Um resumo do altruísmo eficaz

Por Keiran Harris e Robert Wiblin (80,000 Hours)

Altruísmo eficaz, como resumir? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Imaginemos que está a planear comprar um computador portátil novo — bem, como escolhe então esse portátil?

Provavelmente não irá escolher ao acaso. E provavelmente também não irá sequer escolher o mais bonito.

Suponho que irá pesquisar um pouco sobre o assunto. E isso é simplesmente uma questão de bom senso.

É provável que compare algumas fontes diferentes, tentando encontrar um portátil que seja recomendado por algumas pessoas que respeita. Ou talvez vá a um site que faça avaliações como o Wirecutter para ficar a saber o que os especialistas consideram ser o “melhor negócio”.

Pode também nem sequer estar completamente convencido com a ideia de comprar um portátil — se no fundo o que quer fazer é o seu trabalho, talvez devesse arranjar um computador fixo e simplesmente usar o seu telemóvel [Br. celular] quando estiver a deslocar-se.

No final do processo, seria de esperar que tivesse obtido o resultado que realmente desejava, sem gastar demasiado tempo a descobrir esse resultado.

Mas quando se trata de fazer o bem, a maioria das pessoas não aplica instintivamente a mesma forma de pensar, rigorosa e prática, que aplica noutras partes da sua vida. É mais provável que voluntariemos o nosso tempo num lugar que seja de fácil acesso, que doemos dinheiro a qualquer instituição de caridade que nos bata à porta, ou que nos concentremos num assunto só porque nos atraiu a atenção quando éramos jovens.

Para as pessoas da comunidade altruísta eficaz, isso parece ser um erro bastante significativo.

Se é alguém que se preocupa, pode passar muitas horas ao longo da sua vida a tentar fazer do mundo um lugar melhor, ou mesmo a decidir a direcção de toda a sua carreira, com o objectivo de fazer do mundo um lugar melhor. Assim sendo, não será que deveria gastar pelo menos o valor do tempo e do esforço de descobrir um portátil para descobrir a melhor maneira de o fazer?

Na verdade, há muito mais razões para pensar se as suas acções estão realmente a melhorar o mundo, do que para pensar qual é o melhor portátil que pode comprar. Isso deve-se a algumas razões:

Primeiro, os fabricantes de portáteis verdadeiramente maus são afastados do mercado pela concorrência e pela regulamentação, pois as pessoas conseguem perceber se os portáteis funcionam ou não, portanto, provavelmente qualquer portátil será pelo menos razoável.

Mas não há nenhum processo semelhante que impeça as pessoas de adoptarem formas equivocadas de melhorar o mundo, por isso não há um fundamento real para saber até que ponto pode ser má uma dada oportunidade de ajudar — excepto, talvez, se for algo que cause danos significativos muito óbvios.

Muitas pessoas que tentam fazer o bem não se apercebem que o que estão a fazer não está a funcionar, principalmente por ser muito difícil de avaliar. Pode pensar que se fizer alguma pesquisa e escolher uma instituição de caridade que seja melhor para se fazer doações, poderá alcançar 50% mais, ou talvez o dobro. Da mesma forma, se escolher um óptimo portátil, este será melhor do que um mau portátil, mas não radicalmente diferente.

Mas depois de passarmos muito tempo a investigar e a comparar muitas ideias sobre como podemos melhorar o mundo, na verdade pensamos que algumas abordagens são 1000% melhores, ou 10 000% melhores do que outras.

Ao contrário do que acontece com um portátil, não existe efectivamente um limite máximo para uma boa oportunidade de melhorar o mundo, assim como não existe um limite para a sua inutilidade ou contraproducência. Portanto, o local para onde se doa faz uma diferença muito maior.

E também, ao contrário de comprar um portátil, descobrir a carreira que lhe irá permitir fazer o maior bem é uma decisão muito pessoal, que depende de muitas coisas sobre si em particular. Isso faz com que seja ainda mais importante pensar cuidadosamente nas suas opções, porque não pode simplesmente tirar da gaveta uma recomendação genérica.

Muito bem, digamos que doa dinheiro todos os anos a uma instituição de caridade que faz investigação sobre o cancro.

O tipo de pensamento altruísta eficaz faria perguntas como:

  • Em primeiro lugar, será que existe um projecto diferente de investigação sobre o cancro com maior probabilidade de sucesso, ou que esteja mais limitado pelo seu acesso a financiamento? Isso pode ser difícil de descobrir, mas podemos tentar verificar analisando os resultados da instituição de caridade e aquilo em que esta gasta realmente o seu dinheiro.
  • Mas, em segundo lugar, para além de perguntas restritas como esta, o altruísmo eficaz encoraja-nos a afastarmo-nos e a perguntar o que estamos realmente a tentar alcançar. Será que estamos a doar à instituição de caridade para a investigação sobre o cancro porque queremos prolongar vidas? Se assim for, poderá haver um projecto diferente que possa financiar e que tenha mais probabilidades de prolongar a vida das pessoas por mais tempo. E, se é isso que realmente lhe interessa, porque não financiar esse projecto em vez do inicial?
  • Terceiro, será que existem outras doenças para além deste cancro em particular que sejam um peso igualmente grande ou maior na saúde, que não estejam já saturadas por financiadores que procuram todas as boas oportunidades, e que possam ser mais facilmente curáveis com a investigação certa? (A menos que primeiro tenha escolhido particularmente bem, a resposta a essa pergunta provavelmente é sim).
  • E em quarto lugar, afastando-se ainda mais, poderia de facto prolongar vidas ou reduzir mais o sofrimento, concentrando-se em algo para além da saúde? Qual será o objectivo que realmente o ajuda a reduzir mais o sofrimento face aos seus recursos limitados?

Estas perguntas são difíceis de responder, especialmente a nível individual.

Mas na sua essência, a comunidade altruísta eficaz é um grupo de pessoas que tenta dar o seu melhor para responder a perguntas como estas e, em última análise, à pergunta: “Como podemos fazer o maior bem?”. Colectivamente, fizemos progressos substanciais, encontrando oportunidades especialmente promissoras para as pessoas que queiram ajudar mais pessoas ou animais, e ajudá-los substancialmente mais.

E se todos os que quisessem fazer o bem pudessem mudar para este tipo de oportunidades, provavelmente poderíamos atingir muito mais do que já atingimos agora.

Equívocos

Antes de continuarmos, vamos esclarecer alguns equívocos comuns sobre o altruísmo eficaz.

Pode ter lido que o AE visa apenas combater a pobreza usando os resultados de estudos controlados aleatórios, ou algo do género, mas essa é apenas uma resposta que algumas pessoas sugeriram face à pergunta: “Como podemos fazer o maior bem?”.

Outros, como eu e os meus colegas nas 80,000 Hours, pensamos que fazer o maior bem requer que se descubra maneiras de fazer com que o futuro a muito longo prazo corra bem, tais como reduzir os riscos catastróficos globais de pandemias concebidas artificialmente ou de guerras nucleares. 

Um inquérito de 2019 a pessoas envolvidas no altruísmo eficaz concluiu que 22% consideravam que a pobreza global deveria ser uma prioridade máxima, 16% pensavam o mesmo das alterações climáticas e 11% diziam o mesmo dos riscos da inteligência artificial avançada. Portanto, no grupo está representada uma vasta gama de opiniões sobre as causas mais prementes.

Talvez também tenha a impressão de que o altruísmo eficaz é sobretudo sobre a doação de dinheiro, e nós usámos como exemplo acima as doações à caridade. Mas, mais uma vez, esta é apenas uma resposta a que algumas pessoas chegaram face à pergunta: “Como posso fazer o maior bem?”.

Nas 80,000 Hours, concentramo-nos nas formas de como pode utilizar a sua carreira para fazer o maior bem e, para isso, doar é apenas uma opção entre muitas.

O mesmo inquérito às pessoas envolvidas na comunidade altruísta eficaz concluiu que 38% das pessoas planearam ter impacto através de donativos, com os restantes a planearem ter impacto directamente através do seu trabalho, na investigação, no governo e em empresas, entre muitas outras vias.

Poder-se-ia pensar que o altruísmo eficaz é demasiado apolítico e que ignora mudanças de maior escala que poderíamos fazer na sociedade. Mas isso simplesmente não é verdade, nem na teoria nem na prática.

Estamos a tentar responder à pergunta “Como podemos fazer o maior bem?”, e isso naturalmente implicará muitas vezes falar de política e de mudanças em grande escala na sociedade.

Muitas pessoas, incluindo eu e a maioria dos meus amigos, decidem envolver-se na política e pensar bastante sobre questões políticas, enquanto outros decidem concentrar os seus esforços noutras áreas.

Uma parte fundamental do tipo de pensamento do altruísta eficaz é a “neutralidade face às causas”, o que significa estar intelectualmente aberto à possibilidade de que qualquer orientação ou abordagem possa melhorar em maior grau o mundo. Se tentar melhorar o mundo de alguma forma sistémica é o curso de acção que fará o maior bem, então é isso que devemos fazer, pelo menos se também for algo adequado à nossa situação pessoal.

Humildade

Tentamos usar provas e a razão para orientar nesta matéria as nossas opiniões, mas estamos bem conscientes de que não se trata de uma ciência exacta.

Estamos sempre a tentar melhorar as nossas melhores hipóteses — e uma parte fundamental do altruísmo eficaz é que aceitamos que podemos estar errados sobre quase tudo.

Concentramo-nos em transformar o mundo de uma forma que seja boa para as gerações futuras. Mas talvez devêssemos concentrar-nos exclusivamente nas pessoas que estão vivas actualmente. Ou talvez devêssemos concentrar-nos no flagelo dos animais que sofrem na pecuária industrial.

E actualmente pensamos que orientar com segurança o desenvolvimento da inteligência artificial poderá representar uma grande oportunidade para tornar o mundo um lugar melhor. Mas talvez os cépticos tenham razão e estejamos apenas a desperdiçar o nosso tempo.

As pessoas na comunidade AE aspiram a evitar o dogmatismo e gostam de debater as questões activamente. Caso pense que alguém está realmente equivocado sobre algo — e caso possa fundamentar convincentemente a sua posição — pode contar que muitas pessoas nesta comunidade mudem de opinião de bom grado. (Ou pelo menos esforçamo-nos por isso — é claro que somos humanos e podemos apegar-nos às nossas ideias).

Mas queremos genuinamente fazer o que é melhor para o mundo, por isso, se estivermos errados sobre alguma coisa — mesmo que seja aquilo a que temos dedicado as nossas vidas — devemos querer saber.

Começar a agir

Finalmente, embora o altruísmo eficaz tenha muito a ver com fazer perguntas, também precisamos de fazer algo com as respostas que encontramos. Portanto, muitas pessoas na comunidade do altruísmo eficaz concentram-se na implementação das soluções dadas pelas melhores hipóteses, enquanto, ao mesmo tempo, outros continuam o projecto de investigação.

Ambas as linhas são importantes e podem ser um objectivo valioso para doações, projectos paralelos, ou — é claro — para a sua carreira.

Para mais informação sobre o altruísmo eficaz

Ouça a nossa série de podcasts em 10 partes

Este artigo foi retirado da introdução à nossa série de podcasts sobre o altruísmo eficaz. Os 10 episódios abrangem muitas das maiores ideias e projectos em curso neste momento na comunidade.

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Publicado originalmente por Keiran Harris e Robert Wiblin nas 80,000 Hours, a 18 de Outubro de 2021.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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