2 grandes questões sobre as vacinas de reforço da Covid, respondidas

Por Kelsey Piper (Vox)

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Devo tomar a dose de reforço? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

O grande tema da Covid no pensamento de toda a gente é as vacinas de reforço. 

Na sexta-feira de manhã, a Food and Drug Administration (FDA) autorizou a Pfizer e a Moderna a darem vacinas de reforço a todos os adultos a partir dos 18 anos. Espera-se que a qualquer dia — talvez ainda hoje — o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) siga o exemplo e anuncie que cada pessoa totalmente vacinada a partir dos 18 anos, pelo menos seis meses depois da sua última vacina, pode finalmente receber uma vacina de reforço para a Covid-19.

A decisão há muito esperada chega após meses em que os limites de quem pode tomar um reforço têm vindo a alargar-se. A administração Biden anunciou pela primeira vez em Agosto os seus planos de tornar as vacinas de reforço amplamente disponíveis. Desde então, assistimos à implementação do reforço naqueles com mais de 65 anos que tinham tomado a Pfizer ou a  Moderna, e para os que têm 18 anos ou mais que sejam imunocomprometidos ou tenham um elevado risco de infecção. Todos os adultos que tenham tomado uma dose da Johnson & Johnson também foram aprovados.    

O facto é que o governo federal tem estado a atrasar-se nesta frente. Vários estados já se adiantaram ao governo federal, aprovando vacinas de reforço para adultos: Colorado, Califórnia, Novo México, e Arkansas, entre outros, todos agiram nas últimas semanas para declarar elegíveis quase todos os adultos. E, com base em relatos particulares, mesmo os adultos ainda não elegíveis conseguiram tomar o reforço.

Isso deixou as pessoas a antecipar a orientação federal oficial de que qualquer pessoa que queira um reforço pode tomar um — e também fomentou a confusão sobre qual é exactamente o plano de intervenção de saúde pública dos EUA e se tomar o reforço é a escolha pessoal certa para qualquer pessoa. 

Essas questões irão continuar a aumentar se e quando o CDC finalmente agir, como esperado. Aqui está algo para ajudá-lo a pensar sobre a situação das vacinas de reforço.

Eu sou saudável e não estou em risco de doença grave. Devo tomar uma vacina de reforço?

Pessoalmente, isto descreve a minha situação — e eu vou tomar uma.

Caso tenha tomado duas doses das vacinas mRNA Pfizer/BioNTech ou Moderna, como eu tomei, já está bastante bem protegido das consequências graves da Covid. A principal coisa que o reforço faz é diminuir a probabilidade de ser infectado e de ficar (ligeiramente) doente — mas isso já é bom.

Temos muito mais dados sobre estas vacinas do que quando estas foram aprovadas pela primeira vez. Sabemos que geralmente permanecem muito eficazes contra a doença grave e morte, mesmo um ano após a vacinação completa. Mas diminuem a eficácia contra a infecção. Seis meses após a sua segunda dose, a vacina é menos protectora contra a Covid-19.

Isso é assim porque os níveis de anticorpos no sangue diminuem com o tempo. Os especialistas discordam sobre qual deve ser o grau de preocupação das pessoas com isso. O Dr. Paul Offit, director do Centro de Educação de Vacinas do Hospital Infantil de Filadélfia, disse-me que um sistema imunitário saudável e funcional vai reduzindo gradualmente os anticorpos sanguíneos face a infecções que o corpo não tenha encontrado, mas isso não significa necessariamente que não irá combater a Covid-19 sem problemas (provavelmente sofrendo apenas de uma doença leve, talvez mesmo imperceptível). 

Faz sentido debater se a prevenção da infecção, caso seja provável que a doença seja leve, é tão importante como uma prioridade de saúde pública. Mas mesmo que eu não fique muito doente se apanhar a Covid-19, porque estou totalmente vacinada, prefiro nem sequer a apanhar. O reforço reduz efectivamente o meu risco de ficar infectada com a Covid-19 — ponto final. Para mim, isso é suficiente para tomar o reforço, especialmente tendo em conta que não tive problemas com efeitos secundários causadas pelas duas primeiras doses. 

Esta recomendação branda torna-se muito mais forte caso a Covid-19 seja um risco elevado para si. Caso o seu sistema imunológico funcione menos bem ou caso trabalhe num ambiente de alto risco, então uma dose de reforço pode ser necessária apenas para colocar o seu sistema imunológico ao nível de prontidão que tinham as pessoas saudáveis após duas doses. Isso vale bem a pena. 

E se você tomou a Johnson & Johnson, deve definitivamente tomar um reforço (algo que o CDC já aprovou) para evitar algum declínio na eficácia da vacina.

Caso eu seja saudável e receba uma dose de reforço, será que estou a tirar uma dose a alguém que precise mais?

Muitas destas perguntas são complicadas, mas aqui está uma que podemos ter a certeza: A sua dose de reforço, caso opte por uma, é muito provável que não venha directamente às custas de outras pessoas, disseram-me os especialistas.

A preocupação aqui deriva do facto de que muitas pessoas nos EUA terão a sua terceira dose quando cerca de metade do mundo ainda nem sequer tomou uma dose. Isso não é apenas uma injustiça e um erro humanitário, é também uma tolice estratégica: As variantes de vírus podem desenvolver-se mais facilmente quando os casos de Covid-19 estão a subir, e as vacinas são a forma mais eficaz de os baixar.

Se o facto de não tomar uma dose de reforço fizesse com que, em vez disso, essa dose fosse para alguém num país pobre, eu preferia não tomar.

Mas não é bem assim que a alocação de vacinas funciona. muitos meses, os EUA fizeram encomendas de milhões de doses das vacinas da Moderna e da Pfizer. Outros países e organizações internacionais fizeram o mesmo.

Essas encomendas, disseram-me os especialistas, estão a ser cumpridas pela ordem em que foram feitas — portanto, se a Moderna se comprometer a entregar 20 milhões de doses aos EUA primeiro, depois 10 milhões à França a seguir, essa é a ordem em que vão enviá-las. E se os EUA encomendarem agora doses adicionais em resposta ao aumento da procura daqueles que, como nós, vão tomar doses de reforço, esse pedido irá para o fim da fila.

Não tomar a sua dose de reforço não vai dar essa oportunidade a pessoas de outros países que precisam mais delas. O que pode ajudar, disse-me a Amanda Glassman, membro sénior do Centro para o Desenvolvimento Global, é a troca de lugar na fila de espera: Os EUA cederem formalmente o seu lugar a outros países que precisem mais ou à Covax, a aliança internacional para vacinar o mundo.

A UNICEF apelou aos EUA e a outros países ricos para que fizessem exactamente isso. Os EUA também poderiam — e deveriam — doar doses em excesso (já doaram cerca de 200 milhões delas até agora), mas não é claro como é que a procura por vacinas de reforço neste Outono e Inverno afectará as hipóteses de novas doações de doses em excesso no futuro; os EUA planeiam cumprir o resto dos seus compromissos pendentes de doar mais de mil milhões [Br.1 bilhão] de doses através de ordens de compra para a COVAX actualmente na fila de espera.

Caso esteja frustrado, como eu, por milhões de vacinas não serem usadas nos EUA embora sejam muito necessárias em outros lugares, deve em absoluto exercer pressão para que os EUA cedam o seu lugar na fila de espera. Mas não tomar uma vacina de reforço não vai mudar quantas doses a Moderna ou a Pfizer vão entregar aos EUA antes de passarem para o próximo país da sua lista de espera. E dentro dos EUA, estamos bem abastecidos de vacinas de mRNA neste momento — por isso não tomar uma vacina de reforço também não é tirar uma aos seus vizinhos.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Newsletter da Vox, a 19 de Novembro de 2021.

Tradução de José Oliveira.

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