O mundo está muito melhor; o mundo é horrível; o mundo pode ser muito melhor

Por Max Roser (Our World in Data)

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O mundo está melhor, horrível, ou pode melhorar? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

O mundo está muito melhor. O mundo é horrível. O mundo pode ser muito melhor. Todas as três afirmações são verdadeiras.

Aqui, concentro-me na mortalidade infantil, mas o mesmo pode ser dito a propósito de muitos aspectos do desenvolvimento global. Há muitos aspectos do desenvolvimento para os quais é verdade que as coisas melhoraram ao longo dos tempos, para os quais elas ainda são terríveis, e para os quais sabemos que as coisas podem melhorar.

O mundo é horrível

Na visualização abaixo, apresento três hipóteses sobre a mortalidade infantil. A barra azul representa o número real de mortes infantis por ano na atualidade. Dos 141 milhões de crianças nascidas a cada ano, 3,9% morrem antes do seu quinto aniversário. Isso significa que a cada ano 5,5 milhões de crianças morrem; em média, 15.000 crianças morrem todos os dias.[1]

Claramente, um mundo onde acontece tal tragédia é um mundo horrível.

O mundo está muito melhor

A grande lição da história é que as coisas mudam. A escala dessas mudanças é difícil de perceber. As condições de vida nos países mais pobres na atualidade são agora, em uma série de aspectos, muito melhores do que as dos países mais ricos do passado: a mortalidade infantil nos lugares com as piores condições atuais situa-se entre os 10 e os 13%; em todas as regiões do mundo, esta era mais de três vezes maior [entre 30 e 50%] até algumas gerações atrás. No início do século XIX, estima-se que 43% das crianças do mundo morreram antes dos cinco anos de idade. Se ainda sofrêssemos de saúde debilitada como os nossos antepassados, mais de 60 milhões de crianças morreriam todos os anos, 166.000 todos os dias.[2] É isso que a barra vermelha representa na visualização abaixo.

Se quiser ver como a mortalidade infantil mudou, leia a publicação de Hannah Ritchie de dois dias atrás: “Do lugar comum à tragédia mais rara: o declínio da mortalidade infantil em todo o mundo”.

Essas grandes melhorias não se limitam à saúde; o mesmo acontece com outros aspectos (como mostro na minha curta história das condições de vida). Em vários aspectos fundamentais (obviamente, não todos), conseguimos um progresso muito substancial e sabemos que muito mais é possível. Esses aspectos também incluem educação, liberdade política, violência, pobreza, nutrição e alguns aspectos das mudanças ambientais.

O que aprendemos com isso é que é possível mudar o mundo. Acredito que saber que é possível fazer a diferença é um dos fatos mais importantes a saber sobre o nosso mundo.

O mundo pode ser muito melhor

O progresso ao longo do tempo mostra que foi possível mudar o mundo, mas o que sabemos sobre o que é possível para o futuro? Teremos nascido naquele desafortunado momento da história moderna em que o progresso global parou?

O estudo dos dados globais sugere que a resposta é negativa. Uma maneira de ver isso é olhar para os lugares no mundo com as melhores condições de vida. A desigualdade nas condições de vida no mundo atual mostra que ainda há muito trabalho a ser feito. Se as condições de saúde em todos os países do mundo fossem iguais, não seria realmente possível saber se melhorias adicionais são possíveis ou como alcançá-las. Mas o fato de alguns lugares já terem atingido uma saúde infantil muito melhor não deixa dúvidas: uma saúde infantil melhor do que a média global não é apenas uma possibilidade, mas uma realidade.

Então, qual seria a mortalidade infantil global se as crianças em todo o mundo tivessem condições tão boas quanto as crianças nos lugares mais saudáveis na atualidade?

A barra verde escuro na visualização mostra a resposta. A região com menor mortalidade infantil é a União Europeia (UE). A média na União Europeia (0,41%) é 10 vezes menor do que a média mundial (3,9%).[3] Na UE morrem 1 em cada 250 crianças, enquanto globalmente essa taxa é de 1 em 25. Se as crianças em todo o mundo tivessem condições tão boas quanto as da UE, todos os anos morreriam 5 milhões de crianças a menos.

É claro que uma taxa de mortalidade infantil de 1 em 250 ainda é alta demais. Será uma grande conquista se o mundo como um todo alcançar esse nível de saúde, mas nos lugares mais saudáveis também devemos tentar ultrapassar os limites do que já se mostrou possível.

Certamente não devemos cometer o erro de acreditar que seria fácil reduzir a taxa de mortalidade infantil global para aquela da UE. Para uma sociedade alcançar um nível de saúde tão bom, muitos aspectos do desenvolvimento precisam melhorar; os países mais bem sucedidos de hoje passaram por dois séculos de crescimento econômico lento e sustentado que financiou as infraestruturas (habitação, saneamento, medidas de saúde pública) necessárias para uma boa saúde.

Mas ao passo que um mundo melhor não pode ser alcançado da noite para o dia, com as regiões mais ricas aprendemos o que é possível e, nesse sentido, sabemos que essas 5 milhões de mortes anuais são preveníveis. O fato da mortalidade infantil em regiões inteiras ser 10 vezes menor do que no mundo como um todo mostra-nos que é possível tornar o mundo um lugar melhor.

O mundo é horrível, e é por isso que precisamos conhecer as mudanças positivas

É mais fácil assustar as pessoas do que fazer com que tenham confiança, e muitos dos que escrevem sobre o desenvolvimento global relatam como o mundo é horrível. Concordo que é importante que saibamos o que há de errado com o mundo, mas dada a escala do que já conquistamos e aquilo que é possível para o futuro, acho que é irresponsável relatar apenas o quão terrível é a nossa situação.

O mundo está muito melhor. O mundo é horrível. O mundo pode ser muito melhor. Temos que estudar os dados para conhecer as três perspectivas sobre as condições de vida globais. Ao estudar o mundo através de dados, é impossível não perceber esses fatos. Mas os fatos de como o mundo está mudando não são conhecidos pela maioria de nós porque muitos dos autores que relatam as mudanças do mundo não levam os dados a sério. Isso precisa mudar.

O que temos que alcançar como escritores relativamente às mudanças globais é a transmissão das duas perspectivas ao mesmo tempo: precisamos saber o quão terrível ainda é o mundo, e saber que um mundo melhor é possível. Isto é o que espero fazer (por exemplo, neste texto do início deste ano, que Bill Gates publicou em seu blog).

Se tivéssemos atingido o melhor de todos os mundos possíveis, não passaria minha vida a escrever e a pesquisar sobre como chegamos aqui. O que me faz continuar é a partilha do conhecimento de que a mudança é possível — embora não seja inevitável — e a partilha da riqueza de conhecimento que pesquisadores do mundo inteiro reuniram sobre como criar um mundo melhor para todos.

Sabemos que é possível tornar o mundo um lugar melhor porque já o fizemos. O mundo ainda é horrível e é por isso que é tão importante escrever sobre como este se tornou um lugar melhor.

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Notas de rodapé

[1] Mortes de crianças em 2017: 140,95 * (3,9 / 100) = 5.497.050. Isso implica 5.497.050 / 365,25 = 15.050 mortes de crianças por dia.
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[2] Não sabemos quantas crianças realmente morreram nesse período porque não tenho estimativas do número de nascimentos globais para a época. Para as décadas de 1950 e 1960, temos estimativas tanto para o número de nascimentos quanto para a taxa de mortalidade, e os registros mostram que cerca de 20 milhões de crianças morreram a cada ano. Veja os dados aqui.
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[3] Das 46 diferentes regiões do mundo para as quais o Banco Mundial publica a mortalidade infantil média, a Área do Euro e a UE apresentam, respectivamente, a menor e a segunda menor taxas de mortalidade infantil.
Se olharmos para países isolados, esta diferença torna-se ainda mais marcante, uma vez que nos países com a melhor saúde, a taxa de mortalidade infantil é novamente quase duas vezes mais baixa do que na UE como um todo.
O país com a menor taxa de mortalidade infantil na atualidade é a Islândia, onde 1 de 476 recém-nascidos (0,21%) morre quando criança.
Este gráfico mostra a classificação.
A Islândia, no entanto, sendo um país muito pequeno tem muito poucas crianças. Por ano, apenas 4.500 crianças nascem na ilha.
A uma taxa de mortalidade de 0,21%, isso significa que 9 recém-nascidos morrerão enquanto crianças [4.425 recém-nascidos * (0,21 / 100) = 9,3 recém-nascidos].
Devido a esta pequena amostra, nesta discussão não me baseei no país com a melhor saúde infantil, mas numa grande região do mundo como a UE, onde nascem milhões de crianças todos os anos. 

Texto de Max Roser publicado originalmente no Our World in Data a 31 de outubro de 2018.

Tradução de Daniel de Bortoli e revisão de José Oliveira.

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