Estamos a virar a página face aos tratamentos da Covid-19?

Por Kelsey Piper (Vox)

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Covid-19, já há um comprimido? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Assim como muitas pessoas, eu esperava que as vacinas fossem a nossa saída face a vivermos vidas controladas por esta pandemia. Embora as vacinas certamente tenham melhorado muito as coisas, a humanidade ainda tem um caminho a percorrer, e ainda não voltamos à normalidade.

Mas há outro novo desenvolvimento no horizonte que, em combinação com as vacinas, pode realmente ser revolucionário.

Nos últimos meses, os investigadores têm feito alguns progressos na descoberta de como tratar a Covid-19 depois de alguém a ter contraído. Quero concentrar-me aqui em tratamentos que até agora parecem especialmente eficazes, e que surgem numa forma com vantagens particulares na luta contra o vírus: estão disponíveis sob a forma de comprimidos.

Nos quase dois anos desde que a Covid-19 começou a espalhar-se, aprendemos muito sobre como tratá-la nos hospitais. O único tratamento precoce que está formalmente aprovado e amplamente disponível nos EUA são os anticorpos monoclonais, que funcionam bastante bem, mas têm de ser administrados como uma infusão intravenosa ou uma série de quatro injecções num contexto hospitalar.

A aceitação relatada não é assim tão elevada e o tratamento em si é caro — os anticorpos monoclonais custam cerca de 2000 dólares por dose, embora nos EUA o governo cubra esse custo.

Assim, por mais eficazes que tenham sido os anticorpos monoclonais, há ainda um enorme vazio no nosso arsenal de tratamentos. Quando o vírus ataca numa área, os hospitais ficam sobrecarregados, pelo que as pessoas com casos ligeiros a moderados são aconselhadas a esperar em casa, onde têm muito poucas opções.

A falta de bons tratamentos precoces para a Covid-19 levou a uma grande procura de medicamentos que ganharam adeptos, mas que provavelmente não ajudam assim muito, desde a hidroxicloroquina à metformina e à ivermectina.

Mas finalmente houve algum progresso real na identificação de tratamentos da Covid-19 que não sejam apenas altamente eficazes, mas que os que sofrem de Covid possam tomar em casa.

Combater a Covid-19 com um comprimido

A fluvoxamina é um antidepressivo barato e genérico que reduz as hospitalizações e as mortes em cerca de 30%. Isto de acordo com um grande estudo aleatório controlado conduzido por investigadores, cujos resultados iniciais descrevi aqui em Agosto. Recentemente, os resultados do chamado estudo TOGETHER [Pt. JUNTOS], que testou a fluvoxamina (e alguns outros tratamentos), foram publicados na Lancet.

Apesar dos resultados encorajadores dos testes e do grande perfil de segurança, as directrizes de tratamento dos Institutos Nacionais da Saúde (NIH) sobre a fluvoxamina não foram actualizadas desde Abril, e esta não é amplamente prescrita ou recomendada.

Agora que os resultados do TOGETHER foram publicados, talvez isso mude.

Uma redução de 30% nas hospitalizações e mortes pode não lhe parecer assim muito elevada, mas o facto de o medicamento ser tão barato (apenas 4 dólares por dose) e o histórico de segurança demonstrado (foi aprovado pela Food and Drug Administration, FDA) fazem-me pensar que deveria fazer parte do arsenal de combate à luta global no tratamento da Covid.

Outro comprimido ainda mais promissor é o molnupiravir da Merck. Ao contrário da fluvoxamina, ainda não foi aprovado pela FDA, mas também voltou a ser utilizado após uma moda: é um antiviral que a Merck começou a desenvolver para tratar a gripe. É tomado como um conjunto com um máximo de quatro comprimidos, duas vezes por dia durante cinco dias.

Nos estudos da Merck, o molnupravir reduziu as hospitalizações de Covid-19 para cerca de metade. Foi aprovado na semana passada no Reino Unido, e está a ser analisado pela FDA desde meados de Outubro, o que significa que a aprovação nos EUA poderá estar para breve.

O governo dos EUA fez compras antecipadas de 1,7 milhões de tratamentos a um preço de cerca de 700 dólares por tratamento. (A Merck licenciou a fabricação genérica da vacina a um preço muito, muito mais barato em mais de 100 países em desenvolvimento, e o sucesso deste programa será fundamental para que o molnupravir faça a diferença em todo o mundo).

Finalmente, o Paxlovid da Pfizer está um pouco mais longe da disponibilidade generalizada, mas investigações recentes sugerem que pode ser algo ainda mais importante. O Paxlovid é um antiviral desenvolvido para atingir especificamente a Covid — inibe uma enzima específica de que o vírus necessita.

Uma análise provisória de um teste de tratamento publicado pela Pfizer Friday diz que a empresa constatou uma redução de 89% no risco de hospitalização em pacientes que tomam o medicamento, em comparação com um grupo de controlo. Trata-se de um efeito de enorme dimensão, e é sempre sensato ser um pouco céptico em relação a resultados tão bons. Mas se estes resultados se mantiverem (e há mais estudos em curso que os poderão apoiar ou refutar), isso poderá significar efectivamente o fim da pandemia: adoecer de Covid seria um perigo muito menor.

Suspeito que não sou a única a estar ansiosa por um regresso à normalidade — a concertos e a eventos em recintos fechados, a festas de crianças em casa, a viagens sem constrangimentos — ao mesmo tempo que estou consciente de que mais de mil pessoas continuam a morrer diariamente de Covid-19 nos EUA.

O vírus pode estar a aproximar-se da endemicidade, mas não é necessário que essa taxa de mortalidade se torne uma nova normalidade. Desenvolvendo melhores terapias para o tratamento em casa, podemos combater a doença tanto entre as pessoas vacinadas, que de qualquer forma acabam por desenvolver uma infecção, como entre as pessoas que se recusaram a ser vacinadas. Há aqui realmente boas notícias, e temos uma dívida para com os cientistas que trabalharam para desenvolver, testar, e compreender estes medicamentos.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Newsletter da Vox, a 9 de Novembro de 2021.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

 

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