Da “pandemia” para a “endemia”

Por Sigal Samuel (Vox)

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A Pandemia vai acabar? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

 

Por esta altura, já deve ter ouvido isto: A Covid-19 não vai desaparecer. O amplo consenso entre os especialistas é que não é realista pensar que iremos erradicar totalmente este vírus. Iremos, no entanto, vê-lo sair da fase pandémica e entrar na fase endémica.

Isso significa que o vírus irá continuar a circular em partes da população mundial durante anos, mas a sua prevalência e impacto irá descer para níveis relativamente controláveis, de tal modo que se tornará mais parecido com a gripe do que com uma doença que faz parar o mundo.

Por enquanto, “temos de nos lembrar que, face a este vírus, ainda estamos numa pandemia”, disse Jen Kates, directora de saúde global e políticas de HIV da Kaiser Family Foundation. “Ainda não estamos num ponto em que estejamos a viver com a Covid endémica. Quando chegarmos a esse ponto, algumas coisas serão muito mais fáceis, mas não estamos lá”.

Então, como vamos saber quando estivermos lá? Existe algum limite claro ou alguma medição mágica que nos indique, objectiva e inegavelmente? Sim e não.

Para que uma doença infecciosa seja classificada na fase endémica, a taxa de infecções tem de estabilizar mais ou menos ao longo de anos (embora se esperem aumentos ocasionais, por exemplo, no Inverno).

“Uma doença é endémica se o número básico de reprodução estabilizar em 1. Isso significa que uma pessoa infectada, em média, infecta uma outra pessoa”, explicou a epidemiologista da Universidade de Boston Eleanor Murray. “Neste momento, não estamos nada perto disso”.

Isso deve-se em grande parte à variante delta mais contagiosa, e ao facto de a maioria da população mundial ainda não ter imunidade (seja por vacinação ou infecção), por isso a vulnerabilidade ainda é elevada.

Mas reduzir drasticamente o número de reprodução do vírus para 1 é apenas “o mínimo dos mínimos” para se obter a classificação de endemia, disse Murray. Há outros factores que também entram em jogo — e avaliar esses factores é um processo mais subjectivo.

No geral, um vírus torna-se endémico quando nós — os especialistas em saúde, os órgãos governamentais e o público — decidimos colectivamente que concordamos em aceitar o nível de impacto que o vírus tem. E, obviamente, isso é algo complicado: as pessoas vão divergir sobre o que constitui um nível aceitável.

Os múltiplos factores que determinam quando uma doença é endémica

A pior consequência de ficar infectado com um vírus é obviamente a morte. A gripe, por exemplo, mata entre 12 000 e 52 000 americanos por ano, de acordo com cálculos do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças [CDC]. Será esse número “aceitável”, ou demasiado alto?

“Na minha opinião, mesmo com a gripe, isso é demasiado”, disse-me Joshua Petrie, epidemiologista da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan. 

Mas enquanto sociedade, decidimos implicitamente que aceitaremos esse nível de mortalidade em vez de tomarmos medidas para baixá-lo, por exemplo, usando máscaras no Inverno ou impondo vacinas contra a gripe.

De forma semelhante, com a Covid-19, as pessoas irão discordar sobre o que constitui um nível de mortalidade “aceitável”. 

“Ainda não estou preparada para dizer qual é o parâmetro de referência apropriado, mas certamente é muito, muito mais baixo do que aquele em que estamos, e muito mais próximo daquele em que está a gripe”, disse Kates.

A mortalidade não é o único tipo de impacto que precisamos levar a sério. A Covid-19 pode levar a sintomas de longo prazo numa minoria de casos os cálculos variam de 10 a 30% em pessoas não vacinadas, com um pequeno número de pessoas vacinadas também afectadas. Por vezes, a “Covid longa” é tão debilitante que é reconhecida como uma causa de invalidez

Ao determinar a endemicidade, Murray disse que teria em conta a disponibilidade de tratamentos para doentes de longo prazo, bem como os tratamentos para pessoas na fase inicial da doença (o comprimido molnupiravir da Merck, que a gigante farmacêutica disse que reduz para metade as hospitalizações de doentes em risco, parece que irá ser útil). Também iria considerar outros factores como a lotação de camas nas Unidade de Cuidados Intensivos e nos hospitais, os problemas na cadeia de abastecimento e se o uso de medicamentos para a Covid-19 está a diminuir o fornecimento desses medicamentos para outras condições crónicas.

Há um avanço iminente que deixa Murray esperançosa acerca da fase pandémica poder vir a terminar em 2022 nos EUA: espera-se que as vacinas para crianças de 5 a 11 anos sejam aprovadas dentro de semanas. “Penso que quando tivermos vacinas para todas as idades, ficarei muito mais esperançosa sobre o controlo da situação nos EUA”, disse. A vacinação de crianças em idade escolar é crucial, não só porque irá protegê-las, mas também porque irá limitar a propagação na comunidade.

Será que vamos receber uma declaração oficial a dizer que o estado de emergência acabou?

Em Março de 2020, a Organização Mundial da Saúde decretou o novo coronavírus como uma pandemia. Pouco tempo depois, o governo dos EUA decretou um estado de emergência nacional. Então, um a um, os estados seguiram o exemplo.

À medida que nos aproximamos da endemicidade, podemos esperar ver este processo acontecer ao contrário, disseram-me os especialistas.

Primeiro, provavelmente veremos estados individuais a decretarem o fim do estado de emergência (alguns estados já o fizeram). Isto será faseado, com algumas áreas a alcançarem uma aproximação razoável à endemicidade mais cedo do que outras. A nível nacional, “o CDC pode levantar o nosso estado de emergência nos EUA se os casos permanecerem baixos a determinada altura no futuro”, disse Tara Smith, epidemiologista da Universidade Estatal de Kent.

“Mas ainda temos um longo caminho a percorrer para controlar o vírus em todo o mundo”, acrescentou. “Uma pandemia por natureza é mundial e, embora estejamos melhor nos EUA e noutros países ricos, a disponibilidade de vacinas em muitos países de baixos e médios rendimentos tem sido deplorável”.

A OMS acabará por decretar o fim da pandemia a nível mundial, tal como aconteceu no passado, por exemplo, com a pandemia da “gripe suína” H1N1. Só não devemos esperar ouvir essa declaração nos próximos tempos.


Publicado originalmente por Sigal Samuel na Newsletter da Vox, a 22 de Outubro de 2021.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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