Com a reforma tributária, poderá querer doar mais este ano. Um perito diz-nos como doar correctamente.

nos-ou-outros

Nós ou os outros, quem ajudar? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Dado o grande aumento no grau de dedução na lei de reforma tributária aprovada pelo Congresso, será menos provável que alguns americanos incluam deduções de donativos à caridade no ano fiscal de 2018 — esta probabilidade leva algumas organizações sem fins lucrativos a preocuparem-se com o facto de as doações poderem cair. É possível que queira doar mais este ano, antes que as novas regras entrem em vigor. Mas como pode ter a certeza de que está a doar para a causa correcta?Falamos com Charlie Bresler, que acha provável que a maneira como se está a doar dinheiro esteja completamente errada.Bresler deixou o cargo de presidente da Men’s Wearhouse há vários anos para dedicar a sua vida à filantropia e ao conceito do altruísmo eficaz, que significa maximizar o bem social em geral, em vez de doar a uma instituição de caridade à qual se possa ter uma ligação emocional. Exerce o cargo de Director Executivo, a título de voluntariado, na The Life You Can Save, uma instituição de caridade que incentiva as pessoas a doar para certas organizações sem fins lucrativos que salvam e melhoram vidas no mundo em desenvolvimento.

Bresler falou-nos sobre a desigualdade na distribuição da riqueza e por que razão defende o conceito de se usar a cabeça mais do que por vezes o coração, quando se doa dinheiro. Há uma calculadora no site que permite seleccionar um valor em dólares e ver até onde esse valor pode ir. Por exemplo, se doar 30 dólares à Against Malaria Foundation, servirá para comprar 12 redes mosquiteiras para proteger uma média de 18 pessoas contra a malária por três a quatro anos.

 

P. Estamos mesmo a doar mal o nosso dinheiro? O que significa isso?

Bresler: Sim, sem dúvida estamos a doar o nosso dinheiro muito incorrectamente, e podemos fazer uma enorme quantidade de bem ao mudarmos a forma como doamos. Dos 250 mil milhões [Br. bilhões] de dólares doados anualmente por indivíduos neste país, 94 por cento são a nível nacional e apenas 6 por cento vão para o exterior. Pense em que medida se poderia fazer um bem maior no mundo em desenvolvimento, onde o dólar vai muito mais longe. Doamos constantemente a instituições de caridade ineficazes. Apenas 35% das pessoas fazem alguma pesquisa antes de doarem. As pessoas geralmente só irão olhar para o índice de gastos gerais de uma instituição de caridade, e não para o seu impacto. É importante analisar as avaliações de resultados, o número de anos adicionados à vida de alguém ou a melhoria da qualidade de vida.

P: Será presunçoso da sua parte dizer às pessoas como devem doar o seu dinheiro?

Bresler: Talvez seja presunçoso, mas toda a gente lhe diz, directa ou indirectamente, para onde doar o seu dinheiro. Há anúncios incrivelmente inteligentes que lhe dizem para comprar coisas, afirmando que precisa delas. Deve avaliar: Será esta a pessoa com quem está à vontade para obter orientação? Vai ouvir o conselho dessa pessoa quer a conheça, quer não.

Usamos métodos altamente científicos que são o padrão de excelência na avaliação de instituições de caridade. Poderá ler sobre isso e digerir a informação. Poderá ter a certeza de que o seu dinheiro chegará lá e fará o bem que é suposto fazer. Não irá ver a rede anti-malária ou a mãe que leva o seu filho ao hospital por causa da diarreia. Mas caso se interesse, poderá ler sobre isso e até mesmo visitar.

P. Antes de mais, porque é que as pessoas devem sequer doar à caridade?

Bresler: A razão egoísta é que há evidências de que as pessoas se sentem bem. Doar dinheiro, de forma eficaz ou ineficaz, está demonstrado que faz as pessoas sentirem-se melhor sobre si mesmas e dá às pessoas uma sensação de ligação com o que as rodeia. As pessoas saem beneficiadas quando param de olhar para os seus próprios umbigos e olham para o resto do mundo.

O outro motivo é que, se doar dinheiro de uma forma altamente eficaz, pode reduzir uma quantidade tremenda de sofrimento e salvar as pessoas da morte prematura. Pode ter um impacto. Morrem todos os dias 7 500 crianças em todo o mundo devido a condições predominantemente evitáveis ​​associadas à pobreza, como a desnutrição, a malária e a diarreia. Não é disso que morrem as pessoas no ocidente.

P. Porque devemos preocupar-nos com as pessoas de todo o mundo quando há sofrimento nas nossas próprias comunidades?

Bresler: Uma criança com menos de cinco anos no Sudão do Sul é o equivalente moral de uma criança em Washington, D.C. Não se pode apresentar um argumento eticamente relevante sobre a razão de um indivíduo em Chicago ou Nova Iorque ser mais digno da nossa ajuda do que ajudar uma criança no Uganda ou na Tailândia. As crianças são crianças, independentemente de onde estejam. As pessoas precisam questionar-se sobre o que é emocionalmente relevante e o que é moralmente relevante.

P. O que acha de se dar 20 dólares a um sem-abrigo [Br. sem-teto] que se vê na rua?

Bresler: É uma reacção humana querer fazer isso, e é bom que as pessoas tenham esse desejo imediato. Eu dou dinheiro às pessoas na rua, mesmo que isso não seja algo que um altruísta eficaz tradicional recomendasse. As pessoas precisam conservar esse instinto de dar, e perceber que “aquilo fez-me sentir bem, agora deveria pensar sobre algo realmente bom que deveria fazer, como posso fazer ainda mais?”

P. A filantropia em parte vem de um estado emocional. Porque defende o usar-se a nossa cabeça mais do que o coração ao doar dinheiro?

Bresler: O que dizemos é que as pessoas devem usar simultaneamente a cabeça e o coração. Devemos envolver-nos num exercício analítico, como se estivéssemos a investir o nosso dinheiro. Uma vez tomada essa decisão de doar o nosso dinheiro, como se fará isso da forma mais eficaz?

Por exemplo, são necessários 40 000 dólares para treinar e fornecer um cão-guia para uma pessoa por sete anos. Uma pessoa usa o cão-guia. Os cães-guia são óptimos, mas se pegar nessa mesma quantia de dinheiro, pode pagar cirurgias ao glaucoma a 800 pessoas no mundo em desenvolvimento para lhes restaurar a visão. Uma cirurgia custa cerca de 50 dólares. Não precisa ser uma coisa ou a outra, mas é importante que as pessoas entendam a magnitude das consequências.

P. Tem algum facto que sirva de lição e que queira que as pessoas saibam?

Bresler: Se olharmos para as doenças das quais as pessoas adoecem ou morrem, verificamos que são evitáveis. São necessários apenas 15 cêntimos [Br. centavos] para alguém na pobreza extrema ter acesso a sal adequadamente iodado (para evitar atrasos no desenvolvimento) durante toda a sua vida.

 


22 de Dezembro de 2017.

Tradução de José Oliveira.

Botao-assineBoletim

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: