Onde devemos doar para fazer o maior bem?

pezinho

Pé de bebê com pulseira de vacinação | almasanaproject.org

Este é o ensaio vencedor da nossa competição.

Para onde devemos doar para fazer o maior bem? Qual é intervenção de saúde global mais eficaz, escalável, baseada em evidências, mas atualmente subfinanciada, que já está sendo implementada ou que pode ser implementada em breve?

A maior parte das falhas no desenvolvimento acontece no momento das entregas.

Em 2004, um relatório do Banco Mundial afirmou que as mortes por malária poderiam ser “totalmente eliminadas”, usando as intervenções de tratamento disponíveis (Banco Mundial, 2004). Mas dez anos depois, a malária ainda mata mais de 500 000 pessoas todos os anos (Organização Mundial da Saúde, 2014).

Uma estimativa sugeriu que, se o uso de todas as intervenções eficazes de prevenção e tratamento infantil comprovadas subissem dos níveis atuais para 99% (95% para a amamentação), o número de mortes de menores de cinco no mundo poderia cair em 63% (Jones, Steketee, Black, Bhutta, e Morris, 2003).

Nós investimos bilhões de dólares (Pt. milhares de milhões) para encontrar a próxima vacina, o próximo medicamento, a próxima intervenção possível. Mas nada que se pareça na melhoria da prestação de intervenções que já sabemos funcionar bem. Estes não são desafios primariamente científicos ou tecnológicos. São desafios de implementação, de entrega.

Então, qual é um exemplo de uma intervenção/entrega que deveríamos estar tentando?

A Alma Sana Inc. é uma empresa social fundada em 2012. A sua principal inovação é a utilização de simples pulseiras lembretes de vacina que são usadas por crianças desde o nascimento até aos quatro anos de idade.

alma_sana

As vacinas são altamente eficazes, escaláveis e têm uma das melhores bases em evidências comparadas com qualquer intervenção em saúde (de acordo com a GiveWell e o Copenhagen Consensus). O maior fator de risco em doenças infecciosas é a incapacidade de vacinação (McHugh, Guarecuco, Langer, & Jaklenec, 2015). No entanto, uma em cada cinco crianças do mundo não recebem imunização completa e oportuna. As vacinas são uma das nossas melhores armas contra a pobreza e a falta de saúde, ainda assim não estamos a fazer com que cheguem a mais de 18 milhões de crianças.

A falha em fornecer lembretes e o esquecimento por parte dos técnicos de saúde são as principais razões para as falhas na vacinação em um largo número de contextos (Patel & Pandit, 2011) (Wakadha et al., 2013) (Wilson, 2000) (Quaiyum et al., 2011). As mães podem ser analfabetas e terem dificuldade em entender os cartões de vacinação de rotina.

A pulseira Alma Sana é colocada nas crianças e usa símbolos para cada doença que são perfurados quando a vacina é aplicada. A pulseira foi implementada em um estudo piloto inicial de seis meses nas zonas rurais do Peru e do Equador. A produção da pulseira custa 0,10 dólares. Os resultados iniciais são positivos. 91% das mães disseram que as pulseiras ajudaram a lembrá-las das visitas de vacinação. 90% disseram que iriam continuar a usar as pulseiras no futuro, se possível. 87% disseram que recomendariam as pulseiras para outras mães. O próximo passo da inovação é executar um estudo maior de 1 ano com 5 000 mães e bebês. Mais informações estão no site da Alma Sana.

Esta poderia ser uma solução viável e prática para o desafio da vacinação? Possivelmente. Precisamos testá-la. Adaptá-la. Experimentá-la. Mas este é o tipo de inovação necessária para chegar a 20% das crianças não vacinadas que são difíceis de alcançar.

Em Bangladesh, as inovações relativamente simples, como adicionar o número de telefone de vacinadores nos cartões de imunização ajudou a aumentar a cobertura da vacinação em 15% em um único ano (Save the Children, 2012). O Bangladesh é um dos países mais pobres do mundo, mas a sua taxa de imunização nacional é de 95% (usando a mensuração DPT3) (OMS & UNICEF, 2014). Isso deve ser possível para todos os países se o foco correto for colocado sobre a entrega e a experimentação.

E a vantagem desta pulseira de vacinação da Alma Sana é que ela tem o potencial de melhorar o serviço de entrega de vacinação por toda a infância — um enorme impacto potencial por um custo muito baixo. As vacinas já são vistas como a “melhor compra” em saúde pública e altamente custo-eficazes (Organização Mundial da Saúde, UNICEF e Banco Mundial, 2009).

Ao estudar a possibilidade de financiar uma inovação, devemos pensar tanto no impacto que poderia ter, como na probabilidade de alcançar esse impacto. Nesta fase, não podemos dizer com certeza se as pulseiras de vacinação serão eficazes a aumentar as taxas de imunização apesar das indicações positivas iniciais. Mas, por cerca de 1 milhão de dólares essa intervenção será rigorosamente testada em três diferentes países para se estabelecer se funciona. Dado o custo de intervenção muito baixo até mesmo uma pequena melhoria nas taxas de vacinação é altamente provável que seja custo-eficaz.

A Giving What We Can, com razão, concentra-se nas áreas que estão subfinanciadas. Sendo uma organização que, de modo realista, só pode esperar dirigir ou orientar uma minoria de doações filantrópicas, esta é uma meta absolutamente apropriada. Mas a Giving What We Can também deve considerar sua vantagem comparativa quando comparada a outras organizações de financiamento.

Diante de uma escolha entre fazer uma doação para duas organizações igualmente eficazes, os doadores da GWWC devem escolher a alternativa mais obscura, menor e menos conhecida. É menos provável que elas recebam o dinheiro de alguma outra forma. A Alma Sana é uma pequena empresa social que tem até hoje recebido uma pequena doação da Fundação Gates e algum dinheiro de uma campanha de financiamento coletivo. Não conheço a sua situação financeira interna, mas parece improvável que eles tenham atualmente o dinheiro para financiar ensaios em todo o mundo e certamente não têm os recursos para dimensionar esta intervenção a nível nacional se tal se revelar bem sucedida.

É aqui que os doadores da Giving What We Can devem colocar seu dinheiro. Não no desenvolvimento “sexy” de novos medicamentos, ou nas já bem financiadas, experimentadas e testadas iniciativas de mosquiteiros contra a malária. Mas no trabalho vital, monótono e no entanto arriscado, de otimizar as entregas de intervenções comprovadas para garantir que elas atingem todos os que precisam. A Alma Sana é um excelente exemplo do tipo de serviço de inovação da entrega que tanto precisamos.

Bibliografia

 


Artigo de Ray Kennedy publicado originalmente no Blogue da Giving What We Can, a 9 de novembro de 2015.

Tradução de Thiago Tamosauskas. Revisão de José Oliveira.

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