Se quer discordar do altruísmo eficaz, será necessário que discorde de uma destas 3 afirmações

Por Benjamin Todd (Effective Altruism Forum)

Salvar_Criança

Como discordar do Altruísmo Eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

 

O altruísmo eficaz é frequentemente motivado pelo apelo ao argumento do lago de Peter Singer.

Isso é bom porque é um argumento forte, concreto e bem estudado. No entanto, existem duas desvantagens (i) associa o altruísmo eficaz ao desenvolvimento internacional (ii) dá a entender que se pode refutar a importância do altruísmo eficaz ao refutar o argumento do lago.

De facto, a importância do altruísmo eficaz é muito mais robusta do que o argumento do lago. Em vez disso, baseia-se naquilo a que chamo de “argumento geral do lago”. Se, na promoção do altruísmo eficaz, nos concentrarmos mais no argumento geral do lago do que no argumento original do lago, então poderemos defender mais fortemente o altruísmo eficaz, e de uma maneira que não esteja tão estritamente associada ao desenvolvimento internacional. Isso pode funcionar melhor com determinados públicos.

A seguir, faço um esboço do argumento geral do lago, explico como usá-lo para esclarecer objecções ao altruísmo eficaz, depois sugiro o que isso pode significar para promover as ideias.

 

Introdução do argumento geral do lago

O argumento original do lago é o seguinte:

1. Se puder ajudar os outros sem sacrificar algo de significado semelhante, deve fazê-lo. Por exemplo, deve salvar uma criança de se afogar num lago, mesmo que isso estrague algumas roupas caras.

2.  Podemos ajudar os pobres do mundo com pouco custo para nós mesmos, ao doar a instituições de caridade eficazes.

E (1) e (2) implicam que:

3. Devemos doar os nosso bens a instituições de caridade eficazes até que se torne um sacrifício significativo.

Um problema ao defender tal argumento é que este leva frequentemente a um debate sobre se (2) é verdadeiro, ou seja, se a ajuda internacional ajuda realmente os pobres do mundo.

No entanto, pode-se negar que a ajuda internacional funciona e, mesmo assim, achar que o altruísmo eficaz é importante. 

Chamemos de acção “tipo a do lago” àquela que beneficie muito os outros com pouco custo para si mesmo. O altruísmo eficaz é importante, desde que existam algumas acções tipo a do lago.

Aqui estão alguns exemplos de acções tipo a do lago que são amplamente discutidas na comunidade:

1. Doar a instituições de caridade recomendadas pela GiveWell e a ACE [Animal Charity Evaluators].
2. Persuadir os outros a fazer essas doações.
3. Abandonar o consumo da carne da pecuária industrial e persuadir os outros a fazer o mesmo.
4. Votar em eleições muito disputadas, nas quais lhe parece que um candidato seria muito melhor que outro.
5. Caso se integre bem nessa área, enveredar por uma grande variedade de carreiras de alto impacto, como na área da pesquisa, ganhar para dar e defender causas, ou trabalhar no Open Philanthropy Project.
6. Promover o altruísmo eficaz.

E muitas outras dentro de cada área de problemas.

(Algumas delas envolvem mais sacrifício do que outras, mas tudo bem, desde que as acções que exigem maior sacrifício também sejam mais eficazes.)

Se alguma das acções acima for verdadeiramente tipo a do lago, então o altruísmo eficaz é uma ideia importante.

Podemos expor o caso mais formalmente com o “argumento geral do lago”:

A.  Se sabemos que existem acções tipo a do lago, e estas não violam as regras comuns da moralidade (p. ex. violar direitos), devemos fazê-las. (Esta é a afirmação moral). [1]

B. Existem algumas acções tipo a do lago que ainda não são amplamente realizadas. (A afirmação empírica).

C. Podemos chegar a saber quais acções são tipo a do lago, particularmente usando provas e a razão (editado: “mais do que as pessoas normalmente fazem”). (A afirmação epistémica).

A, B e C implicam que há algumas acções tipo a do lago que devemos realizar e que não estão a ser realizadas actualmente.

Poderíamos ver a missão do altruísmo eficaz como sendo a identificação dessas acções e ajudar a que se tornassem mais amplamente adoptadas, e desse modo fazer uma enorme quantidade de bem.

Porque existem tantas acções tipo a do lago? (e portanto, qual será a importância do altruísmo eficaz?)

Qualquer uma das seguintes cinco observações implica que haverá muitas acções tipo a do lago. Nós tendemos a concentrar-nos apenas na primeira delas, mas acho que cada uma das cinco é significativa.

1. Desigualdade no mundo. Quem frequentou a faculdade nos países desenvolvidos é cerca de 100 vezes mais rico que os pobres do mundo. Isso significa que essas pessoas podem fazer cerca de 100 vezes um bem maior se fizerem acções para ajudar os pobres do mundo, e não a elas próprias. Se os benefícios forem 100 vezes maiores do que o sacrifício envolvido, a acção será tipo a do lago. Mais simples, podemos fazer isso transferindo o nosso rendimento para os pobres do mundo. No entanto, provavelmente podemos encontrar maneiras *ainda mais* eficazes de ajudar os pobres do mundo, tais como intervenções de saúde ou apoiando uma migração internacional maior, o que iria elevar a proporção de benefícios para custos acima de 100.

2. Preocupação moral com os animais. Caso acredite que o bem-estar dos animais é moralmente importante, então provavelmente haverá acções tipo a do lago. Isso ocorre porque os animais não têm poder económico ou político, portanto, são incapazes de proteger os seus próprios interesses. Isso significará que devemos esperar que hajam maneiras de beneficiar muitos animais por meio de custos reduzidos. Um exemplo simples é tornarmo-nos vegetarianos. O americano médio come cerca de 100 animais por ano, quase todos eles vivem na pecuária industrial, assim, ao tornarmo-nos vegetarianos, evita-se que, por ano, 100 animais tenham um sofrimento terrível, isto por um pequeno custo para si. E, novamente, é provável que encontre acções ainda mais eficazes do que esta.

3. A capacidade de afectar o futuro. Haverá muitas mais pessoas a viver no futuro do que as que estão vivas hoje. Caso acredite que devemos ter uma preocupação moral pelas gerações futuras e que algumas das nossas acções podem afectá-las, então isso levanta a possibilidade de acções tipo a do lago. Uma maneira simples pela qual podemos afectar todas as gerações futuras é causar a extinção humana, portanto, se houver algo que possamos fazer hoje para tornar menos provável a extinção humana, então há uma boa probabilidade de que essas acções sejam tipo a do lago.

4. A possibilidade de influenciar. Caso se concentre em encontrar as melhores maneiras de ajudar os outros, muitas vezes poderá encontrar formas de fazer o bem que são mais influentes do que apenas fazer coisas boas por si mesmo. Por “mais influentes”, quero dizer algo como “fazer uso de mais recursos do que apenas os seus próprios”. Por exemplo, caso considere que alguma acção, A, é boa, provavelmente encontrará uma maneira de fazer com que 10 pessoas façam A. Essa acção tem um impacto 10 vezes maior do que A em si. Assim, mesmo que A não seja tipo a do lago, há uma boa probabilidade de que 10xA seja tipo a do lago. Caso considere que existem muitas oportunidades de influenciar, então haverá muitas acções tipo a do lago. Parece-me que existem muitas oportunidades de influenciar porque são poucas as pessoas que pretendem ter um grande impacto social.

5. Os Métodos existentes são fracos. Actualmente muitas tentativas de fazer o bem não são muito estratégicas ou baseadas em provas cientificas. Sendo assim, caso se apliquem mais métodos baseados em provas, talvez pensemos que se pode encontrar maneiras de fazer o bem que sejam 10 ou 100 vezes melhores do que aquelas em que as pessoas normalmente se concentram. As formas normais de fazer o bem talvez não sejam tipo a do lago, mas algo 10 vezes mais eficaz é tipo a do lago. Portanto, ao adoptar-se uma abordagem estratégica baseada em provas pode significar que se encontrará muitas acções tipo a do lago.

Parece-me que cada uma das cinco é provavelmente verdadeira. Em resumo, vivemos num mundo não intuitivo, onde existem enormes desigualdades e as nossas acções têm efeitos difusos, mas significativos, sobre os outros. Isso significa que as nossas intuições morais falham regularmente. Embora não pareça, estamos cercados por crianças que se afogam em lagos. E é por isso que o altruísmo eficaz acaba por ser uma ideia nova e importante.

 

Como não refutar a importância do altruísmo eficaz

Para discordar do altruísmo eficaz, é necessário discordar de uma das três afirmações do argumento geral do lago.

A maioria das críticas ao altruísmo eficaz não atinge o alvo. Alguns erros comuns incluem:

1. Equiparar o altruísmo eficaz ao utilitarismo, levantando depois as objecções clássicas ao utilitarismo. No entanto, o altruísmo eficaz baseia-se numa afirmação moral muito mais fraca (A), que se deve realizar acções que são um grande benefício para os outros com pouco custo para nós mesmos (ou mesmo A’ que essas acções são apenas muito boas, mas não obrigatórias). Em contraste, o utilitarismo diria que se deve realizar uma acção que seja um grande sacrifício, desde que isso seja um bem um pouco maior para qualquer outra pessoa. O utilitarismo também nega que qualquer coisa seja importante excepto o bem-estar e que é permitido violar direitos na busca do bem maior. O altruísmo eficaz não defende nenhuma dessas coisas. Para obter mais informações sobre essas objecções, consulte as Críticas Filosóficas ao Altruísmo Eficaz (ligação para o download) do Prof. Jeff McMahan.

2. Argumentar que uma acção específica não é tipo a do lago, ou que os altruístas eficazes se concentram nas acções tipo a do lago erradas, por exemplo, criticando a eficácia da ajuda internacional. Essa crítica é apenas uma contribuição útil para a missão do altruísmo eficaz de identificar as melhores acções tipo a do lago. Para mostrar que o altruísmo eficaz é uma má ideia em geral, seria necessário demonstrar que *não há* argumentos tipo o do lago que ainda não sejam amplamente reconhecidos. Escrevemos mais sobre esse tipo de objecções aqui.

3. Dizer que os altruístas eficazes acham que apenas se deve apoiar instituições de caridade que se fundamentam em provas de estudos aleatórios controlados. De facto, apenas confiamos na afirmação muito mais fraca (3) de que existem algumas maneiras de identificar acções tipo a do lago, para as quais os estudos aleatórios controlados são apenas uma ferramenta. Na verdade, muitas vezes achamos que é mais eficaz concentrarmo-nos em acções com uma pequena probabilidade de um grande retorno, em vez de provas sólidas, como escrevemos aqui.

 

Que tipos de críticas podem acertar o alvo?

Uma opção é rejeitar a afirmação moral: negar que devemos ajudar os outros, mesmo que isso seja um pequeno sacrifício para nós mesmos. É desagradável seguir este caminho, já que provavelmente significaria aceitar que não há nada de errado em deixar uma criança a afogar-se num lago à nossa frente.

A menos que seja possível demonstrar que há uma importante diferença moral entre a criança que se afoga no lago e todas as outras acções tipo a do lago que a comunidade de altruísmo eficaz apoia. No entanto, isso é muito mais difícil do que apenas mostrar que há uma diferença moral entre a acção específica tipo a do lago (como no domínio da saúde fazer doações a instituições de caridade internacionais eficazes) e salvar-se a criança no lago.

Além disso, mesmo que se consiga demonstrar que as novas acções tipo a do lago não são moralmente obrigatórias, ainda assim seriam coisas boas para se fazer (supererrogatórias). Ter-se-ia demonstrado que ser um altruísta eficaz não é moralmente exigível, mas ainda assim é recomendável.

A segunda opção é negar que existam novas acções tipo a do lago que possamos vir a conhecer. Novamente, isso é relativamente fácil de se fazer no caso de uma única acção tipo a do lago, mas é muito mais difícil demonstrar que não existe *nenhuma* nova acção tipo a do lago que se possa conhecer.

Teria que se demonstrar o seguinte:

1. *Nenhuma* das acções listadas acima é tipo a do lago.

2. Nenhuma outra acção tipo a do lago será descoberta.

Até agora, nenhum crítico do altruísmo eficaz demonstrou algo do género.

A terceira opção, e na minha opinião a mais promissora, é aceitar que o altruísmo eficaz, como uma ideia, é correto — aceitando o argumento geral do lago — mas negar que o altruísmo eficaz como um movimento terá sucesso a fazer uma enorme quantidade de bem. Talvez seja muito difícil persuadir as pessoas a fazer o que é correcto, ou os actuais líderes do movimento irão falhar, ou seremos incapazes de descobrir quais são as acções tipo a do lago. Ou talvez haja uma maneira muito mais importante de fazer o bem que devêssemos fazer em alternativa a isto.

 

Conclusão e algumas lições potenciais para promover o altruísmo eficaz

Não proponho que devamos avançar literalmente com o argumento geral do lago, já que é muito abstracto. No entanto, parece útil tê-lo em mente ao promover essas ideias.

Em particular, ao motivar o altruísmo eficaz, suspeito que seria útil discutir uma gama mais ampla de acções tipo a do lago do que apenas doar no domínio da saúde a instituições de caridade internacionais eficazes.

Se pudermos comunicar essa ideia de que, se existirem *algumas* acções tipo a do lago, então o altruísmo eficaz é uma ideia importante, apresentaremos o caso de maneira muito mais robusta do que se nos concentrarmos apenas em algumas acções específicas.

Além disso, estaremos a garantir que os críticos se concentrem no núcleo das ideias, ajudando-nos a aprender melhor e a fazer uma maior quantidade de bem.

Nota:
[1] Caso prefira evitar considerar o altruísmo eficaz enquanto obrigação moral, então poderá substituir (A) por algo como (A’): “caso saiba que existem acções tipo a do lago, é uma coisa muito boa se as fizer” (Isto é, tornar as acções tipo a do lago supererrogatórias e não obrigatórias).


Texto de Benjamin Tod publicado originalmente no Effective Altruism Forum em 25 de Setembro de 2016.

Tradução de José Oliveira.

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