O Ponto Crucial da História

Por Peter Singer (Project Syndicate)

Momento Crucial da História.fx

Este é o ponto crucial da história? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Os perigos de tratar os riscos de extinção como uma preocupação predominante da humanidade deveriam ser óbvios. Ver os problemas actuais na óptica dos riscos existenciais da nossa espécie pode reduzir esses problemas actuais a quase nada, ao mesmo tempo que se justifica quase tudo o que aumente as nossas probabilidades de sobreviver o tempo suficiente para nos propagarmos muito para lá da Terra.

 

Há doze anos, durante o Ano Internacional da Astronomia que marcou o 400.º aniversário da primeira utilização de um telescópio por Galileu, escrevi “The Value of a Pale Blue Dot[Pt.“O valor de um ponto azul claro”] – uma reflexão sobre como a astronomia revelou um vasto universo repleto de um número inimaginável de estrelas, diminuindo assim o significado do nosso sol e do nosso planeta. O “ponto azul claro” refere-se à forma como a Terra aparece numa fotografia de 1990, tirada pela nave espacial Voyager enquanto esta alcançava os limites exteriores do nosso sistema solar. O texto sugere que o conhecimento adquirido com a astronomia “força-nos a reconhecer que o nosso lugar no universo não é particularmente significativo”.

Um post recente no blog de Holden Karnofsky levou-me a reconsiderar esse pensamento. Karnofsky é co-Director Executivo da Open Philanthropy, uma fundação que investiga as melhores oportunidades para a concessão de fundos filantrópicos, e publica as razões que fundamentam as suas decisões. Pensar acerca do significado a longo termo das decisões filantrópicas actuais faz parte, portanto, do papel de Karnofsky. Ele está mesmo a pensar a muito longo termo.

Karnofsky salienta que poderemos estar a viver “precisamente no início da pequeníssima fracção de tempo durante a qual a galáxia passa de quase sem vida a extensamente povoada”. Essa “pequeníssima fracção de tempo” começou, diríamos, com o primeiro uso de ferramentas pelos nossos antepassados, há cerca de três milhões de anos. Irá terminar quando os nossos descendentes – que podem ser mentes digitais, em vez de organismos biológicos – habitarem a galáxia inteira, talvez iniciando uma civilização que consista num enorme número de seres conscientes que perdurem dezenas de milhares de milhões [Br. bilhões] de anos. Há uma grande probabilidade, argumenta Karnofsky, de que este processo de povoamento da galáxia comece durante este século. Até 2100, poderíamos desenvolver a tecnologia para construir colónias auto-suficientes noutros planetas.

Este pensamento reflecte o que foi expresso em 2011 pelo já falecido filósofo Derek Parfit, que escreveu, perto do final do segundo volume de On What Matters: “Vivemos no momento crucial da história”. Tal como Karnofsky, Parfit estava a pensar na chegada de tecnologias que, se usadas sabiamente, permitiriam à nossa espécie sobreviver “no seu período mais perigoso e decisivo”, e aos nossos descendentes propagarem-se pela nossa galáxia. Parfit refere-se aos “próximos séculos”, e não apenas a este, como o tempo que pode levar até que os seres humanos possam viver autonomamente noutros planetas, mas mesmo isso será apenas uma pequena fracção de tempo em comparação com o que está para vir. A nossa contribuição mais significativa para este desenvolvimento seria assegurar a sobrevivência da vida inteligente no nosso planeta.

Porém, a ideia de que somos essenciais para este processo talvez seja apenas a versão mais recente da nossa ilusão de grandeza de que os seres humanos são o centro da existência. Certamente, neste vasto universo, deve haver outras formas de vida inteligente e se não povoarmos a galáxia Via Láctea, outros o farão.

No entanto, como o físico Enrico Fermi uma vez perguntou aos colegas cientistas durante o almoço no Laboratório Nacional de Los Alamos: “Onde estão os outros?”. Não estava a comentar acerca de mesas vazias no refeitório do laboratório, mas acerca da ausência de qualquer prova da existência de extraterrestres. O pensamento por trás dessa pergunta é agora conhecido como o Paradoxo de Fermi: se o universo é tão grandioso, e existe há 13,7 mil milhões [Br. bilhões] de anos, por que razão outras formas de vida inteligente não nos contactaram?

Karnofsky baseia-se num artigo de 2018 de investigadores do Future of Humanity Institute [Pt. Instituto do Futuro da Humanidade] da Universidade de Oxford para sugerir que a resposta mais provável é que a vida inteligente é extremamente rara. É tão rara que podemos ser os únicos seres inteligentes na nossa galáxia, e talvez no muito maior superaglomerado de Virgem, ao qual pertence a nossa galáxia.

É isto que Karnofsky quer dizer quando diz que o futuro da humanidade é “alucinante”. A ideia de que nós, os habitantes deste ponto azul claro, neste momento particular, estamos a fazer escolhas que irão determinar se milhares de milhões [Br. bilhões] de estrelas são povoadas, durante milhares de milhões de anos, parece mesmo alucinante. Mas pode ser verdade. No entanto, admitindo que assim seja, o que devemos fazer a esse respeito?

Karnofsky não tira qualquer conclusão ética das suas especulações, a não ser defender a “seriedade face a os enormes riscos potenciais”. Mas, como Phil Torres salientou, ver os problemas actuais – para além da extinção da nossa espécie – através da óptica do “longotermismo” e dos “riscos existenciais” pode reduzir os problemas actuais a quase nada, ao mesmo tempo que nos dá uma razão para fazermos quase tudo para aumentar as nossas hipóteses de sobreviver o tempo suficiente para nos propagamos muito para lá da Terra. A visão de Marx do comunismo como sendo o objectivo de toda a história da humanidade proporcionou a Lenine e a Estaline uma justificação para os seus crimes, e o objectivo de um “Reich de Mil Anos” era, aos olhos dos nazis, razão suficiente para exterminar ou escravizar aqueles que eram considerados racialmente inferiores.

Não estou a sugerir que qualquer dos proponentes actuais da ideia do ponto crucial da história iria tolerar atrocidades. Mas também Marx nunca contemplou que um regime que governasse em seu nome viria a aterrorizar o seu povo. Ao tomarmos medidas para reduzir os riscos de extinção, devemos concentrar-nos em meios que também promovam os interesses das pessoas do presente e do futuro próximo. Se estamos no ponto crucial da história, permitir que as pessoas saiam da pobreza e obtenham uma educação é tão susceptível de mover as coisas na direcção certa como praticamente qualquer outra coisa que pudéssemos fazer; e caso não estejamos nesse ponto crítico, de qualquer das maneiras teremos feito algo de bom.


Publicado originalmente por Peter Singer no Project Syndicate, a 10 de Outubro de 2021.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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