A Canonização da Ineficiência: Por que precisamos fazer melhor do que Madre Teresa e o Vaticano

Madre Teresa.jpg

Podemos fazer melhor do que a Madre Teresa de Calcutá? (Arte Digital: José Oliveira | Fotografias: Wikimedia)

O rosto de Madre Teresa é um dos mais reconhecidos no mundo. Muitos de nós crescemos com a imagem onipresente do “Anjo da Misericórdia”, nunca questionando se o que ela estava fazendo era bom para assim tantas pessoas. Ela ainda hoje é reverenciada por milhões de pessoas.

A forte crítica que tem sido direcionada a este ícone aparentemente inatacável desde meados da década de 90 do século passado foi portanto um choque para muitos. Tanto é que, de fato, mesmo figuras e plataformas respeitadas da mídia, como o Canal 4 da Grã-Bretanha, a Forbes India, Christopher Hitchens e Tariq Ali, fracassaram em grande medida em abalar a percepção pública de Madre Teresa como uma santa. O Vaticano, por exemplo, certamente está ignorando: Madre Teresa foi canonizada em 4 de setembro de 2016.

É admissível que o Vaticano provavelmente tenha interesse na manutenção dessa popularidade, mas o que dizer do público em geral? Como é possível que tais críticas bem fundamentadas e documentadas aparentemente não tenham tido qualquer efeito na imagem pública de Madre Teresa como alguém que ajuda os pobres? E, se podemos aprender alguma coisa com isso, relativamente aos nossos próprios hábitos de doação, o que será?

 

Ineficiência

Dependendo das suas opiniões, você pode ou não concordar com a posição de Madre Teresa sobre o aborto ou o divórcio; você pode ter ou não um problema com relação a seu apoio ao ditador do Haiti, Jean-Claude Duvalier; você pode ou não gostar do fato dela ter aceitado mais de 1 milhão de dólares de Charles Keating, famoso por cometer fraudes, e nunca ter devolvido o dinheiro às vítimas (nem mesmo após ser informada sobre como ele acumulou o dinheiro em primeiro lugar).

No entanto, tudo isso é eclipsado por um fato inegável: milhões de dólares em doações permanecem desaparecidos. A única coisa que sabemos sobre eles é que não beneficiaram quem deveriam beneficiar: os mais pobres dos pobres. De acordo com a revista alemã Stern, apenas sete por cento do dinheiro que a Madre Teresa recebeu, de milhões de pessoas bem-intencionadas e de bom coração, realmente foi para ajudar aos pobres.

Sabemos também que as Missionaries of Charity alcançaram comparativamente poucas pessoas – apenas algumas centenas de pessoas, na melhor das hipóteses. Sabemos que os cuidados médicos recebidos pelas pessoas nos asilos eram abaixo dos padrões e bem abaixo do que os fundos disponíveis poderiam ter proporcionado, que a crença de Madre Teresa de que havia beleza na pobreza e no sofrimento pode tê-la impedido de fazer qualquer distinção entre pacientes curáveis ​​e incuráveis, levando à morte de muitos cujas vidas poderiam ter sido salvas. Sabemos que as condições de vida das pessoas em suas casas eram horríveis, que o alívio da dor era fraco ou inexistente, e que em alguns países, tais casas eram usadas exclusivamente para converter pessoas ao catolicismo e não tinham quaisquer residentes.

Então, por que somos tão relutantes em abandonar essa ideia de Madre Teresa como uma santa? Por que estamos canonizando cegamente a ineficiência?

 

Um Impulso de Ajudar

Há duas coisas nas quais nós seres humanos somos muito bons: a esforçar-nos para ajudar os outros e a enganar-nos a nós próprios. Ambos entram em uma amálgama potencialmente problemático quando se trata de doações de caridade.

Estudos mostram que ser bondoso nos faz sentir melhor sobre nós mesmos, e que podemos ser muito generosos. Possivelmente a nossa predisposição inata para fazer algo por aqueles que são menos afortunados do que nós, presente em todas as idades, períodos históricos, culturas, sociedades e crenças, é um dos melhores traços da humanidade e pode até mesmo ser nossa graça salvadora.

No entanto, com a nossa vontade de ajudar, às vezes não conseguimos olhar além da fachada da campanha ou da organização em questão. Nós tendemos a tomar decisões apenas com nossos corações, deixando nossa mente de lado. Talvez sintamos que não é justo questionar aqueles que trabalham para um mundo melhor. Em particular, se uma organização for apoiada por uma celebridade ou encabeçada por um ícone como a Madre Teresa, muitas vezes negligenciamos em investigar a fundo o que realmente acontece com nossas doações.

Isso é agravado pelo que é conhecido como Falácia do Custo Irrecuperável: Os seres humanos tendem a ter um comportamento enviesado relativamente a continuar a investir dinheiro, mesmo quando esse investimento se mostra ruim. Nós não queremos sentir que desperdiçamos o dinheiro que já doamos, então, em vez de analisarmos atentamente, evitamos as perguntas difíceis e continuamos doando. Isso tem o benefício adicional de nos salvar da desilusão de descobrir que a organização que vínhamos apoiando talvez não seja tão boa quanto parece.

Mas será isso realmente o melhor que podemos fazer? Não deveria haver uma maneira de garantir que nossas intenções positivas realmente sejam transformadas em ação positiva, que nossos donativos sejam bem gerenciados e realmente beneficiem o maior número possível de pessoas?

 

Uma Maneira Melhor

Organizações como a The Life You Can Save, a GiveWell e outras promovem o uso de evidências para avaliar e qualificar organizações sem fins lucrativos – o uso da razão e de métodos científicos em lugar de confiar cegamente na fachada brilhante de uma aparente organização de caridade. Juntos, os líderes deste campo foram pioneiros em analisar de uma maneira racional a eficiência das organizações de caridade, e descobrir se elas fazem o que dizem que fazem e qual a sua eficácia ao fazê-lo – em suma, medir seu impacto real.

Isso nos dá a oportunidade única de descobrir se estamos a seguir irracionalmente um rosto famoso ou se nossas escolhas são apoiadas por evidências. Isso nos permite seguir nossas mentes tanto quanto nossos corações e assim tomar melhores decisões.

Para ajudá-lo a decidir a quais instituições de caridade deve confiar seus donativos, a The Life You Can Save selecionou uma série de organizações que são simultaneamente transparentes e altamente eficazes na prestação de ajuda internacional.

Algumas pessoas podem pensar que isso soa demasiado a um cálculo difícil e frio em vez de um sentimento agradável e difuso de fazer o bem, mas na verdade é o melhor dos dois mundos. Maximizar o impacto de nossos donativos nos permite sentir-nos bem, precisamente porque estamos trabalhando para alcançar resultados comprovadamente ​​melhores para aqueles que mais precisam de nossa ajuda: os extremamente pobres em todo o mundo.


Texto de Elisabeth Meister publicado no Blogue da The Life You Can Save, em 31 de agosto de 2016 (actualizado no Podcast em 1 de março de 2017).

Tradução de Ronaldo Batista e revisão de José Oliveira.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s