O Altruísmo Eficaz Diz Que Podemos Salvar o Mundo ao Ganhar Dinheiro

Riscos Existênciais

Qual o valor do sofrimento no futuro a longo prazo? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Wikimedia)

Esta nova filosofia relativamente a doações à caridade afirma ser orientada por dados e pela ciência.

Não há contradição ao afirmar que, como argumenta Steven Pinker, o mundo está a melhorar em muitos aspectos importantes e também que o mundo é uma enorme confusão. Claro, a possibilidade de se ser assassinado pode ser menor agora do que em qualquer outro momento na história da humanidade, mas pode-se argumentar que, dado o tamanho da população humana hoje, nunca houve mais desutilidade total, ou sofrimento/injustiça/maldade, a afectar o nosso planeta.

Basta considerar que cerca de 3,1 milhões de crianças morreram de fome em 2013, perfazendo uma média de cerca de 8 500 por dia. Neste contexto, cerca de 66 milhões de crianças do mundo em desenvolvimento frequentam a escola com fome; aproximadamente 161 milhões de crianças com menos de cinco anos são nutricionalmente atrofiadas; 99 milhões têm um peso inferior ao normal; e 51 milhões sofrem por causa do desperdício. Da mesma forma, estima-se que 1,4 mil milhões [Br. bilhões] de pessoas vivem com menos de 1,25 dólares por dia, enquanto que aproximadamente 2,5 mil milhões [Br. bilhões] ganham menos de 2 dólares por dia e, em 2015, cerca de 212 milhões de pessoas foram diagnosticadas com malária, das quais cerca de 429 mil morreram.

A ideia é optimizar a quantidade total de bem que se pode fazer no mundo

Este é um retrato de baixa resolução da situação global da humanidade hoje em dia — que nem conta sequer com a frustração, a dor e a miséria causadas pelo sexismo, o racismo, a pecuária industrial, o terrorismo, as mudanças climáticas e a guerra. Então a questão é: como podemos tornar o mundo mais habitável para a vida senciente? Que acções podemos encetar para aliviar a enorme quantidade de sofrimento que aflige o nosso ponto azul pálido? E em que medida devemos preocupar-nos com as inúmeras gerações futuras que poderão vir a existir?

Assisti recentemente a uma conferência na Universidade de Harvard sobre um movimento recente chamado altruísmo eficaz (AE), popularizado por filósofos como William MacAskill e o co-fundador do Facebook, Dustin Moskovitz. Enquanto que muitos indivíduos com tendências filantrópicas tomam decisões para doar baseadas nas causas que mais lhes falam ao coração, este movimento traz uma abordagem altamente orientada por dados nas doações à caridade. A ideia é optimizar a quantidade total de bem que se pode fazer no mundo, mesmo que isso seja contra-intuitivo.

Por exemplo, pode-se pensar que doar dinheiro para comprar livros para escolas em comunidades de baixos rendimentos por toda a África é uma óptima maneira de melhorar a educação das crianças vítimas da pobreza, mas verifica-se que gastar esse dinheiro em programas de desparasitação pode ser uma melhor forma de potenciar os resultados. Os estudos mostram que a desparasitação pode reduzir a taxa de absentismo nas escolas em 25% — um problema que a compra de mais livros não trata — e que “as crianças que foram desparasitadas ganhavam 20% mais do que as que não foram”.

Da mesma forma, muitas pessoas no mundo desenvolvido sentem-se compelidas a doar dinheiro para a ajuda humanitária após catástrofes naturais como terremotos e tsunamis. Embora isso dificilmente seja imoral, os dados revelam que o dinheiro doado poderia ter um impacto mais tangível se fosse gasto em mosquiteiros tratados com insecticida para pessoas em regiões de África propensas à malária.

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A Marinha dos EUA e militares do Quénia a distribuir mosquiteiros e remédios em Lamu. Imagem: Eric A. Clément/Marinha dos Estados Unidos

Outra sugestão surpreendente, e controversa, no altruísmo eficaz é que, boicotar fábricas que exploram a mão de obra no mundo em desenvolvimento, muitas vezes faz mais mal do que bem. A ideia é que, por mais degradadas que sejam as condições de trabalho dessas fábricas, geralmente elas oferecem os melhores empregos daquela região. Se um trabalhador dessa fábrica fosse forçado a aceitar um emprego diferente — e não há garantias de que um outro emprego estivesse sequer disponível — quase de certeza implicaria um trabalho muito mais difícil por um salário mais baixo. Assim o New York Times cita uma mulher no Cambodja que ganha a vida a vasculhar as lixeiras, “eu gostaria de arranjar um emprego numa fábrica… ao menos esse trabalho é à sombra. Aqui é onde está calor.”

Há, claro, críticas notáveis a esta abordagem. Considere a história de Matt Wage. Depois de completar um curso universitário em Princeton, foi aceite pela Universidade de Oxford para se doutorar em filosofia. Mas em vez de participar nesse curso — um dos melhores do mundo — optou por arranjar um emprego em Wall Street, a ganhar um salário de seis dígitos. Porquê? Porque, pensou ele, se salvasse 100 crianças de um edifício a arder, esse seria o melhor dia da sua vida. Na verdade, poderia salvar o mesmo número de crianças ao longo da sua vida como filósofo profissional se doasse uma grande parte do seu salário à caridade. Mas — feitas as contas — se arranjasse um emprego bem remunerado, por exemplo, numa empresa de comércio de arbitragem e doasse a metade dos seus ganhos, por exemplo, à Against Malaria Foundation, poderia potencialmente salvar centenas de crianças de morrer “dentro do primeiro ano, ou dois, da sua vida profissional e todos os anos depois disso.”

Algumas pessoas pensam que a superinteligência está demasiado longe para ser uma preocupação

A crítica dirigida a esta ideia é que Wall Street pode ser em si mesma uma fonte potente de maldade no mundo, e assim, participar na máquina como uma peça da engrenagem, pode realmente contribuir para danos concretos. Mas os altruístas eficazes responderiam que o que importa não é apenas o que se faz, mas o que aconteceria se não se tivesse agido dessa forma em particular. Se Wage não tivesse arranjado o trabalho em Wall Street, alguém teria — alguém que não estaria tão preocupado com a situação das crianças africanas, enquanto que ao ganhar para dar Wage salva milhares de pessoas desfavorecidas.

Outra objecção é que muitos altruístas eficazes estão muito preocupados com os riscos potenciais associados à superinteligência da máquina. Algumas pessoas pensam que a superinteligência está demasiado longe para ser uma preocupação ou que é improvável que represente qualquer ameaça séria à sobrevivência humana. Afirmam que gastar dinheiro na pesquisa daquilo a que se chama o “problema do controle da IA” é um equívoco, se não mesmo um completo desperdício de recursos. Mas o caso é que há bons argumentos para pensar que, como afirma Stephen Hawking, se a superinteligência não é a pior coisa que acontecerá à humanidade, provavelmente será o melhor. E os altruístas eficazes — e eu — argumentaríamos que, então, projectar uma superinteligência “amigável para o ser humano” é uma tarefa altamente vantajosa, mesmo que a primeira máquina superinteligente não faça a sua estreia na Terra até ao final deste século. Em suma, o valor esperado de resolver o problema do controle da IA pode ser astronomicamente alto.

Talvez a ideia mais interessante dentro do movimento do altruísmo eficaz seja que não devemos apenas preocupar-nos com os seres humanos do presente, mas também com os futuros seres humanos. De acordo com um estudo publicado na revista Sustainability, “a maioria das capacidades individuais para imaginar o futuro fica “às escuras” perante um horizonte de dez anos”. Isso provavelmente decorre da nossa evolução cognitiva num ambiente ancestral (como a savana africana) em que o pensamento de longo prazo não só seria desnecessário para a sobrevivência, mas poderia até ter sido prejudicial.

No entanto, muitos filósofos acreditam que, de um ponto de vista moral, esse “viés para o curto prazo” é completamente injustificado. Argumentam que, a época em que alguém nasce, não deve influenciar o seu valor intrínseco, isto é, “a preferência temporal“, ou valorizar o futuro menos do que o presente, não se deve aplicar às vidas humanas.

Um modelo de mudança climática prevê temperaturas e riscos futuros. Imagem: NOAA

Primeiro, há a questão da simetria: se as vidas do futuro valem menos do que as vidas presentes, então as vidas passadas também valerão menos? Ou, da perspectiva das pessoas do passado, as nossas vidas valerão menos do que as suas? Em segundo lugar, considere que ao usar uma taxa anual de desconto de tempo de 10%, uma só pessoa hoje seria igual em valor a uns inimagináveis 4,96 x 1020 pessoas daqui a 500 anos. Será que isso nos parece moralmente defensável? Será correcto que uma pessoa que morre hoje constitua uma tragédia moral equivalente a um holocausto global que mate 4,96 x 1020 pessoas daqui a cinco séculos?

E, finalmente, as nossas melhores estimativas de quantas pessoas podem vir a existir no futuro indicam que esse número poderá ser excepcionalmente grande. Por exemplo, o filósofo de Oxford, Nick Bostrom, estima que cerca de 1016 pessoas com uma expectativa de vida normal poderiam existir na Terra antes que o sol a torne estéril daqui a mil milhões [Br. um bilhão] de anos ou mais. Mais uma opinião abalizada é que “cem quintiliões [Br. cem nonilhões]” — isto é, 100 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 — de pessoas poderiam um dia povoar o universo visível. Até à data, houve cerca de 60 mil milhões [Br. bilhões] de seres humanos na Terra, ou 6 x 109, o que significa que a história do ser humano — ou pós-humano, se a nossa descendência evoluir para ciborgues tecnicamente aperfeiçoados — talvez tenha apenas começado.

Preocuparmo-nos com o futuro distante leva alguns altruístas eficazes a concentrarem-se especificamente no que Bostrom chama de “riscos existenciais“, ou eventos que, ou façam cair a nossa espécie no eterno túmulo da extinção, ou a catapultem irreversivelmente para o Paleolítico.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, tem havido um aumento inquietante tanto no número total de riscos existenciais — tais como conflitos nucleares, mudanças climáticas, perda de biodiversidade global, pandemias criadas pelo homem, acidentes nanotecnológicos (grey goo), geoengenharia, experiências físicas e superinteligência de máquinas — e a probabilidade geral de ocorrer um colapso civilizacional, ou pior. Por exemplo, o cosmólogo Lord Martin Rees coloca a probabilidade de a civilização implodir neste século em 50%, e Bostrom argumenta que uma catástrofe existencial tem uma possibilidade de acontecer igual ou superior a 25%. Daí segue-se que, como Stephen Hawking afirmou recentemente, a humanidade nunca viveu em tempos mais perigosos.

É por isso que acredito que a ênfase do movimento no futuro distante é uma coisa muito boa. O nosso mundo é aquele em que, contemplar o que está para vir, muitas vezes não se estende para além dos relatórios trimestrais e das próximas eleições políticas. No entanto, como sugerido acima, o futuro poderá conter quantidades astronómicas de valor, caso se consiga contornar o percurso de obstáculos dos perigos naturais e antropogénicos diante de nós. Embora as questões contemporâneas como a pobreza global, a doença e o bem-estar dos animais pesem bastante nas mentes de muitos altruístas eficazes, é encorajador ver um número cada vez maior de pessoas que levam a sério a questão do futuro da humanidade a longo prazo.

 


Texto de Phil Torres publicado no Motherboard / Vice a 20 de Junho de 2017.

Tradução de José Oliveira.

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