá-lo.

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Se todos seguissem o que o altruísmo eficaz recomenda, isso não levaria a uma má distribuição de recursos?

Se todos tomassem a mesma medida e nunca actualizassem os seus pontos de vista em resposta às mudanças das circunstâncias, então sim, isso iria criar problemas. O altruísmo eficaz faz recomendações sobre as melhores oportunidades disponíveis para ajudar, tendo em conta o que as outras pessoas já estão a fazer.

À medida que mais pessoas aproveitem as oportunidades que recomendamos, estas deixarão de ser tão negligenciadas e o valor de lhes atribuir mais recursos irá diminuir. Nessa altura, mudaríamos as nossas recomendações para incluir outras oportunidades.

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Será que o altruísmo eficaz é calculista e impessoal?

O altruísmo eficaz consiste em ter um desejo de fazer o bem, mas usando a razão e as provas para orientar as nossas acções de modo a termos as maiores hipóteses de sucesso. É verdade que isso por vezes envolve cálculos para apurar em que medida certas acções poderão ser eficazes. É também verdade que nem sempre conhecemos as pessoas que estamos a ajudar.

A maioria das pessoas sente-se atraída pelo altruísmo eficaz porque tem um elevado nível de compaixão para com os outros, e pensa que devemos ajudar os outros, independentemente de os conhecermos pessoalmente. Para o fazer da forma mais eficaz, é por vezes importante fazer cálculos.

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Será que o altruísmo eficaz é demasiado exigente?

A dimensão do esforço que um indivíduo deverá realizar quando tenta fazer do mundo um lugar melhor é uma questão difícil e pessoal. Um padrão mínimo comum para o altruísmo eficaz é doar 10% do nosso rendimento, e/ou mudar a nossa carreira profissional a fim de ter um impacto social substancialmente maior.

Para alguns, isso pode parecer um grande sacrifício. Mas para muitos, passar a vida a trabalhar para melhorar o mundo proporciona um objectivo claro e um forte sentido de propósito, e o altruísmo eficaz gera uma comunidade global e amigável com a qual se pode colaborar. Tentar ajudar os outros tanto quanto possível pode constituir um propósito maior, mais gratificante e talvez até mais divertido, do que qualquer uma das alternativas.

Não há nada de desejável no sacrifício em si mesmo. Não terá certamente de abdicar das coisas que o fazem feliz, ou de negligenciar as suas relações pessoais. O objectivo é ajudar os outros e não é fazê-lo sentir-se mal.

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Mas a caridade não começa em casa?

Muitas pessoas concordam que devemos tentar fazer a diferença, mas pensam que devemos dar o nosso dinheiro ou o nosso tempo às pessoas das nossas comunidades locais.

Não há nada de mal em ajudar pessoas que se conhece, ou mesmo a si próprio. Mas muitas vezes as oportunidades de ajudar pessoas distantes são muito maiores do que as oportunidades de ajudar pessoas próximas de si, especialmente se vive num país rico.

Por exemplo, por 1000 dólares, seria possível duplicar o rendimento anual de uma família que se dedica à agricultura de subsistência no Quénia. Isto pode traduzir-se numa transformação de vida. Se vive num país rico, é difícil conseguir, por 1000 dólares, algo semelhante na sua comunidade local.

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Será que a caridade e a ajuda funcionam realmente?

Muito do trabalho das instituições de caridade é provavelmente ineficaz, e há muitos exemplos de ajuda e desenvolvimento que não têm um impacto real. Mas isso não significa que não existam algumas instituições de caridade que alcancem resultados espantosos. Na verdade, é exactamente por essa razão que é tão importante encontrar as melhores, e usar o nosso melhor discernimento quando se trata de determinar em que causas devemos gastar dinheiro e tempo para as apoiar.

No entanto, se for extremamente céptico em relação às organizações sem fins lucrativos, existem muitas outras oportunidades para ter um grande impacto, incluindo ser empreendedor com fins lucrativos, defender causas, defender políticas, ser político ou investigador.

Caso pense que é inútil fazer o bem através de doações a organizações sem fins lucrativos, então por favor diga-nos porquê! Estamos sempre abertos a mudar de ideias.

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Será que doar à caridade só subsidia bilionários?

É plausível que, se os doadores individuais deixassem de doar às instituições de caridade mais eficazes, as organizações filantrópicas maiores interviessem para preencher essa lacuna. Assim, em última análise, o efeito das doações individuais seria apenas o de libertar dinheiro para as organizações filantrópicas de maior dimensão.

Esta é uma questão difícil de resolver. Por um lado, é provável que, se não existissem doadores individuais, os doadores maiores ocupassem uma parte dessa lacuna. Por outro lado, se o dinheiro for libertado para as organizações filantrópicas grandes e eficazes, estas podem então financiar outras intervenções eficazes, incluindo as que são importantes, mas que os doadores individuais provavelmente não apoiariam.

Mas existem algumas instituições de caridade altamente eficazes que podem absorver muito mais financiamento de forma produtiva. Por exemplo, em 2018, a GiveDirectly transferiu mais de 30 milhões de dólares para as pessoas mais pobres do mundo, e poderiam transferir muito mais dinheiro caso tivessem recebido mais donativos. Doar a instituições de caridade com uma grande lacuna de financiamento é menos susceptível de desviar financiamento de outras fontes.

Centenas de milhares de milhões [Br. bilhões] de dólares serão necessários para financiar intervenções eficazes nos próximos quinze anos. Esta lacuna não pode ser totalmente coberta por grandes fundações. Por exemplo, a Good Ventures e a Gates Foundation dispõem de dotações de cerca de 8 mil milhões [Br. 8 bilhões] de dólares e 41 mil milhões [Br. 41 bilhões] de dólares, respectivamente.

Tal como referido acima, caso seja céptico relativamente a doar à caridade, existem muitas outras formas de utilizar os princípios do altruísmo eficaz para o ajudar a fazer a diferença de forma mais eficaz, tais como ajudá-lo a escolher em que causa trabalhar.  

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De que modo é que as pessoas que está a tentar ajudar estão envolvidas nas decisões que são tomadas?

A possibilidade de realmente não compreendermos e não atendermos às necessidades das pessoas que estamos a tentar ajudar é real, e é um risco em relação ao qual devemos permanecer constantemente vigilantes. Se não ouvirmos ou não compreendermos os destinatários, seremos menos eficazes, e isso é o oposto do nosso objectivo.

Algumas pessoas apoiam a instituição de caridade GiveDirectly porque esta dá dinheiro às pessoas em situação de pobreza, deixando inteiramente ao seu critério a forma como gastam esse dinheiro. Isto pode dar mais poder às pessoas em situação de pobreza do que escolher serviços que, em última análise, possam não ser desejados pela comunidade local.

Outras instituições de caridade que apoiamos fornecem serviços básicos de saúde, tais como vacinas ou micronutrientes. Estes são tão claramente bons que é muito pouco provável que os beneficiários não lhes atribuam valor. Uma saúde melhor pode capacitar as pessoas para que melhorem aspectos das suas próprias circunstâncias de uma forma que nós, como pessoas de fora, não podemos.

Nos casos em que o acima exposto não se aplique, podemos realizar avaliações de impacto detalhadas para ver como os destinatários se sentem realmente em relação ao serviço que pretende ajudá-los. É claro que tais avaliações nem sempre serão fiáveis, mas são muitas vezes o melhor que podemos fazer.

Noutros casos, tais como quando estamos a tentar ajudar animais não humanos ou gerações futuras, estas questões podem ser ainda mais difíceis, e as pessoas fazem o seu melhor para prever o que estes querem caso nos pudessem dizer. Casos óbvios incluiriam porcas que não querem ficar permanentemente confinadas a “gaiolas de gestação”, nas quais não se podem virar, ou gerações futuras que não querem herdar um planeta no qual os seres humanos não possam viver sem dificuldades.

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Será que o altruísmo eficaz negligencia intervenções eficazes quando o impacto não pode ser medido?

Algumas das acções que recomendamos são as que foram testadas e que demonstraram ter um grande impacto. Mas há muitas acções que parecem promissoras, que não seria viável avaliar utilizando métodos experimentais, tais como estudos aleatórios controlados. No entanto, quando existem provas de alta qualidade, levamo-las muito a sério.

Várias organizações altruístas eficazes trabalham em projectos mais “especulativos”, que são muito difíceis de quantificar. Por exemplo, o Open Philanthropy Project trabalha na reforma da imigração, na reforma da justiça penal, na macroeconomia e no desenvolvimento internacional.

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Será que a comunidade altruísta eficaz é demasiado homogénea?

A comunidade altruísta eficaz conseguiria ser mais diversificada. Estamos conscientes disto e a tentar seriamente melhorar. E caso tenha sugestões sobre formas de melhorarmos, por favor diga-nos. Embora a comunidade tenha surgido inicialmente a partir de pessoas de nações mais ricas, à medida que cresce, está a atrair pessoas de muitos quadrantes diferentes. Estamos entusiasmados por ver cidades de todo o mundo a acolher conferências AE, de Hong Kong a Nairóbi.

Em termos das nossas crenças e práticas, somos muito diversos. Alguns são vegetarianos, outros não. A comunidade como um todo é secular, mas alguns membros são religiosos. E há uma vasta gama de convicções políticas. Embora muitas pessoas tenham crenças e valores em que acreditam fortemente, há uma enorme ênfase na construção de uma comunidade que respeite a diferença, e que esteja aberta a ouvir críticas. O que nos une é uma paixão comum por ajudar os outros, tanto quanto possível.


Texto publicado originalmente no EA Forum, última actualização a 29 de Dezembro de 2020

Tradução de José Oliveira.

 

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