Ajudar como uma obrigação e/ou como uma oportunidade? (3 de 3)

Por Celso Vieira

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Ajudar, obrigação e/ou oportunidade? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay.)

Introdução

Num primeiro momento vimos alguns conceitos que permeiam a noção moral de obrigação. Em seguida, tratamos da noção de oportunidade. A motivação desses ensaios foi a questão ainda não definida no altruísmo eficaz acerca de como devemos abordá-lo: Seria o altruísmo uma obrigação ou uma oportunidade? Como vimos, ambas as abordagens se encaixam nas práticas dos participantes do movimento. Talvez por isso a maioria declare adotar as duas. No entanto, esse tipo de ecletismo não resolve a questão. Pelo contrário, ele abre mais questões já que a partir disso faz-se necessário definir quais pontos das duas abordagens serão adotados e como eles se relacionarão.

Obrigação e virtude

Vimos que a noção de obrigação é caracterizada por uma força de prescrição. Quem acredita ter a obrigação de agir de um certo modo acredita que isso é o que deve ser feito. Portanto, acredita também que todos que estiverem em condições iguais deveriam agir do mesmo modo. No caso do altruísmo eficaz vimos que a obrigação circunstancial de ajudar uma criança se afogando em um lago implica na obrigação não-circunstancial de ajudar crianças que estejam em situação de risco em regiões afastadas do agente.

No entanto, vimos também que em vista do número imenso de pessoas em situação de risco uma tal obrigação pode colocar o agente em uma situação de exigência muito grande. Segundo os críticos, se seguiria que todo agente tem a obrigação de doar tudo que possui (exceto o que precisa para sobreviver) enquanto houverem pessoas em situação de risco.

Por outro lado, vimos também que o movimento tende a tratar o altruísmo como algo próximo ao âmbito moral da promessa. Nesse caso, cada um é livre para se comprometer em ajudar os outros ou não e para fazê-lo do modo e com a quantidade que lhe convenha. Apenas quem se compromete tem a obrigação de cumprir a promessa. Nesse caso, a abordagem parece se aproximar mais da noção de virtude do que da de obrigação. É algo que todos reconhecem como uma boa ação, mas que quem não faz não merece condenação.

Oportunidade

Em sua versão mais básica uma oportunidade é uma chance de obter algum retorno acima da média. Trata-se de uma noção que, a princípio, parece estar ligada à noção de obrigação circunstancial pois o agente não tem um papel ativo. Porém, vimos também que há uma transição quase natural para uma postura ativa de prospecção e até mesmo a criação de melhores oportunidades. Ademais, quanto maiores forem os recursos disponíveis mais oportunidades o agente poderá encontrar para aumentar o retorno de modo exponencial.

No entanto, ao passar da oportunidade ativa para a altruísta vimos que a oportunidade falha em fornecer uma motivação moral que justifique essa atitude nos agentes. Em vista disso, alguns membros do movimento defendem o ‘altruísmo entusiasmado’. Eles afirmam ter uma certa ‘paixão’ por serem altruístas da maneira mais eficaz possível e isso justificaria sua atitude. Porém, esse (ou qualquer tipo de estado emocional) não é suficiente para justificar um comportamento moral. Afinal, se geraria uma situação restringida aos entusiasmados e somente nas ocasiões em que se sentissem assim.

Obrigação e oportunidade

Obrigação e oportunidade parecem atuar no mote mais geral do altruísmo eficaz, a saber, ajudar o máximo de pessoas da maneira mais eficaz possível. Vimos dois conceitos relacionados mas diferentes que parecem apontar para um modo de entender a interação entre obrigação e oportunidade. Dever instrumental é o que responde à pergunta “Como eu devo fazer isso?”. Aqui a prevalência parece ser a da noção econômica da oportunidade. Já o dever moral, que responde à pergunta “O que eu devo fazer?”, fica mais próxima da obrigação.

Separando obrigação de oportunidade

Essa divisão dá conta de uma postura contra-intuitiva encontrada por alguns dos teóricos que lidam com o altruísmo eficaz. Pummer defende que a escolha de ajudar ou não ajudar não é obrigatória ao passo que, uma vez que se escolhe ajudar, aí sim se tornaria obrigatório ajudar da melhor maneira possível. Nesse caso, quem escolhe não ajudar uma criança em situação de risco não comete nenhuma falha moral ao passo que aquele que escolhe fazê-lo mas não o faz da melhor maneira possível comete uma falha moral. Ele mesmo admite que isso é contra-intuitivo. Em vista da investigação acima podemos entender o que acontece de uma maneira mais intuitiva. ‘Ajudar’ seria do âmbito do dever moral ao passo que ‘como ajudar’ seria do âmbito do dever instrumental. Quem escolhe ajudar, mas o faz de maneira ineficaz, não comete um erro moral, mas sim estratégico. Seguindo as noções acima, seu erro é não encontrar (ou criar) a melhor oportunidade. Assim, a crítica que o altruísmo eficaz faz aos projetos humanitários ineficazes e aqueles que decidem apoiá-los sem pesquisar os resultados é uma crítica mais estratégica do que moral.

Unindo obrigação e oportunidade

Por fim, vamos ver se as noções encontradas na discussão da obrigação e da oportunidade podem ajudar na construção de uma regra de ação altruísta que evita exigir demais dos agentes sem ceder à tolerância extrema da oportunidade. Vimos que, na prática, o altruísmo eficaz trata do altruísmo com alguns aspectos da obrigação (ex. Ter força prescritiva) e outros da virtude (ex. Não condenar quem opta por não fazer). Essa distinção parece dar conta da variação das nossas intuições diante de condições diferentes de ajuda. Imagine uma criança que está se afogando em um mar tão revolto que coloca em risco sério as condições de quem se propuser a resgatá-la. Nesse caso, ninguém tem a obrigação de salvá-la, mesmo assim, quem o faz apresenta, sem dúvidas, um comportamento virtuoso. A despeito disso parece imoral não salvar uma criança que se afoga em um lago raso que não apresenta risco algum a quem resgata.

Essa variação diante de diferentes cenários pode apontar para um tratamento de virtude e obrigação como se estivessem em um espectro. Nesse caso teríamos ações virtuosas (que são louváveis mas o agente não tem obrigação de realizar) e ações obrigatórias (que o agente deve ser condenado caso não as realize). No entanto, entre esses dois tipos, teríamos ações com força de prescrição mas cuja abstenção não justifica nenhuma condenação. É nesse intervalo que o altruísmo eficaz parece operar. Na verdade, um dos pontos positivos inovadores do movimento seria justamente perceber essa região do espectro que passa desapercebida devido ao nosso costume de focar nos casos extremos.

Como é sempre o caso ao se pensar um espectro convém encontrar uma variável mensurável que fornece o critério para se colocar uma situação mais a um lado ou a outro do intervalo. Aqui a discussão sobre a oportunidade parece ajudar. Vimos que quanto maior a disponibilidade de recursos maiores as possibilidades de se encontrar/ criar oportunidades para aumentar o retorno do investimento. Podemos então recorrer a esse critério da disponibilidade para diferenciar os dois casos acima. Salvar uma criança que se afoga no lago raso é uma obrigação devido à facilidade que qualquer adulto tem de fazê-lo. Assim, no caso do altruísmo eficaz, a disponibilidade de recursos (dinheiro, tempo, habilidade, etc) seria a variável que coloca o agente com mais ou menos obrigação no campo da prescrição-sem-condenação. Em tempos de desigualdade crescente o movimento se prova ainda mais justificável.

Ajudar os outros é sempre louvável. Aliás, é ainda mais louvável quando as condições de fazê-lo são mais difíceis. Talvez seja louvável justamente porque não se trata de uma obrigação. No entanto, ajudar os outros é uma obrigação cada vez mais forte na proporção em que o agente tiver disponibilidade para fazê-lo. Isso condiz com a nossa intuição moral de que quem tem muito se sente na missão de contribuir com a sociedade para devolver algo do que ganhou. Ademais, condiz também com uma das estratégias do altruísmo eficaz que é de mostrar que mesmo as pessoas com rendimento médio, se comparadas com as pessoas mais pobres do mundo, possuem sim recursos disponíveis para ajudar os outros. Em vista da quantidade de pessoas em risco o altruísmo ganha força de obrigação. Também em vista dessa grande quantidade segue-se o dever instrumental de fazê-lo da maneira mais eficaz possível. É preciso, constantemente, doar-e-pesquisar/ pesquisar-e-doar.

Conclusão

Aqui termina esse primeiro esforço de tentar entender melhor como é que obrigação e oportunidade operam no altruísmo eficaz. Parece ter ficado claro que ambas abordagens trazem contribuições válidas de modo que não se pode reduzir uma a outra. Por outro lado, também parece que entender as interações entre elas ajuda a esclarecer alguns dos princípios éticos que operam por trás do que se pratica no movimento. Caso você concorde que há uma obrigação de doar, ou que está numa posição que lhe permite criar oportunidades de ajudar, então pode começar a doar por aqui, a pesquisar por aqui e a compartilhar suas atitudes aqui.


Texto de Celso Vieira.

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2 comentários sobre “Ajudar como uma obrigação e/ou como uma oportunidade? (3 de 3)

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