O custo escondido de nos afastarmos da pobreza

Por Zach Groff (Effective Altruism Forum) 

Luta-contra-pobreza

O que podemos aprender com o alívio à pobreza? (Arte digital: José Oliveira|Fotografia: Pixabay)

O Center for Effective Altruism e os altruístas eficazes activos nos espaços da Internet já há algum tempo se estão a afastar de um interesse pela pobreza para se concentrarem no futuro distante e no trabalho a um meta-nível (e, se não for isso, na defesa da causa animal). Curiosamente, as bases do altruísmo eficaz não parecem ter feito essa mudança (ou pelo menos não a completaram). Em geral, concordo com o CEA e com a comunidade activa na Internet sobre este assunto. Parece-me que é uma mudança suportada por uma fundamentação sólida. No entanto, penso que há motivos para se fazer uma pausa, e considerar algo do que o AE perde ao fazer essa mudança.

Muito do que o AE perde ao fazer essa mudança já foi discutido: as coisas tornam-se muito abstractas, de tal modo que podem não ser tão convincentes para tantas pessoas, e há preocupações sobre causas excessivamente especulativas.

No entanto, acredito que haverá outras preocupações a ter. Em particular, os AEs podem aprender imenso no domínio da pobreza global e aplicá-lo em outros domínios, e vejo muito poucos AEs a fazer isso. As coisas que vejo a escapar aos AEs são: uma motivação pelo rigor, capital institucional e organização.

Motivação pelo Rigor

O movimento “randomista” * no alívio da pobreza ilustrou muitos dos conceitos básicos que motivam os AEs de forma concreta e extremamente persuasiva. O que os economistas “randomistas“, como Esther Duflo e Michael Kremer, fizeram na década de 1990 e no início da década de 2000, foi tornar rigoroso e científico um campo dominado pelo sentimentalismo e pelas falsas esperanças. Hoje, é fácil olhar para trás e ver como óbvia a ideia de comparar os grupos de tratamento e de controle escolhidos aleatoriamente para programas de redução da pobreza, mas isso não era óbvio. Esse tipo de coisas geralmente não era a maneira como as ciências sociais eram feitas, porque a economia é complicada, e estudá-la da forma como estudamos medicina seria muito difícil. Os randomistas arrasaram completamente essa ideia.

Os AEs estão a trabalhar cada vez mais em domínios teóricos semelhantes à economia de desenvolvimento anterior aos anos 2000. Na defesa dos animais, no desenvolvimento do movimento AE e na priorização de causas, provavelmente poder-se-ia aprender com o desejo, quase neurótico, de se ser empiricamente rigoroso, que criou o movimento dos randomistas no alívio da pobreza. As coisas que parecem não ser mensuráveis ​​podem realmente ser mensuráveis ​​com a quantidade certa de determinação e criatividade. As causas do futuro distante podem ser verdadeiramente incomensuráveis, embora alguns dos ingredientes para melhorar o futuro distante (tais como recrutar eficazmente pesquisadores técnicos e persuadir outros) não o sejam. Para aprender a medir essas coisas, porém, precisamos aprender com os melhores, e o domínio da pobreza global tem aí muito a oferecer.

Capital Institucional

Há uma grande rede de organizações e doadores no domínio da pobreza que compartilham praticamente todos os valores AE, excepto a neutralidade em relação à geração e às espécies. Dean Karlan, um dos randomistas, cita regularmente Peter Singer nos seus discursos. O Banco Mundial, a Fundação Gates, a Fundação Ford e muitos outros organismos poderosos dedicam-se ao trabalho contra a pobreza baseados em evidências e valorizam muito a mudança do seu financiamento com base nas evidências em vez das questões ideológicas.

Como disse, essas organizações não compartilham os valores que muitos AEs possuem em relação ao futuro distante e ao anti-especismo, mas compartilham a maioria dos valores que diferenciam os AEs do resto do mundo e a manutenção de relacionamentos com essas organizações proporciona um capital institucional, intelectual e humano.

Organização

As organizações baseadas em evidências no domínio da pobreza global têm agora duas décadas de experiência na pesquisa de políticas eficazes e na forma de as colocar em acção. A Evidence Action difundiu eficazmente a desparasitação em vários países com base em crescentes evidências. Estão estabelecidas ligações académicas para se obter formação neste domínio, tanto para a pesquisa, como para a eficaz definição de políticas.

Sem dúvida, a maior quantidade de dinheiro nesta área tem um papel importante na sua organização, mas o tempo também desempenha um papel importante. Outras áreas de causas do AE podem acelerar o progresso ao aprender com a organização desenvolvida pelas instituições de caridade de alívio à pobreza e pelos pesquisadores.

Em resumo, penso que pelo menos um número maior de altruístas eficazes interessados ​​em causas que não sejam a pobreza devem desenvolver a experiência no âmbito da pobreza. O nível de rigor e conhecimento institucional nessa área proporciona algo a que outras áreas de causas podem aspirar.

* O termo “randomista” deriva da expressão randomized controlled trial — estudo aleatório controlado.

 


Publicado originalmente por Zach Groff no Effective Altruism Forum, em 09 de Outubro de 2017.

Tradução de José Oliveira.

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