Mortalidade Infantil: uma tragédia diária de enormes proporções face à qual podemos fazer progressos

Por Max Roser (Our World in Data)

Morrem 10 crianças por cada minuto? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

As questões sobre a vida e a morte têm de estar no centro desta publicação online sobre os maiores problemas do mundo. O que quer que possamos desejar, estar vivo e saudável é um pré-requisito para tudo isso.

Num mundo que enfrenta muitos problemas de saúde de grande dimensão, o pior para mim é a morte das crianças. 

A mortalidade infantil refere-se à morte de crianças antes do seu quinto aniversário.1 Vivemos num mundo em que 5,4 milhões de crianças morrem todos os anos. São dez crianças que morrem por minuto.2

Imagine o que significa para uma criança perder a sua vida; imagine o que significa para uma família ver o seu filho morrer. Dez famílias irão sentir isso no próximo minuto. Isso irá repetir-se a cada minuto durante o resto do ano. É esse o horror da mortalidade infantil. 

A mortalidade infantil é uma tragédia diária de enormes proporções que raramente chega aos títulos dos jornais

Estas tragédias diárias não recebem a atenção que merecem. Compará-las com aquelas tragédias que de facto recebem a atenção do público deixa isso claro. Um grande avião jumbo pode transportar até 600 passageiros.3 O número de mortes de crianças é equivalente a um acidente de um avião jumbo apenas com crianças a bordo, todas as horas de todos os dias do ano.

Um jornal que noticiasse os acontecimentos mais importantes que se deram nas últimas 24 horas, na sua primeira página, daria sempre notícia dos milhares de mortes de crianças. O título seria o mesmo todos os dias: “Ontem Morreram 14 000 Crianças”. 

Mas os jornais falam-nos dos acontecimentos extraordinários que se deram nas últimas 24 horas, não dos acontecimentos comuns que se dão todos os dias, independentemente de quão trágicos possam ser. Isto significa que um dos maiores problemas do mundo quase não é mencionado na opinião pública e quase passa despercebido nos noticiários.

A crueldade diária da morte de milhares de crianças permanece praticamente invisível.

Desigualdade global: em países onde os rendimentos são muito elevados, a mortalidade infantil é baixa

O risco de morte que um recém-nascido enfrenta difere enormemente consoante os diferentes países. Isto é o que mostra o gráfico de dispersão. Este traça o risco de morte no eixo vertical face ao rendimento médio do país no eixo horizontal.4

A desigualdade é extremamente elevada. Uma criança que nasça num dos países mais pobres enfrenta uma probabilidade de um em dez de morrer nos primeiros cinco anos da sua vida. Nos países ricos, a taxa de sobrevivência pode atingir os 99,8%.

Em todo o mundo, os rendimentos elevados são uma condição necessária, mas não suficiente, para a boa saúde das crianças. O gráfico mostra que todos os países nos quais as crianças têm uma grande probabilidade de sobreviver são países de rendimentos elevados. 

O facto de a desigualdade económica mapear a desigualdade da sobrevivência infantil significa que uma criança num país rico tem uma vantagem de duas maneiras: pode ter a expectativa de sobreviver e irá viver numa sociedade onde os rendimentos são mais de 70 vezes acima do que os rendimentos dos países mais pobres.

Child mortality gdp per capita

É possível mudar o mundo 

Esta desigualdade não existia no passado. Nos tempos pré-modernos, a mortalidade em tenra idade era extremamente elevada, independentemente do local de nascimento de uma criança. Nas sociedades do mundo inteiro, cerca de metade das crianças morria antes de chegar ao fim da puberdade. → Aqui está o meu post sobre a mortalidade infantil no passado.

A história da mortalidade infantil mostra que é extremamente difícil manter as crianças vivas; muitas coisas têm de correr bem para que uma criança sobreviva. É por isso que a mortalidade infantil é um indicador bastante bom das condições de vida em geral numa sociedade. 

A desigualdade global que vemos hoje é a consequência de um progresso desigual. Mesmo nos países mais saudáveis e ricos de hoje em dia, as baixas taxas de mortalidade infanto-juvenil são uma conquista muito recente: o gráfico mostra o declínio da mortalidade infantil no país que tem hoje a mais baixa mortalidade infantil. No século XIX, cerca de um terço das crianças na Islândia morria (uma taxa muito mais elevada do que nos países em pior situação hoje em dia). Uma boa saúde infantil é consequência do progresso registado na história recente do país.

Gráfico interactivo aqui. Com o botão “Add country” [“Adicionar país”] é possível ver o declínio da mortalidade infantil noutros países. Este gráfico apenas inclui dados para os países e períodos para os quais estão disponíveis dados de maior qualidade; o gráfico abaixo também mostra estimativas para os países para os quais não estão disponíveis dados de alta qualidade.

Não devemos cometer o erro de acreditar que seria fácil para todas as crianças alcançar as oportunidades das crianças da Islândia. Conseguir alcançar o crescimento económico é um processo difícil e lento, e é difícil melhorar a saúde de uma  população inteira. Mas o facto de que até mesmo os países mais ricos terem lutado durante milénios para manter as crianças vivas e terem melhorado a saúde das suas crianças apenas nas últimas décadas, sugere que não há nada que impeça o mesmo progresso nos países onde as crianças têm hoje a saúde mais pobre.

Também é importante ter presente que todos os países – mesmo os que hoje estão em pior situação – já registaram progressos: 

– O gráfico de linhas abaixo mostra que a taxa de mortalidade infantil diminuiu em todas as regiões do mundo. 

– O mapa do mundo mostra esta história ainda com mais detalhes. Por predefinição, vemos as reconstituições da mortalidade infantil em países de todo o mundo que remontam a 1800. Se pressionar o botão “play” no canto inferior esquerdo, irá ver como a mortalidade mudou desde então. A mortalidade infantil diminuiu em todos os países do mundo. O mais rápido desse progresso foi nas últimas décadas.

Melhorias na nutrição, acesso a vacinas, saneamento, cuidados de saúde e parteiras, melhor habitação e aumento da prosperidade, melhor educação (especialmente das mães) e muitos outros desenvolvimentos positivos têm feito a diferença na redução da taxa de mortalidade das crianças.

Ambas as visualizações deixam dois pontos claros: o mundo tem registado grandes progressos, mas a mortalidade infantil é, ainda hoje, algo inaceitavelmente comum.

Gráfico interactivo aqui.
Gráfico interactivo aqui. Esta visualização inclui reconstituições da mortalidade infantil em todos os países nos últimos dois séculos, as estimativas para alguns países – especialmente as do passado – estão associadas a grandes incertezas. O gráfico acima apenas inclui dados para os países e períodos para os quais existem dados de maior qualidade.

Como já escrevi antes, é verdade que todas as três afirmações são verdadeiras ao mesmo tempo: O mundo está muito melhor, o mundo é horrível, o mundo pode ser muito melhor.

No entanto, ao ler as notícias, não se ficaria a saber de nada disto. As notícias não relatam a tragédia diária permanente da mortalidade infantil, nem o facto de vivermos no período da história mundial em que a humanidade está a registar os mais rápidos progressos.

Olhando para o futuro, é claro que precisamos – e podemos – fazer muito mais. Ainda estamos nas etapas iniciais do progresso, mesmo contra os problemas globais mais graves. A história dos últimos dois séculos deixa claro que não temos de aceitar o mundo tal como ele é. 

Não temos de aceitar um mundo em que morrem 10 crianças por minuto. A investigação e os dados mostram claramente que a nossa geração tem a possibilidade de construir um mundo no qual as crianças em toda a parte possam viver uma vida saudável, independentemente do lugar do mundo em que nasçam.


Ao doar parte do seu dinheiro a uma instituição de caridade eficaz, pode contribuir para este progresso histórico face à  saúde das crianças pobres. Se quiser ajudar, então a sua decisão relativamente a onde doar tem bastante importância. Se escolher mal, não irá ajudar ninguém (ou até pode mesmo piorar as coisas). Se escolher bem, pode fazer uma verdadeira diferença.

Os investigadores da GiveWell fazem o importante trabalho de identificar as instituições de caridade onde a sua doação pode fazer a maior diferença positiva no mundo. Confio na experiência deles. Aqui encontra as instituições de caridade recomendadas: givewell.org/charities/top-charities 


Continue a ler sobre o Our World in Data [O Nosso Mundo em Dados]:

No Our World in Data encontra muito mais investigações e dados sobre as razões pelas quais as crianças morrem e como é possível melhorar a saúde infantil. → Pode encontrar esse trabalho através da nossa publicação sobre mortalidade de bebés e de crianças.

Agradecimentos: Gostaria de agradecer à Hannah Ritchie pela leitura dos rascunhos deste texto e pelos seus comentários e ideias úteis.

Notas

1. Nas estatísticas de saúde, a taxa de mortalidade infanto-juvenil refere-se à probabilidade de morte nos primeiros cinco anos de vida das crianças que nasceram vivas. É frequentemente expressa por 1000 nados-vivos. Embora este texto o expresse em termos percentuais para facilitar a sua compreensão. A “taxa de mortalidade infantil” refere-se à probabilidade de morte dentro do primeiro ano de vida.

2. Aqui e nos parágrafos seguintes, reporto médias que assumem uma distribuição uniforme das mortes de crianças ao longo do ano.
5 188 872 crianças morrem num ano / 365,25 dias = 14 206 crianças morrem em média por dia;
14 206 crianças morrem num dia / 24 = 591,92 crianças morrem em média por hora; 
591,92 crianças morrem numa hora / 60 = 9,865 crianças morrem em média por minuto.

3. O número exacto de lugares depende da configuração dos assentos. pt.wikipedia.org/wiki/Boeing_747

4. Ambos os eixos são logarítmicos. O que vemos nos dados globais é que, entre os países que têm a melhor saúde para um determinado nível de rendimento, a taxa de mortalidade infanto-juvenil desce para metade de cada vez que o rendimento duplica.


Publicado originalmente por Max Roser no Our World in Data, a 21 de Julho de 2021.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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