Altruísmo entusiasmado

Holden Karnofsky (GiveWell, 2013)

Altruísmo, sacrifício ou entusiasmo? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Os críticos do altruísmo eficaz preocupam-se que estejamos a tentar escolher causas com base em cálculos sobre como ajudar o mundo tanto quanto possível, em vez de nos basearmos nas causas que nos entusiasmam. Preocupam-se que não estejamos, portanto, totalmente envolvidos ou comprometidos com as causas que escolhemos. (Mais)

Penso que, essencialmente, essas pessoas entendem mal o altruísmo eficaz. Parece-me que elas imaginam que nós temos paixões por causas particulares e estamos a tentar dominar as nossas paixões em prol da racionalidade. Não é esse o caso. Pelo contrário, o altruísmo eficaz é aquilo que nos apaixona. Estamos entusiasmados com a ideia de aproveitar ao máximo os nossos recursos e de ajudar os outros tanto quanto possível.

Este post centra-se na minha própria atitude em relação ao altruísmo eficaz, embora acredite que seja amplamente partilhada por muitos outros no movimento.

Em poucas palavras: tentar maximizar o bem que faço tanto com as minhas horas, como com o meu dinheiro é um desafio intelectualmente envolvente. Faz com que sinta que a minha vida é mais significativa e mais importante. É uma forma de tentar ter um impacto e um significado que vá além da minha experiência diária. Por outras palavras, atende ao tipo de necessidades não-materiais que muitas pessoas têm.

O altruísmo eficaz não dá prioridade ao intelecto em detrimento da emoção

Ao considerar que causas particulares penso serem interessantes, não posso responder à pergunta “Até que ponto estarei entusiasmado sobre esta causa?” sem fazer perguntas como “Até que ponto esta causa será importante?” e “Já estará sobrelotada com outros financiadores?” Ao longo da minha vida, o meu entusiasmo em trabalhar num problema tem estado directamente relacionado com a forma como o problema parece ser “negligenciado” (relativamente à sua importância). Teria dificuldade em manter o interesse por uma causa se sentisse que poderia fazer um bem maior ao mudar para outra.

Não estou a descrever como “devo” pensar ou “tentar” pensar. Estou a descrever o que me entusiasma. As causas em que encontro maior “sub-investimento”, e o processo geral de as encontrar, é o que me faz saltar da cama de manhã entusiasmado por ir para o trabalho. Esse entusiasmo foi o que motivou as noitadas que deram início à GiveWell, e acredito que não poderia estar tão motivado ou esforçar-me tanto em qualquer outro projecto.

O altruísmo eficaz não tem a ver com sacrifício

Fico sempre um pouco desanimado quando vejo altruístas eficazes a serem caracterizados como “abnegados” ou “sacrificados”. Falando por mim e pelo Elie: nós não nos consideramos invulgarmente “abnegados”, e não tem havido qualquer sacrifício envolvido na nossa criação da GiveWell. Em comparação com quando trabalhávamos na área financeira, consideramos o nosso trabalho mais interessante, mais entusiasmante, mais motivador e melhor para conhecermos pessoas com quem temos fortes ligações, o que compensa facilmente os cortes salariais que não afectaram muito o nosso estilo de vida. Não posso falar por pessoas como o Jason Trigg ou a Julia Wise e o Jeff Kaufman, mas o post mais recente da Julia Wise pressupõe que ela vê o altruísmo como uma fonte de alegria e não como algo pelo qual a alegria é trocada. 

A qualquer pessoa que se sinta tentada a responder: “Não acredito que as pessoas possam ficar entusiasmadas com algo assim”, eu responderia que existe uma grande variedade de coisas pelas quais se sabe que as pessoas ficam entusiasmadas, muitas das quais parecem estranhas para quem está de fora. Isso aplica-se a interesses casuais (observação de aves, filatelia, espectáculos desportivos, desportos de fantasia) e de interesses mais sérios, incluindo uma grande variedade de valores e práticas religiosas e espirituais. Alguns vêem o altruísmo eficaz mais como um hobby, enquanto outros o vêem mais como um valor religioso ou espiritual (ou implícito nos seus valores religiosos ou espirituais); em todos os casos, os altruístas eficazes estão envolvidos na prática muito comum de ter um interesse que vai para além da sua vida quotidiana e das suas necessidades imediatas. Não há absolutamente nada de anormal em alguém que se preocupa muito com tal interesse; que renuncia a algumas coisas palpáveis por causa de tal interesse; e que usa o raciocínio intelectual na prossecução de tal interesse.

Os atletas às vezes falam em “dar 110%” ou “dar tudo dentro do campo” – eles não podem ficar satisfeitos com o seu esforço se sentirem que não deram o seu máximo. Eu sinto o mesmo em relação à selecção estratégica de causas. Se eu desperdiçasse uma oportunidade de fazer o bem porque ela não apelava a interesses pessoais pré-existentes, ou porque envolvia demasiado raciocínio abstracto, sentiria como se não tivesse “dado tudo dentro do campo”.

Note-se que isto não significa que esteja disposto a abdicar de tudo o resto que valorizo e aprecio em prol do altruísmo eficaz – não estou. Mas quando estou empenhado em actividades centradas no altruísmo, quero estar totalmente empenhado. 

Espero que o movimento do altruísmo eficaz cresça

Até agora, fiquei um pouco surpreendido com o facto de poucas pessoas parecerem partilhar o meu interesse pelo altruísmo eficaz. Muitas pessoas querem ajudar os outros e muitas aplicam uma grande dose de intelecto e de paixão ao fazê-lo, mas poucas parecem estar a fazer a pergunta: “Em que problema deveria trabalhar a fim de ter o maior impacto positivo possível”?

Mas o meu palpite é que mais pessoas irão fazer esta pergunta com o passar do tempo. Acredito que existem tendências bastante robustas em cada uma das seguintes áreas:

  • O mundo está a ficar mais rico. São cada vez mais os que conseguem satisfazer, com segurança, as suas próprias necessidades materiais.
  • O mundo está a tornar-se mais desigual. As diferenças entre os privilegiados e os desfavorecidos estão a atingir níveis que parecem obrigar à acção.
  • O mundo está a ficar melhor na transmissão de informações. Mais do que nunca, temos as ferramentas para saber o quão privilegiados somos, para saber que acções temos à nossa disposição, para escolher com base na informação disponível e para tomar decisões informadas. Temos também as ferramentas para transferir os nossos recursos para o mundo inteiro com elevada eficiência e precisão.

Hoje em dia, qualquer pessoa com 100 dólares disponíveis tem a capacidade para saber como é relativamente afortunada, para ficar a conhecer as suas muitas opções de como fazer a diferença e para agir de forma verdadeiramente significativa e impactante. Num mundo assim, espero que um número crescente de pessoas faça a seguinte pergunta: “Como posso aproveitar ao máximo esta oportunidade?” E espero que o perguntem não com base na culpa e na obrigação, mas sim com base no seu desenvolvimento pessoal e entusiasmo. 


Publicado originalmente por Holden Karnofsky no Blog da GiveWell, a 20 de Agosto de 2013 (actualizado em: 25 de Julho de 2016).

Tradução de José Oliveira.

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