Empatia diferenciada entre vegetarianos, veganos e onívoros

Por Celine Icard-Stoll (Faunalytics)

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Veg@ns ou omnívoros, quem tem mais empatia? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

A decisão de seguir um estilo de vida vegetariano/vegano afeta o nosso processamento cognitivo da empatia? Um estudo de pesquisa neural diz que talvez sim.

Para muitos, a escolha de seguir um estilo de vida vegetariano/vegano é uma escolha fácil; é uma decisão baseada em ética e valores. Optar por não consumir produtos de origem animal significa não participar de uma indústria que frequentemente explora e abusa de animais. Assim, para muitos defensores dos animais, é obrigatório levar esse estilo de vida para manter uma ética consistente, ética que se constrói a partir de grandes sentimentos de empatia em relação aos animais. Esta pode ser uma conclusão de “senso comum” para muitos defensores dos animais. No entanto, o que dizer da empatia para com os seres humanos? Será que implementar estilos de vida que demonstrem maior empatia relativamente aos animais também afeta a forma como demonstramos empatia com as outras pessoas?

Um grupo de pesquisadores europeus decidiu responder a essa pergunta mapeando as nossas respostas neurais face ao sofrimento humano e animal. Usando imagens de ressonância magnética (IRM), os pesquisadores expuseram 20 onívoros, 19 vegetarianos e 21 veganos a imagens de seres humanos e de animais sofrendo e registraram as respostas dos seus cérebros. O estudo foi motivado por dois conceitos: primeiro, que a capacidade de empatia é uma característica exclusivamente humana. Segundo, que aqueles que seguem um estilo de vida vegetariano/vegano envolvem diferentes partes do cérebro quando se trata de empatia e cognição social. Os pesquisadores levantaram a hipótese de que os vegetarianos/veganos mostrariam atividade cerebral diferente dos onívoros quando se mostrassem aos dois grupos imagens de sofrimento.

Antes do estudo, todos os participantes concluíram uma avaliação do quociente de empatia (QE) para medir seus níveis de empatia auto-relatados. Os resultados possíveis variaram de 0 a 80, com um número maior sugerindo um nível mais alto de empatia. Os vegetarianos/veganos receberam uma pontuação média de 49,5 e 44,6, respectivamente. Esses números foram significativamente maiores que a pontuação média de 38,8 dos participantes onívoros.

Após a conclusão dessa avaliação, apresentaram aos participantes uma mistura de fotos envolvendo sofrimento humano, sofrimento animal e paisagens naturais (que constituíam imagens “neutras”). Durante esse procedimento, os participantes foram conectados a uma máquina de ressonância magnética para ler suas atividades neurais. Esses exames ao cérebro levaram os pesquisadores a vários pontos de interesse.

Primeiro, descobriram que os vegetarianos e os veganos parecem compartilhar uma arquitetura funcional de cognição emocional. Comparados ao grupo de onívoros, ambos os grupos mostraram um envolvimento notavelmente maior de regiões cerebrais relacionadas à empatia quando lhes mostraram imagens de sofrimento — quer incluíssem animais ou seres humanos. Em outras palavras, os vegetarianos/veganos demonstraram reações empáticas mais fortes.

Além disso, os vegetarianos/veganos mostraram um envolvimento ainda mais forte da empatia ao visualizar imagens de sofrimento animal. Nesses casos, mais regiões do cérebro foram ativadas. É interessante notar que essas regiões cerebrais ativadas são aquelas que se acredita estarem associadas à representação do eu, dos valores pessoais, da memória e do processamento visuoespacial, sugerindo que os vegetarianos/veganos veem o sofrimento dos animais como relacionado ao seu sentido de si mesmos.

Uma descoberta interessante foi que, depois de ver o sofrimento dos animais, as amígdalas da direita dos vegetarianos/veganos mostraram menos ativação do que as dos onívoros. A amígdala está associada a sentimentos de medo e ameaça e é responsável pelo que conhecemos como resposta de “lutar ou fugir”. Os pesquisadores calcularam que a diminuição da ativação quando confrontados com o sofrimento dos animais eram as tentativas do cérebro de regular as emoções em resposta a estímulos estressantes.

Finalmente, houve algumas descobertas fascinantes nos grupos de participantes vegetarianos e veganos. Quando apresentaram imagens de sofrimento animal aos vegetarianos, regiões cerebrais associadas ao aumento da atenção, maior dor empática, maior autocontrole e mais monitoramento foram envolvidas. Por outro lado, o cérebro dos veganos mostrou maior atividade na área associada ao controle cognitivo durante o processamento da emoção.

Como contribuem as pontuações do quociente de empatia para essas descobertas? Os pesquisadores procuraram especificamente correlações entre as pontuações do QE dos grupos e a atividade cerebral. Descobriram que, ao observar o sofrimento dos animais, ocorria uma relação direta entre as pontuações mais altas do QE e o aumento da atividade cerebral em áreas relacionadas à empatia nos vegetarianos/veganos. Nos onívoros, esse relacionamento era inverso.

Em uma palavra, vegetarianos, veganos e onívoros processam imagens de sofrimento de maneira diferente? Sim. Este estudo, embora pequeno, revelou algumas das maneiras pelas quais esses grupos diferem quando se trata de cognição e de empatia. É significativo por ser o primeiro a avaliar a empatia relativamente aos não humanos em pessoas de diferentes estilos de vida e representa uma interseção crucial entre a defesa dos animais e a neurociência. Deveremos aguardar com expectativa estudos futuros e complementares neste campo. Enquanto isso, sabemos agora que os vegetarianos/veganos podem realmente funcionar cognitivamente de maneiras diferentes, o que acrescenta uma camada totalmente nova à nossa ética e escolha de estilo de vida.

Link para o artigo: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/jo..


Publicado originalmente por Celine Icard-Stoll em Faunalytics, a 7 de fevereiro de 2019.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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