Doação eficaz: Como os ricos do mundo podiam ajudar mais milhões de pessoas de graça

Por Theron Pummer (The Conversation)

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Como dar 50% da sua riqueza? Bill Gates (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Wikimedia.)

O fundador da companhia aérea EasyJet, o Sir Stelios Haji-Ioannou, assumiu o compromisso de dar metade da sua fortuna de 2 bilhões (Pt. 2 mil milhões) de Libras. Ele se inspirou no Bill Gates para fazer parte do Giving Pledge (Compromisso de Doação), uma organização que encoraja as pessoas mais ricas do mundo a se comprometerem publicamente a dar pelo menos metade de sua riqueza para a caridade.

Fundada em 2010 por Bill e Melinda Gates (Microsoft), juntamente com Warren Buffett (Berkshire Hathaway), o Giving Pledge agora tem 169 signatários, incluindo Mark Zuckerberg (Facebook), Richard Branson (Virgin), Sara Blakely (Spanx) e Elon Musk (Tesla, SpaceX). E a lista continua a crescer.

Não menos importante do que fazer parte do Giving Pledge é a quais instituições de caridade deve doar uma vez que faça parte. Muitas instituições de caridade bem-intencionadas falham em ter qualquer impacto positivo e, entre aquelas que têm, algumas apresentam um impacto positivo muito maior que outras, por cada dólar recebido. As pessoas com dinheiro para doar devem escolher com cuidado se quiserem que as suas doações sejam custo-eficazes.

Por exemplo, dólar por dólar, algumas intervenções de HIV/AIDS (Pt. HIV/SIDA) produzem 1 000 vezes mais benefícios de saúde do que outras. E, enquanto cerca de 100 000 dólares poderiam ser usados para ajudar duas pessoas cegas ao treinar os seus cães-guia, a mesma quantidade de dinheiro poderia impedir que pelo menos 1 000 pessoas sofram de cegueira causada por tracoma .

Esses fatos impressionantes sobre o “panorama do custo-eficácia” são bem conhecidos dos membros do Giving Pledge, que têm acompanhado o movimento do Altruísmo Eficaz, como Bill e Melinda Gates ou o casal bilionário Cari Tuna e Dustin Moskovitz. O Altruísmo Eficaz promove o uso da razão e das evidências para descobrir como ajudar melhor os outros com recursos limitados – seja tempo, dinheiro ou esforço.

 

Cabeça e coração

Fazer parte do Giving Pledge não requer que se apoie causas ou organizações específicas, mas em vez disso “encoraja os signatários a encontrar sua própria maneira de doar, que os inspire pessoalmente e beneficie a sociedade”. Recentemente, David Brooks, do New York Times, ilustrou quão divertido é envolver-se em fantasias reconfortantes sobre como usar bilhões (Pt. milhares de milhões) para fazer o bem. Mas a doação bem-sucedida envolve tanto a cabeça como o coração.

É crucial que os signatários aproveitem plenamente as “oportunidades de se reunirem ao longo do ano para aprender de especialistas qual a melhor forma de potenciar a sua filantropia para enfrentar alguns dos maiores desafios do mundo” que a Giving Pledge proporciona, procurando os melhores dados e conselhos disponíveis de avaliadoras independentes de instituições de caridade como a GiveWell . Não fazer isto pode ser simultaneamente irracional e errado.

Considere a seguinte analogia. Um trem (Pt. comboio) desgovernado vai na direção de uma criança presa no trilho norte. Há outro trem desgovernado dirigindo-se a três crianças presas no trilho sul. Você pode colocar seu braço no trilho norte e parar o primeiro trem, impedindo-o de matar uma criança, ou você pode colocar seu braço no trilho sul e parar o outro trem, impedindo-o de matar três crianças. De qualquer forma, você sacrificará um braço. Não há outra maneira de parar qualquer dos trens, e você não pode parar os dois trens ao mesmo tempo. Todos os outros detalhes são iguais – por exemplo, essas quatro crianças são estranhos para você.

Mesmo que não seja errado recusar-se a colocar seu braço em qualquer dos trilhos, seria errado sacrificar seu braço para salvar apenas uma criança, quando você tem a oportunidade de salvar três crianças.

Com a caridade é semelhante. Mesmo que não seja moralmente errado recusar-se a doar metade da sua fortuna, seria errado doar a algumas instituições de caridade quando é claro que, ao doar a outras, você estaria ajudando um número substancialmente maior de pessoas, e sem um custo extra.

 

Maior e melhor

Esta conclusão é contrária a uma suposição bastante comum na ética de doar que, se é admissível que fique com algum dinheiro para si, então também é admissível que o doe para qualquer instituição de caridade que você escolha. No meu recente trabalho de pesquisa argumento que esta suposição é falsa.

Não estou a argumentar que é sempre claro quais instituições de caridade usarão mais eficazmente seu dinheiro – embora muitas vezes assim seja. Nem estou a argumentar que é errado dar às causas mais próximas ao seu coração em vez das mais eficazes que não lhe sejam tão próximas. Afinal, não dar à sua causa favorita, em favor de uma que ajudará muito mais pessoas, pode ter um custo pessoal significativo para você.

Investigar questões de custo-eficácia pode, em si mesmo, ser uma despesa a se considerar. Mas certamente vale a pena aos signatários do Giving Pledge subtrair uma pequena fração da soma que eles se comprometem a doar, investindo para descobrir como é possível doar da maneira mais eficaz? Ao fazer isso, eles podem multiplicar, dramaticamente, o impacto positivo do seu dinheiro sem custo extra.

Além de encorajar os signatários a doarem tão eficazmente quanto possível às suas causas favoritas, o Giving Pledge deveria considerar fornecer-lhes a opção de adicionar uma cláusula sobre o custo-eficácia.

Aqueles que subscrevessem tal “Compromisso de Doação Eficaz” iriam comprometer-se publicamente a entregar metade da sua riqueza para aquelas organizações que eles acreditassem que “a usariam mais eficazmente para melhorar a vida de outros, agora e nos próximos anos”.

Se os bilionários assumissem esse compromisso, eles se tornariam simultaneamente os indivíduos mais ricos a assumir o compromisso da Giving What We Can, do qual faz parte a cláusula acima citada. Um Compromisso de Doação Eficaz (Effective Giving Pledge) poderia complementar, em vez de substituir, o Compromisso de Doação (Giving Pledge).

Assim como o Compromisso de Doação (Giving Pledge) inspirou com sucesso muitas das pessoas mais ricas do mundo a doar mais, um Compromisso de Doação Eficaz (Effective Giving Pledge) ajudaria a inspirá-los a doar melhor.

Ajudar a milhões de pessoas é bom, mas ajudar a bilhões (Pt. milhares de milhões) é muito melhor.


Texto de Theron Pummer (Diretor do Centre for Ethics, Philosophy and Public Affairs, Universidade de St Andrews) publicado no The Conversation em 8 de junho de 2017.

Tradução de Renata Paz. Revisão de José Oliveira.

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