Este grupo de reflexão quer acabar com a pecuária industrial

Por Matthew Gault (Motherboard)

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E comer carne sem causar sofrimento? (Arte digital: José Oliveira | Fotografia: Pixabay)

O Sentience Institute acredita que pode encontrar na história dos movimentos sociais as respostas para os problemas de hoje.

Houve tempos em que cultivar carne em laboratório para consumo humano era coisa de ficção científica, mas ela está aqui, agora. As empresas de alimentos em todo o mundo estão desenvolvendo carne cultivada, que é feita a partir de estruturas celulares em um laboratório em vez de em animais, e não demorará muito para estar nas prateleiras das lojas. A carne promete ser mais ética do que comer vegetais e menos prejudicial para o meio ambiente do que a pecuária industrial (embora isso não signifique que alguém irá querer comê-la).
Kelly Witwicki e Jacy Reese querem enfrentar esse problema de frente. Os dois são co-fundadores do Sentience Institute, um novo grupo de reflexão dedicado à expansão do “círculo moral” da humanidade (definido como os seres sencientes que recebem a consideração moral da humanidade) através do uso do altruísmo eficaz.

“Queremos ver um mundo onde os interesses de todos os seres sencientes sejam plenamente considerados, independente de sua espécie”, disse-me Witwicki pelo Skype. “Vemos isso como um passo importante para prevenir o sofrimento, tanto agora quanto no futuro distante”.

É um grande objetivo, mas os dois não são apenas sonhadores ociosos, são pesquisadores dedicados que entendem que as ambições são alcançadas através de uma série de etapas práticas ao longo da vida. Querem que seu ativismo social funcione. “Trata-se de aplicar dados, evidências e estratégias para alcançar nosso objetivo”, explicou Reese. “Para nós, isso assemelha-se a abordar um problema negligenciado. Como é que os movimentos sociais expandem o círculo moral? ”

É uma questão complicada para um problema que às vezes é mais sobre a emoção do que evidências. “Não é uma questão que se adéque ao método científico”, disse Reese. “Você não pode executar um estudo aleatório controlado no qual selecione duas sociedades diferentes e veja o que funciona e o que não funciona”.

Mas, embora haja poucas orientações estabelecidas para expandir o círculo moral da humanidade, o Sentience Institute tem objetivos concretos, o primeiro é a eliminação da pecuária industrial, que é simultaneamente cruel para com os animais e ambientalmente insustentável.

O Instituto reconhece que para realizar esse objetivo será necessário um grande esforço e que isso levará anos, mas o Instituto já deu os seus primeiros passos em 2017 pesquisando movimentos sociais históricos e avanços tecnológicos. Estão procurando saber como outros esforços ampliaram o círculo moral e como tecnologias controversas se tornaram comuns.

 

 

 

 

Para isso, eles se concentraram no movimento britânico contra a escravidão, na adoção generalizada da energia nuclear na França e na rejeição dos Organismos Geneticamente Modificados (OGMs). O movimento anti-escravidão deu-lhes um exemplo histórico da expansão do círculo moral, já o da energia nuclear francesa mostrou o que é preciso para uma cultura aceitar novas tecnologias. O fracasso das empresas em levar o público a aceitar os OGMs ensinou-lhes como evitar assustar as pessoas com novos tipos de alimentos.

Reese me disse que, em suas pesquisas, descobriram que a mudança institucional tende a ser a estratégia mais eficaz. “É mais eficaz do que nos concentrarmos na mudança individual”, disse ele. “Com isto quero dizer, concentrarmo-nos em mudar as instituições, como organizações sem fins lucrativos, governos e corporações, em vez de tentar mudar hábitos de consumo individuais”.

Salientou que apenas 5 a 10% da população dos EUA é (de alguma forma) vegetariana e que esses movimentos tipicamente tentaram espalhar seus pontos de vista visando consumidores individuais. Não funciona. “Um movimento social que tenha obtido sucesso com esse tipo de objectivo é algo praticamente sem precedentes”, disse ele.

Centrar-se nos consumidores individuais era uma tática que os abolicionistas tentaram no início dos anos 1800 quando começaram um boicote ao açúcar e ao rum produzido nas Índias Ocidentais. “Isso só atingiu cerca de 4 a 6% da população”, disse Witwicki. “A maioria eram mulheres que não podiam participar politicamente. Isso claramente não funcionou. Foi simbólico e chamou a atenção, mas, o que realmente pôs fim à escravidão na Grã-Bretanha foi um movimento por mudanças políticas”.

Os abolicionistas britânicos fizeram mais do que parar de comprar açúcar, eles pressionaram o parlamento para mudar as leis. Viajaram pelo país, batendo de porta em porta e conversando com as pessoas, levaram-nas a assinar petições para acabar com a escravidão e forçar o governo a interceder. Foi um esforço enorme de vários anos que envolveu aliados brancos, bem como antigos escravos e atuais, e veio de baixo, mas foi decretado pelo topo.

O Sentience Institute quer fazer algo semelhante com a pecuária industrial, mas sabe que as pessoas não vão querer parar de comer carne. Reese e Witwicki entendem que as alternativas da carne cultivada irão ajudar a sua causa, mas também sabem que haverá resistência inicial contra a idéia. Para muitos de nós, carne cultivada em laboratório soa-nos a algo desagradável. É aí que as pesquisas sobre a energia nuclear francesa e os movimentos anti-OGMs entram em jogo.

A energia nuclear não correu bem nos EUA, apesar das crises do petróleo na década de 1970. Mas a França viu isso como a solução para seus problemas. “A França tinha um histórico de encetar grandes projetos tecnológicos”, explicou Reese. “Nos EUA, víamos as pessoas falarem sobre energia nuclear como um perigo. O que vemos nos movimentos sociais é muitas vezes uma polarização da atenção da mídia. Assim, ou é muito bom ou muito ruim. Nos EUA [a energia nuclear] tornou-se muito ruim, centrou-se nos desastres nucleares”.

Graças ao filme de sucesso A Síndrome da China e ao acidente em Three Mile Island, a energia nuclear nunca se difundiu na América, e mesmo quando os cientistas tentaram falar sobre seus benefícios e a sua segurança relativa, a mensagem foi muitas vezes distorcida. “Um relatório disse que, na verdade — no caso de um desastre nuclear — a taxa de mortalidade seria bastante pequena”, disse Reese. “As notícia que surgiram foram ‘um desastre nuclear pode acontecer e ainda ter uma taxa de mortalidade’. A intenção desse relatório era mostrar quão seguras eram as novas tecnologias.”

Na França, a tecnologia nuclear foi vista como uma solução para o problema dos altos preços da energia. Paris liderou o caminho e as pessoas seguiram. Reese e Witwicki disseram que viram uma reação similar contra os OGMs na América. “Eles tiveram um sucesso muito confuso e também são um assunto alimentar e tecnológico”, disse Reese.

É o ponto adequado para se observar quando se considera como fazer com que as pessoas aceitem a carne cultivada em laboratório. “Os OGMs falharam — na medida em que falharam — porque foram [criados] a portas fechadas e apresentados ao público como algo que foi feito por grandes empresas para fins lucrativos”, disse Reese. “Havia uma falta de transparência. Isso afastou as pessoas”.

A indústria da carne cultivada fez o contrário. “Estão mostrando todos os seus erros, permitindo visitas sempre que podem, e convidando pessoas para experimentar”. Para Reese e Witwicki, essa abordagem aberta e honesta será mais eficaz do que as práticas questionáveis das empresas de OGMs.
E para o Sentience Institute o que importa é o que funciona. “Há muito espaço em todos os movimentos para se pensar sobre o que é eficaz”, disse Witwicki. “Muitas vezes as pessoas escolhem o que lhes parece adequado com base nos sentimentos. A pecuária industrial é uma dessas questões tão monumentais e tão urgentes que as pessoas têm o impulso de agitar as outras para fazê-las parar. Acho que esse impulso vem de um sentimento de amor e altruísmo, mas [você deve] dar um passo atrás e perguntar se seus métodos vão funcionar no longo prazo. Isso pode chamar a atenção no momento, mas será que vai mudar a mente das pessoas?”

 


Publicado originalmente por Matthew Gault no Motherboard, a 28 de Dezembro de 2017.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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