Conselhos para jovens idealistas: Encontrar uma causa sozinha

Por Dylan Matthews (Vox)

Conselhos aos Jovens.fx

Que conselhos dar a jovens idealistas? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Como jornalista que não está muito afastado da sua juventude desperdiçada, recebo um número razoável de e-mails de leitores que, ou estão na faculdade ou são recém-formados, a pedirem conselhos sobre o que fazer com o resto das suas vidas.

Por vezes quem me escreve sabe o que quer fazer com a sua carreira (normalmente, jornalismo). Mas muitos não sabem. Preocupam-se profundamente em fazer do mundo um lugar melhor, mas não sabem a melhor maneira de o fazer. 

O mundo tem tantos problemas: pobreza e fome crónicas, tortura e abate em massa de animais, desastres climáticos contínuos e agravados, o surgimento de armas e doenças que podem acabar com a vida tal como a conhecemos. Caso se queira apenas fazer algo de bom, como devemos escolher?

Para conselhos mais específicos sobre percursos profissionais, costumo direccionar as pessoas para as 80.000 Hours, um grupo altruísta eficaz que investiga especificamente acerca de carreiras que possam gerar uma enorme quantidade de bem. Têm até um questionário que se pode fazer para decidir em qual dos problemas do mundo podemos concentrar a nossa carreira. 

Mas o meu conselho mais geral, que aprendi em parte com essa boa gente das 80.000 Hours, é que pense em todas as questões e problemas sociais que mais motivam os seus amigos e depois escolha algo diferente. 

Isto pode parecer estranho, por isso deixem-me explicar. O mundo é um enorme e complexo sistema, cheio de imensos problemas. Os problemas que são mais óbvios, ou que já têm muita gente a trabalhar neles, apresentam-se mais facilmente aos jovens idealistas e altruístas. Mas isso faz com que muitos problemas graves, que são muito menos óbvios, sejam negligenciados. E os problemas negligenciados são muitas vezes aqueles em que se pode fazer o maior bem.

Neste ponto quero ser bem claro. Se já tiver uma paixão profunda por algum assunto ou por algum problema, continue a dedicar-se a ele. A paixão não é um bem muito fácil de ser transferido. E as paixões da maioria das pessoas dirigem-nos para problemas que são genuinamente muito importantes.

Veja-se a educação. Assegurar que funciona bem e de forma equitativa é incrivelmente importante. 

Mas precisamente por causa disso, muitos, muitos jovens sentem-se atraídos pela ideia de se tornarem professores, indo para a Teach for America, para o sistema público de educação, ou para carreiras ligadas  à educação, na sua defesa ou criação de políticas. Além disso, o governo gasta, por ano, centenas de milhares de milhões [Br. bilhões] de dólares nesse esforço e os filantropos gastam ainda mais milhares de milhões [Br. bilhões] de dólares

Se essa é a causa que realmente o apaixona — Boa sorte! Tanto o meu pai como a minha mãe foram professores do ensino secundário [Br. ensino médio], e eu tenho a maior consideração por essa área vocacional e por qualquer pessoa que trabalhe para a melhorar. 

Mas caso esteja aberto a outras direcções e esteja a procurar ter o maior impacto possível, deveria ver todo o dinheiro e energia que são canalizados para o ensino até ao 12.º ano como sendo um sinal de que muitas pessoas inteligentes já estão a trabalhar nesse problema — o que significa que pode ter mais impacto noutras áreas.

Escolher uma causa negligenciada faz com que a mudança seja mais fácil 

Quando se envereda por uma carreira, queremos saber se a causa na qual trabalhamos é importante e que é provável que cause impacto. E iremos calcular as nossas probabilidades de causar impacto num contexto em que as pessoas já estão mobilizadas e a trabalhar em problemas. 

A atitude mais sensata a adoptar seria analisar o panorama e procurar lacunas na mobilização, áreas onde um pouco mais de esforço ou investimento poderia fazer uma enorme diferença, ao contrário de problemas difíceis, que já tenham ao seu serviço milhares de milhões [Br. bilhões] de dólares e milhões de pessoas.

Tive a sorte de conhecer e escrever sobre alguns indivíduos empreendedores que foram particularmente bons a identificar tópicos negligenciados e a realizar nesse âmbito progressos incríveis. Nesses casos, os activistas ou os empreendedores sociais em questão identificaram um problema no âmbito do qual era mais fácil de progredir, precisamente porque a atenção sobre o assunto era escassa. Isso significava que poucas pessoas antes deles se tinham empenhado bastante ou tinham empenhado bastantes recursos que tivessem à sua disposição.

Um dos meus exemplos favoritos é a prevenção do suicídio por pesticidas. Os suicídios que usam como método o envenenamento por pesticidas tiram a vida a cerca de 110 000 pessoas por ano, a maioria no mundo em desenvolvimento. Estas são mortes evitáveis: Quando o Sri Lanka proibiu um conjunto de pesticidas particularmente letais, a taxa nacional de suicídios caiu para metade. Mas durante anos não houve um movimento internacional significativo que aprovasse regulamentações semelhantes para salvar vidas.

Assim, em 2016, Leah Utyasheva e Michael Eddleston, respectivamente uma consultora de direitos humanos e um professor de toxicologia da Universidade de Edimburgo, fundaram o Center for Pesticide Suicide Prevention [Pt. Centro de Prevenção de Suicídios por Pesticidas], um grupo que trabalha para decretar controlos semelhantes em países em desenvolvimento. Até agora, o grupo tem ajudado a banir alguns pesticidas letais no Nepal, o que deverá salvar cerca de 380 vidas por ano. Como o grupo trabalha em mais e mais países, esse número deverá aumentar. Utyasheva e Eddleston encontraram um problema negligenciado e estão a combatê-lo.

Ou então veja um exemplo próximo ao meu coração (literalmente): doação de rins e de outros órgãos. A grande maioria dos órgãos transplantados nos EUA vem de doadores falecidos: pessoas com órgãos saudáveis que morreram e que tinham optado pela doação dos seus órgãos. Isso, combinado com o facto de haver uma longa lista de espera para muitos órgãos (particularmente rins), significa que aumentar a percentagem de órgãos de pessoas falecidas que fossem doados, salvaria muitos milhares de vidas.

Os grupos-chave aqui são conhecidos como organ procurement organizations (OPO) [Pt. organizações de procura de órgãos], ou seja, organizações sem fins lucrativos contratadas pelo governo que têm o monopólio da distribuição de órgãos dos recém falecidos para pessoas vivas que deles necessitem. Existem actualmente 57 OPO nos EUA, cada uma concentra-se numa região diferente.

Recentemente, um casal de activistas — Greg Segal do grupo sem fins lucrativos de defesa dos pacientes Organize e Jennifer Erickson, ex-estagiária da administração Obama — ajudou a formar uma coligação bipartidária, do senador Chuck Grassley (Iowa), à direita, com o ex-presidente da NAACP, Ben Jealous, à esquerda, a favor da reforma das OPO para que usem mais órgãos de doadores falecidos e sejam menos propensas a recusar doadores falecidos com órgãos perfeitamente bons (uma decisão que foram perversamente incentivados a tomar antes). Segal, Erickson, e os seus aliados impulsionaram uma reforma que poderia aumentar em 7300, por ano, o número de órgãos que as OPO distribuem.

São cerca de 7300 vidas salvas, todos os anos. E embora o trabalho deles não tenha sido fácil — as OPO resistiram fortemente —  também não foi tão difícil, nem uma luta tão longa para criar grandes mudanças nesta área relativamente negligenciada, como seria, por exemplo, reorientar todo o sistema educativo do 1.º ao 12.º ano.

A oportunidade apresentada pelo Congresso Secreto

Uma das principais razões pelas quais a mudança nas OPO foi mais fácil foi a seguinte: Não era uma questão politicamente polarizada como, por exemplo, o aumento do salário mínimo. Na verdade, não existe uma posição democrática ou republicana face às OPO. É possível que aliados improváveis, como a representante liberal Karen Bass (Democrata da Califórnia) e o Senador Todd Young (Republicano do Indiana), se unam em torno deste assunto.

Embora não pareça visto de fora, muitas políticas em Washington DC são feitas assim: Grandes mudanças acontecem discretamente graças a uma forte colaboração entre os partidos. Claro, há polarização e impasses, mas caso se preste atenção, também se vê as coisas que realmente são feitas.

Simon Bazelon e Matt Yglesias no Slow Boring cunharam o termo “Congresso Secreto” para se referir à grande variedade de legislação que reúne  democratas e republicanos na aprovação de assuntos que não despertam muita atenção ou indignação da opinião pública . O Congresso Secreto é um fenómeno bem real; na última década tem sido aprovada, com bastante regularidade, legislação muito importante  de forma bipartidária, mesmo quando as batalhas partidárias chegaram a um tom cada vez mais quente.

Aqui estão apenas alguns exemplos:

Estes exemplos podem parecer de pouca monta, mas não são. Aumentar a idade do consumo de tabaco para os 21 anos irá salvar centenas, senão milhares, de vidas. O especialista Casey Michel disse o seguinte a propósito da legislação sobre lavagem de dinheiro: “Proibir empresas anónimas de fachada nos EUA seria a maior medida contra a lavagem de dinheiro que o país tomou em quase 20 anos — e potencialmente desde sempre”. O crédito 45Q colocou um preço real na remoção do carbono, uma espécie de imposto de carbono que ainda pode vir a ser importante no combate às mudanças climáticas.

Então, o que significa isto para si, alguém a decidir que causa escolher? Isso implica que pode querer procurar coisas nas quais o Congresso Secreto poderia, ou já está, a trabalhar e concentrar aí a sua energia em vez dos grandes tópicos propensos a lobbies e a conflitos. A política fiscal parece-me algo fascinante, mas aumentar os impostos sobre os ricos ou cortar os impostos às corporações não são causas “negligenciadas”: Neste preciso momento, há literalmente milhares de pessoas em Washington DC a trabalhar em cada uma dessas causas, e têm milhões de dólares, senão milhares de milhões [Br. bilhões], à sua disposição.

Mas suponha que encontrou uma modesta regulamentação sobre químicos que poderia salvar milhares de vidas (como a proibição de pesticidas que são usados em suicídios). A Sociedade Americana de Química pode lutar contra si. Mas uma batalha privada contra um lobby é mais barata e mais fácil de vencer do que uma enorme batalha pública. E se tudo o que lhe interessa é salvar vidas, escolher a batalha mais fácil é uma boa decisão.

Encontre a sua causa negligenciada

Na vida, a  política pública é a área que melhor conheço, por isso, naturalmente, os exemplos de causas negligenciadas que mais facilmente me vêm à cabeça são nessa área.

Mas há outras formas de fazer a mudança. Também pode fazer esse tipo de mudança através da ciência. Katalin Karikó, microbiologista, passou grande parte da sua carreira numa área de investigação que os financiadores e outros cientistas estavam a negligenciar: o potencial do mRNA para se tornar numa ferramenta para o desenvolvimento de vacinas. Levou anos, mas a selecção da causa de Karikó deu frutos de forma extraordinária em 2020, quando a ideia à qual dedicou a sua carreira se tornou essencial para o desenvolvimento das vacinas Covid-19. O trabalho de Karikó já salvou milhões de vidas e provavelmente salvará muitos mais milhões à medida que as vacinas de mRNA forem sendo desenvolvidas para novas doenças.

Se é engenheiro ou cientista fora da medicina, também há muitas oportunidades. Pense nas tecnologias que seriam mais úteis para salvar vidas e promover o crescimento económico no futuro — e pense em quais delas não estão na moda no momento. A energia geotérmica é um exemplo; o escritor Eli Dourado apresenta uma argumentação convincente sobre tipos específicos de trabalho, como desenvolver brocas mais duras e melhores métodos para localizar o calor na terra, que poderiam melhorar drasticamente a geotermia e expandir o nosso fornecimento de energia limpa.

Caso tenha espírito empreendedor, há muitas oportunidades também. A empresa Sendwave viu que as taxas para remessas (que representam cerca de 540 mil milhões [Br. bilhões] de dólares em movimentos de dinheiro anuais, a maioria para os países pobres a partir dos ricos) eram bastante altas e desenvolveu uma app com menores custos de processamento que poderia poupar o dinheiro dos trabalhadores migrantes no que diz respeito aos seus pagamentos de remessas. Sendwave não é uma instituição de caridade, mas é uma organização de carácter social, cujo sucesso depende de poupar milhões ou milhares de milhões [Br. bilhões] de dólares aos seus utilizadores e de aliviar a pobreza global no processo. Existem certamente por aí outras oportunidades como esta.

Ou, se ainda está a procurar uma causa, pense nos biliões [Br. trilhões] de seres humanos que irão viver no futuro e encontre oportunidades de combater potenciais causas de extinção, como pandemias ou a guerra nuclear (uma área da qual os filantropos estão actualmente a retirar fundos e que precisa de mais ajuda). 

Isto é tudo, claro, mais fácil de dizer do que fazer. Mas vale a pena sublinhar a questão mais abrangente: O mundo é imenso e há imensos problemas para resolver. Encontrar uma causa negligenciada, mas importante, e fazer progressos é um dos trabalhos mais significativos que o mundo nos oferece.


Publicado originalmente por Dylan Matthews na Vox, a 21 de Setembro de 2021. 

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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